sexta-feira, 29 de maio de 2009

Do sujeito «escrever-para-a-tese» enquanto «projecção identitária»

Um dos problemas de quem escreve pouco (ou, o que vai dar no mesmo, de quem escreve alguma coisa de muito em muito tempo), é a tendência para mistificar o próprio processo de escrita e tudo aquilo que lhe está associado.

Como, no dia-a-dia do «trabalho autónomo», esta categoria de principiantes se limita a fazer umas anotações nas margens dos livros e uns rabiscos numas folhas em branco, a mera representação mental de uma figura humana sentada diante de um computador a escrever um capítulo de uma tese (ou qualquer coisa passível de vir a entrar nessa tese) constitui uma experiência de alteridade radical.

«Quem é aquela pessoa?»

Embora aquel@ que imagina a figura esteja a fazer um esforço tremendo para se colocar no lugar da figura (i.e. no lugar de alguém que está a escrever para a tese), essa projecção identitária dificilmente terá sucesso.

Entre o sujeito anotações-rabiscos e o sujeito escrever-para-a-tese existe um abismo quase insuperável.

E, no entanto, o sujeito anotações-rabiscos reconhece todos os seus objectos pessoais naquele quadro: o seu portátil de marca portuguesa, os seus livros empilhados, os seus lápis minúsculos, o seu candeeiro futurista, a sua florzinha de vidro, etc.

Até o barulho dos carros, lá fora, parece ser exactamente igual.

Só falta o mais importante: reconhecer-se a si mesmo...e começar a escrever!

2 comentários:

Hugo Militão disse...

O abismo é enorme. E o pior é que quando, finalmente, interpretamos a personagem "sujeito escrever-para-a-tese", não sabemos se, de facto, estamos a escrever a tese ou se continuamos a fazer rabiscos.

Luís Miguel Santos disse...

É um problema!!! estar à beira do abismo e ter de dar um passo em frente (convem que seja um salto!)

Obrigado amigo Daniel... sinto-me a recuperar a minha identidade... afinal sou um sujeito anotações-rabiscos"!!!