Durkheim chama-lhes «artifícios de método», isto é, tudo aquilo que concorre para a criação de um objecto sui generis devidamente expurgado de «elementos estranhos» e «misturas nocivas».
Percebe-se a ideia: mesmo que fique por provar a dissociação do social e do individual, se o sociólogo conseguir isolar analiticamente o primeiro do segundo, não só ninguém se importará por aí além com a ausência de uma prova, como até é expectável que com o passar do tempo muitos acabem convencidos de que os factos sociais são REALMENTE distintos das formas que assumem nas consciências individuais!
E o que é que permite isolar o social do individual?
O que é que torna possível o objecto sui generis da sociologia?
Durkheim tem a palavra:
Assim, há certas correntes de opinião que nos levam, com intensidade desigual, segundo o tempo e os países, uma ao casamento, por exemplo, outra ao suicídio ou a uma natalidade mais ou menos forte, etc. São, evidentemente, factos sociais. À primeira vista, parecem inseparáveis das formas que tomam nos casos particulares. Mas a estatística fornece-nos o meio de os isolar. Com efeito, são representados, com exactidão, pela taxa de natalidade, de nupcialidade, de suicídios, quer dizer, pelo número que se obtém dividindo o total médio anual dos casamentos, dos nascimentos e das mortes voluntárias pelo dos homens em idade de casar, de procriar, de se suicidar. Pois, como cada um destes números compreende todos os casos particulares indistintamente, as circunstâncias individuais que podem ter influência na produção do fenómeno neutralizam-se mutuamente e, por conseguinte, não contribuem para o determinar. O que ele exprime é um certo estado da alma colectiva.
[Les Règles de la Méthode Sociologique, tradução portuguesa, meus sublinhados, pág. 42-43]
[continua]
3 comentários:
No fundo, a estatística é como o Liedson...também resolve.
O esforço do nosso DIVINO Mestre em anular o agente, traz muita luz ao que acontece em muitas sociologias contemporâneas (avançadas?).
Hugo tiráste-me as palavras dos dedos...
Estou preocupado: sou homem em idade de procriar, nupcial de me suicidar (embora não conheça os seus limites! se alguém os conhecer, agradeço que me avise)... Que fazer primeiro para me sentir integrado?
1. caso-me, faço um filho na minha mulher (ou noutra qualquer) e depois máto-me
2. ajudo uma mulher a fazer um filho, depois caso-me e por fim máto-me voluntáriamente
3. máto-me voluntáriamente e passo a ser um «anormal» (eu sei que já o sou!) que nem faz filhos nem se casa
UF!!!
Ainda dizem que isto é simples!?
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