Reparem como o antropólogo brasileiro Eduardo Viana Vargas, num comentário crítico à sociologia durkheimiana, coloca o dedo na ferida de todas as sociologias (independentemente do modo como estas se posicionam relativamente a Durkheim):
Eduardo Viana Vargas (2000), Antes Tarde do que nunca: Gabriel Tarde e a emergência das ciências sociais, Rio de Janeiro, Contra Capa, pp. 156.
O princípio do projecionismo [i.e. os factos sociais são a expressão de uma realidade social sui generis], que em Durkheim segue junto ao princípio do causalismo morfológico [i.e. as representações colectivas reproduzem as formas de organização social], mas que de fato prescinde dele, não é prerrogativa do durkheimianismo, embora tenha contribuído decisivamente para sua difusão.
De maneira correlata, se Durkheim contribuiu para a difusão do princípio do projecionismo, este também ajudou a popularizar a sociologia durkheimiana, seja porque, como o princípio que lhe serve de contraface, aquele da redução dos absurdos [i.e. remissão de coisas aparentemente estranhas - o «crime», o «suicídio», as «formas primitivas de classificação» - a coisas aparentemente menos estranhas - a «sociedade», a «vida social», a «consciência colectiva»], é engenhoso o suficiente para atrair a atenção dos cientistas, seja porque, ao fornecer a resposta antes do problema, ao estabelecer de antemão a sociedade como o elemento efetivamente explicativo, não passando tudo mais de uma expressão dessa verdade que é a sociedade, torna as coisas mais fáceis, já que evita o problema crucial de saber precisamente em que consiste a sociedade.
No projecionismo, a noção de sociedade (ou de cultura) é naturalizada: a análise segue até ela e pára, como se tivesse encontrado a explicação. O problema, contudo, apenas começou, pois se cada fato social é a projeção da sociedade, a questão que inevitavelmente surge é a de saber o que, afinal, é a própria sociedade...
Dito de outro modo, se a sociedade determina tudo, sendo tudo mais sua expressão, o que é a sociedade sem isso tudo?
Eduardo Viana Vargas (2000), Antes Tarde do que nunca: Gabriel Tarde e a emergência das ciências sociais, Rio de Janeiro, Contra Capa, pp. 156.
2 comentários:
A ler antropólogos, ainda para mais, brasileiro...
És, naturalmente, um grande malandreco radical
(é curioso: encontrei o melhor comentário crítico a Durkheim numa obra sobre Tarde...)
Tenho imensa pena de não termos mais professores como Eduardo Viana Vargas (um grande exemplo de boa malandrice!)
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