sexta-feira, 27 de março de 2009

Durkheim e o exercício da crítica

Em Les Règles de la Méthode Sociologique (1894), Émile Durkheim propõe que passemos a «considerar os factos sociais como coisas» [tradução portuguesa, pág. 49 e ss.].

«E, com efeito, até agora, a sociologia tem tratado mais ou menos exclusivamente, não de coisas, mas de conceitos» - acrescenta o autor.

De quem é que Durkheim está a falar?
  1. De Auguste Comte e da sua teoria do desenvolvimento histórico: «tomou a noção que tinha do desenvolvimento histórico, e que não difere muito da do vulgo, pelo próprio desenvolvimento»;
  2. De Herbert Spencer e da sua definição de sociedade: «o que se define assim não é a sociedade, mas a ideia que dela faz Spencer»;
  3. De John Stuart Mill e do objecto que este atribui à economia política: «a matéria da economia política, assim compreendida, é feita não de realidades que se podem apontar com o dedo, mas de simples possíveis, de puras concepções do espírito».
Segundo Durkheim, todos eles estão profundamente equivocados, não só por se recusarem a «tratar os factos sociais como coisas», mas, sobretudo, por declararem aprioristicamente como verdadeiras, proposições que «só podem ser demonstradas uma vez constituída a ciência».

«só podem ser demonstradas uma vez constituída a ciência» (!?)

Das duas uma:
  • Durkheim tem razão nesta crítica, logo, perde toda a legitimidade para dizer em que consistem os factos sociais e como devemos tratá-los nas nossas pesquisas;
  • Durkheim não tem razão nesta crítica, logo, as ideias de Comte, Spencer e Stuart Mill não podem ser descartadas só porque a ciência ainda não está suficientemente avançada para provar se elas são falsas ou verdadeiras.
(ou então o mito do «pai fundador» justifica todas as facadinhas no método!)

2 comentários:

Hugo Militão disse...

Nem mais.
Ninguém coloca em causa os «pais fundadores»...jamais

Daniel Figueiredo disse...

É daquelas coisas que me chateiam profundamente no Emílio (eu que gosto tanto de o ler): reparo nas críticas que ele faz a terceiros e fico muitas vezes com a sensação que aquilo que ele está a dizer se poderia aplicar a si mesmo e às suas ideias...

...então n'As Regras chega a ser verdadeiramente insuportável!