domingo, 22 de novembro de 2009

Das intuições

Há dias em que nada resulta, puxa-se pela cabeça, rabisca-se qualquer coisa, manda-se a tese às urtigas, torna-se a puxar novamente pela cabeça, rabisca-se novamente qualquer coisa, manda-se novamente a tese às urtigas, nada feito, é inútil insistir, e assim passam-se horas, por vezes dias, chegamos a duvidar da nossa inteligência, quiça da nossa vontade, será que é isto que eu quero?, e eis que decidimos ir para a cama, exaustos das tropelias diurnas, amanhã é que é, ou depois de amanhã, não importa, agora preciso de descansar, para estar pronto, para não ser apanhado desprevenido, para aproveitar quando a oportunidade surgir, ah!, a oportunidade!, estará para breve?, esperemos que sim, desejamos que sim, e assim nos agarramos à almofada, e assim fechamos os olhos, e assim, devagarinho, e assim, pé ante pé, e assim, sem fazer barulho, lá aparece, antes do previsto, a fada das intuições, tu?, agora?, neste preciso momento?, não dá para resistir, e eis que decidimos interromper o semi-sono, meio alegres, meio alucinados, começamos a fotografar mentalmente tudo aquilo que nos vem à cabeça, ah!, como é bom sentir o fluxo de ideias a atravessar o espírito!, não dá para parar, é viciante, é estonteante, por esta altura estamos mais despertos do que durante o dia inteiro, o mesmo dia em que tudo parecia estar perdido, não fosse a noite reservar esta enorme surpresa, continuam a chegar intuições de todo o lado, como é que eu não tinha dado conta desta?, vêm de todas as direcções, deixa-me agarrar-te que me escapas, primeiro uma, depois duas, três, quatro, de repente, começam a escapar muitas, muitas mais do que aquelas que conseguimos prender, estica-se o tentáculo aqui, estica-se o tentáculo acolá, é a dança das intuições, e eu a vê-las dançar, esperem, por favor, esperem, vou só ali buscar o bloco de notas e a caneta, alguma coisa tem de ficar guardada, alguma coisa tem de ficar comigo, alguma coisa tem de ser aproveitada, alguma coisa, alguma coisa, alguma coisa...

No dia seguinte, as olheiras.

2 comentários:

Luís Miguel Santos disse...

Ainda há quem diga que é mau ter um sono leve ou custar a adormecer!!!

Hugo Militão disse...

Conheço bem esse vazio inspiracional.
Não há nada pior do que passar horas em frente a um computador e sentir, no final do dia, que não avançámos nada.