Revue Philosophique, XXXIX, 1895
Gabriel Tarde - «Criminalité et santé sociale» (pp. 148-162)
Émile Durkheim - «Crime et santé sociale» (pp. 518-523)
Em resposta a um texto de Tarde que, por sua vez, tecia duras críticas a Les Règles de la Méthode Sociologique, Durkheim anuncia aquela que é, no seu entender, a verdadeira razão do diferendo entre os dois: «Il vient avant tout de ce que je crois à la science et de ce que M. Tarde n'y croit pas» [eu acredito na ciência e o Sr. Tarde não]. Perguntam vocês: o que motivou uma afirmação tão contundente da parte de Durkheim?
Tudo indica que o pecado capital de Tarde terá sido o seguinte aos olhos do seu oponente: não aceitar conceder à ciência o privilégio de comandar a vida humana!
Para Tarde, o poder da ciência exerce-se apenas no intelecto dos Homens e nunca no seu coração.
Não vale a pena pedir-lhe aquilo que ela não pode dar sob pena de se comprometer a si mesma.
Para Durkheim, uma ciência só é digna desse nome se contribuir para a «regulação positiva da conduta».
Ela deve pôr fim ao «reino da anarquia» na «ordem prática», pondo fim ao «reino da fantasia» na «ordem intelectual».
À ciência o que é da ciência; ao coração aquilo que é do coração - este bem podia ser o lema de Tarde.
À ciência não só o que é da ciência, mas também aquilo que é do coração dos Homens - este bem podia ser o lema de Durkheim.
Será correcto dizer que Tarde não acredita na ciência só porque não acredita na vocação utilitária que Durkheim lhe atribui?
Afinal de contas, o que é isso de «acreditar na ciência»?
Gabriel Tarde - «Criminalité et santé sociale» (pp. 148-162)
Émile Durkheim - «Crime et santé sociale» (pp. 518-523)
Em resposta a um texto de Tarde que, por sua vez, tecia duras críticas a Les Règles de la Méthode Sociologique, Durkheim anuncia aquela que é, no seu entender, a verdadeira razão do diferendo entre os dois: «Il vient avant tout de ce que je crois à la science et de ce que M. Tarde n'y croit pas» [eu acredito na ciência e o Sr. Tarde não]. Perguntam vocês: o que motivou uma afirmação tão contundente da parte de Durkheim?
Tudo indica que o pecado capital de Tarde terá sido o seguinte aos olhos do seu oponente: não aceitar conceder à ciência o privilégio de comandar a vida humana!
Para Tarde, o poder da ciência exerce-se apenas no intelecto dos Homens e nunca no seu coração.
Não vale a pena pedir-lhe aquilo que ela não pode dar sob pena de se comprometer a si mesma.
Para Durkheim, uma ciência só é digna desse nome se contribuir para a «regulação positiva da conduta».
Ela deve pôr fim ao «reino da anarquia» na «ordem prática», pondo fim ao «reino da fantasia» na «ordem intelectual».
À ciência o que é da ciência; ao coração aquilo que é do coração - este bem podia ser o lema de Tarde.
À ciência não só o que é da ciência, mas também aquilo que é do coração dos Homens - este bem podia ser o lema de Durkheim.
Será correcto dizer que Tarde não acredita na ciência só porque não acredita na vocação utilitária que Durkheim lhe atribui?
Afinal de contas, o que é isso de «acreditar na ciência»?
6 comentários:
Pode-se dizer que este Tarde chegou bem cedo do seu tempo...
Curioso, também, é o facto de muito boa gente se referir a Durkheim como uma espécie de «herói desinteressado» que teria «fundado» a sociologia apenas e só por «amor ao conhecimento»...
Tretas!
Durkheim tinha um «projecto» relativamente bem definido: a reorganização moral da sociedade francesa de finais do século XIX.
E a sua sociologia foi sempre comandada por esse desejo!
Outra coisa:
Embora a oposição entre teoria e prática tenha muito que se lhe diga (creio que tu também partilhas este desconforto...), arriscaria dizer que Durkheim é, sobretudo, um «homem de acção».
Ou, pelo menos, um espécime particular do «homem de acção»: aquele que estipula aquilo que há a fazer para cumprir um determinado desígnio (que ele também se encarrega de definir).
Calculo que esta visão não seja consensual e admito que talvez possa não me estar a explicar tão bem quanto gostaria.
Ainda assim, na comparação com Tarde, essa característica torna-se bastante saliente.
Durkheim está sempre a dizer, mesmo em ocasiões onde nada faria supor que essa fosse a modalidade discursiva dominante, que é preciso fazer isto e aquilo e isto e aquilo.
«Il faut», diz ele a toda a hora (estive a fazer uma semântica quantitativa...até cansa!)
Tarde, por seu turno, não se pode dizer que estivesse alheado das grandes questões políticas, sociais e filosóficas do seu tempo.
Mas assume o seu individualismo com naturalidade (pode parecer «cliché», mas para ele é mais importante o «mundo interior» do que o «mundo exterior»!).
Justamente aquela postura que Durkheim acreditava estar na origem da «crise» que a França atravessava na época...
Acabo de perceber o porquê do Tarde não ser uma referência no nosso Instituto...não serve os propósitos do utilitarismo.
Deixem-se de simbolismos e de individualisses... Dediquem-se à acção e façam algo de útil, seus malandros!!!
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