No outro dia comi a globalização (não, não é isso que estão para aí a pensar!)...comi uma manga importada que, para meu espanto, era tão doce que parecia ter sido colhida no exacto momento que lhe cravei os dentes.
O facto daquela manga manter aquela doçura ignorante das distâncias das oceanidades e continentidades, remete-me, imediatamente, para a seguinte questão: será a doçura daquela manga um reflexo de uma globalização que se adoça à medida que nos aproxima?
A resposta, muito provavelmente, deve encontrar-se na esquizofrénica relação que anima a dicotomia distância/proximidade, quando o assunto é globalização.
Por um lado, permite a partilha da doçura tropical com os que se encontram do lado de cá da linha – portanto, uma lógica de proximidade.
Por outro, o grosso do lucro material dessa partilha, não é partilhada com os que se encontram do lado de lá da linha – portanto, uma lógica de usurpação e de dominação económica.
Eis a doçura da globalização, que só se adoça nos domínios da exploração do exótico…
Saudações do lado dos “países primitivos atrasados” – portanto, do lado de lá.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
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7 comentários:
Mas no que é que nós estamos a pensar? Eu não estava a pensar em nada... tu é que pensas que eu estava a pensar naquilo que, na verdade, ocupava o teu pensamento.
(Não te preocupes, eu também estou confuso)
Simples acções do quotidiano são capazes de denunciar a perturbadora relação entre o «ocidente» e o «resto do mundo».
PS: tens que ler o meu trabalho de Teorias II (mestrado).
"lógica de usurpação e de dominação económica" não me parece nada, se os doces lucros fossem partilhados irmamente por ambos os lados da linha, já se sabe em breve deixariam de haver mangas a atravessar a linha, pelo menos é o que pensam os «especialistas», do lá do de cá da linha, obviamente!!!
PS: Hugo os meus tico e o teco ficaram doidos de vez!!!! (sempre é bom lembrar que ainda existem!)
PS2: Dauto fiquei com uma dúvida: achas que estavamos a pensar que tinhas comido a árvore que dá, tão adocicado, fruto?!
PS3: Qual globalização, a culpa da manga chegar doce às sociedades modernas avançados, deve-se simplesmente ao facto de vir de avião em vez de vir de barco!!! As que vêm de barco, mesmo na era da globalização, continuam a chegar verdes como um corno!!!
No outro dia, tava a comer uma papaia e disse, alto e em bom som: «esta papaia é mesmo amarga!».
Vira-se o meu Pai: «para mim é demasiado doce».
Será que o meu paladar se está a tornar insensível às «doçuras da globalização»?
Produzem-se muitos kiwis na zona de Sintra. Quase se sente o sabor da neblina e da terra húmida.
Lembrei-me de vocês no outro dia - um amigo meu disse que estava a fazer uma "limpeza" à biblioteca de lá de casa e que tinha uns livros de que se queria desfazer. Tirou um desses livros de um saco e perguntou se queria ficar com ele: o livro chamava-se Conhecimento prudente para uma vida decente, organizado por BSS.
Curioso, hein?
Cumprimentos para todos, em especial para o Dautarin, cuja escrita tende a ser mais rara.
Miguel
Hugo e Luís,
Para que não pensem que o nosso blog é um "manual de maus costumes", não irei revelar o que eu pensei que iriam pensar sobre o que eu pensei quando escrevi aquela frase.
Daniel,
o problema não é o teu paladar. A ilusão das doçuras da globalização é que está a tornar-se amarga.
Miguel,
obrigado pelos cumprimentos. Considerarei isso um estímulo para escrever com mais frequência.
Abraço
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