segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Comendo a GLOBALIZAÇÃO

No outro dia comi a globalização (não, não é isso que estão para aí a pensar!)...comi uma manga importada que, para meu espanto, era tão doce que parecia ter sido colhida no exacto momento que lhe cravei os dentes.

O facto daquela manga manter aquela doçura ignorante das distâncias das oceanidades e continentidades, remete-me, imediatamente, para a seguinte questão: será a doçura daquela manga um reflexo de uma globalização que se adoça à medida que nos aproxima?

A resposta, muito provavelmente, deve encontrar-se na esquizofrénica relação que anima a dicotomia distância/proximidade, quando o assunto é globalização.

Por um lado, permite a partilha da doçura tropical com os que se encontram do lado de cá da linha – portanto, uma lógica de proximidade.

Por outro, o grosso do lucro material dessa partilha, não é partilhada com os que se encontram do lado de lá da linha – portanto, uma lógica de usurpação e de dominação económica.

Eis a doçura da globalização, que só se adoça nos domínios da exploração do exótico…


Saudações do lado dos “países primitivos atrasados” – portanto, do lado de lá.

7 comentários:

Hugo Militão disse...

Mas no que é que nós estamos a pensar? Eu não estava a pensar em nada... tu é que pensas que eu estava a pensar naquilo que, na verdade, ocupava o teu pensamento.

(Não te preocupes, eu também estou confuso)

Simples acções do quotidiano são capazes de denunciar a perturbadora relação entre o «ocidente» e o «resto do mundo».

PS: tens que ler o meu trabalho de Teorias II (mestrado).

Luís Miguel Santos disse...

"lógica de usurpação e de dominação económica" não me parece nada, se os doces lucros fossem partilhados irmamente por ambos os lados da linha, já se sabe em breve deixariam de haver mangas a atravessar a linha, pelo menos é o que pensam os «especialistas», do lá do de cá da linha, obviamente!!!

PS: Hugo os meus tico e o teco ficaram doidos de vez!!!! (sempre é bom lembrar que ainda existem!)

PS2: Dauto fiquei com uma dúvida: achas que estavamos a pensar que tinhas comido a árvore que dá, tão adocicado, fruto?!

PS3: Qual globalização, a culpa da manga chegar doce às sociedades modernas avançados, deve-se simplesmente ao facto de vir de avião em vez de vir de barco!!! As que vêm de barco, mesmo na era da globalização, continuam a chegar verdes como um corno!!!

Daniel Figueiredo disse...

No outro dia, tava a comer uma papaia e disse, alto e em bom som: «esta papaia é mesmo amarga!».

Vira-se o meu Pai: «para mim é demasiado doce».

Será que o meu paladar se está a tornar insensível às «doçuras da globalização»?

Miguel disse...

Produzem-se muitos kiwis na zona de Sintra. Quase se sente o sabor da neblina e da terra húmida.

Lembrei-me de vocês no outro dia - um amigo meu disse que estava a fazer uma "limpeza" à biblioteca de lá de casa e que tinha uns livros de que se queria desfazer. Tirou um desses livros de um saco e perguntou se queria ficar com ele: o livro chamava-se Conhecimento prudente para uma vida decente, organizado por BSS.

Curioso, hein?

Cumprimentos para todos, em especial para o Dautarin, cuja escrita tende a ser mais rara.

Miguel

Dautarin da Costa disse...

Hugo e Luís,

Para que não pensem que o nosso blog é um "manual de maus costumes", não irei revelar o que eu pensei que iriam pensar sobre o que eu pensei quando escrevi aquela frase.

Dautarin da Costa disse...

Daniel,

o problema não é o teu paladar. A ilusão das doçuras da globalização é que está a tornar-se amarga.

Dautarin da Costa disse...

Miguel,

obrigado pelos cumprimentos. Considerarei isso um estímulo para escrever com mais frequência.

Abraço