Ocorreu-me partilhar, hoje, uma inquietação que não é recente.
Interesso-me, há muito, pelo debate sociológico sobre a evolução do fenómeno criminal. Durante o meu percurso académico, consultei vários estudos sobre aquele objecto. Essa leitura potenciou-me percepcionar um canonismo conceptual, no debate sobre a evolução da criminalidade. Passo a explicar:
Diz a produção estatística...essa chave para o estatuto científico...que o crime sofreu, nas «sociedades avançadas» um aumento significativo, ao longo das últimas décadas. Não arrisco contrariar aquela tendência evolutiva da criminalidade. Se as estatísticas o dizem...Mas não posso deixar de criticar a leitura canónica, institucionalizada no seio daquele debate. Uma grande quantidade de contributos teóricos apropriam, frequentemente, o rótulo «Efeitos do Processo de Modernização», na explicação daquele aumento.
É inquietante observar o fechamento conceptual que caracteriza os estudos sociológicos sobre a evolução do crime. Presos aos chavões do canonismo sociológico, teme-se, entre esta comunidade científica, ultrapassar as barreiras da sociologia...teme-se entrar no domínio conceptual de outras disciplinas sociais.
A incessante apropriação das teorias da modernidade, no debate sobre a evolução do crime, não se fica por aqui. Na verdade, aquele conceito é dotado de uma volatibilidade impressionante:
- ele, não só, é capaz de explicar o aumento do crime nas «sociedades avançadas», como também, explicar a criminalidade existente nas «sociedades primitivas».
- confusos?...nas «sociedades avançadas», a crescente modernização explica o aumento do crime; nas «sociedades primitivas», a criminalidade é explicada pelo...atraso no processo de modernização daquelas sociedades.
É ciência!
quarta-feira, 29 de abril de 2009
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2 comentários:
Grande post!
Vais pôr isto na tese?
Seria uma óptima ideia...
(podemos estar a trabalhar em coisas diferentes, mas o espírito é o mesmo: ambos fomos alunos da prof. TSS e isso nota-se!)
Muito bem, meu caro!
Acabaste de denunciar um dos efeitos daquilo que a sociologia mainstream se quer tornar. Uma ciência sem capacidade para interpretar os números que animam a sua produção.
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