domingo, 12 de abril de 2009

Sociedades Modernas Avançadas????!!!!???!!!??

Na 5ª feira vi, na SIC Notícias, um documentário sobre jovens sem-abrigo de uma cidade em França. Ao mesmo tempo que visionava os relatos daqueles jovens, – que transpiravam, nas suas frases, a implicitude dos seus sonhos e a frustração antecipada da eventualidade da não concretização dos mesmos – não conseguia evitar a insistente invasão da noção de Sociedade Moderna Avançada na minha mente. O avanço de certas sociedades em relação a outras é uma tese que vagueia displicentemente por muitas salas da sociologia iscteana, sem as “chatices” – que os "chatos" deste blogue insistem em exigir – de um debate de aprofundamento conceptual.
Ao ver o documentário, para além de me indignar com a manifesta desigualdade social que brotava do ecrã, questionava, sobretudo, o papel da sociologia na determinação de sociedades avançadas e atrasadas. Trata-se de um papel que utiliza a autoridade científica para reforçar e promover lógicas de dominação simbólica daquilo que foi convencionado como o OCIDENTE, o NORTE e (agora?) o MODERNO AVANÇADO. Ao ver o documentário pensei que a França, dentro do referido catálogo, é um País Moderno Avançado que, tal como muitos Países Modernos Avançados, impõe a muitos dos seus jovens a incerteza e o fechamento de inscrição nas verdadeiras oportunidades de crescimento. Pensei que na Guiné-Bissau - o meu país - que, no catálogo, é certo na gaveta dos PAÍSES PRIMITIVOS ATRASADOS nunca vi jovens a dormirem na rua. Pensei se não restariam à sociologia papéis mais dignificantes que a catalogação de sociedades avançadas e atrasadas? Pensei, porquê que a sociologia insiste em alimentar o ego dos gestores do sistema - mundo? E, finalmente, pensei, porque importa a catalogação, se pessoas “deste lado” e do “outro lado” continuam a ser esvaziadas de seus direitos de cidadãos desse nosso mundo que insistimos em fronteirizar.

6 comentários:

Daniel Figueiredo disse...

Uma sociologia que negligencia a reflexão sobre os conceitos e as categorias que emprega nas suas pesquisas é uma sociologia conivente com lógicas neo-coloniais de dominação simbólica.

O problema não é só o facto de estes conceitos/categorias serem incapazes de nos guiar na leitura do real.

Um problema ainda mais grave é o seu «efeito de performatividade»:

A partir do momento em que eles se espalham e se consolidam enquanto conceitos/categorias de elevado «valor heurístico», quem é que ainda será capaz de pôr a hipótese do mundo ser outra coisa?

Num cenário de hegemonia conceptual do «moderno avançado» e do «primitivo atrasado», quem é que ainda conseguirá imaginar outras realidades?

Quem é que ainda conseguirá imaginar outras utopias?

Estamos a chegar à «idade das trevas»...e o pior de tudo é que começa a ser difícil encontrar um «canal de escape»!

PS1: bem vindo de novo (já percebi que a tua ideia é «poucos, mas bons»...)

PS2: se o Porto eliminar o United, pago um lanche aos meus companheiros de blog!

Abraço

Daniel Figueiredo disse...

Todos nós precisamos de elogios de vez em quando.

Post muito bem escrito (é um prazer ler coisas assim).

Fico ansioso pelo próximo!

Dautarin da Costa disse...

Meu caro, obrigado pelos comentários. Se no meu caso "são poucos mas bons", no teu caso "são muitos e muitos bons". Os teus últimos posts são autênticos contributos para a reflexão da teoria sociológica.

Dautarin da Costa disse...

Sabes, meu caro, nos últimos dias as minhas inquietações têm ido ao encontro dos episódios decorrentes da instabilidade no meu país (daí a minha ausência) e das categorias e conceitos que analistas têm utilizado para explicar coisas que não conhecem e, pior, que não querem conhecer porque, precisamente, encontraram aconchego nos conceitos/categorias que engavetam coisas e que, na verdade, explicam nada.

Luís Miguel Santos disse...

Ñ sei o que se anda a passar, mas tanto elogío... acho que as «novidades» vão ser bem diferentes do que aquilo que estavamos à espera, ou não!!!

Quanto ao post propriamente dito, parece-me razoável, pois não entende como é que um sociólogo licenciado pelo iscte, assume, em poucas linhas, que pensou várias vezes!? Será pelo facto do autor do post se oriundo das «sociedades primitivas atrasadas»!? Ñ pode ser ele nasceu sformou-se nas «sociedades modernas avançadas»!!!

PS: párem de questionar os conceitos que existem para nos facilitar a vida... ou seja, mantendo e promovendo a desigualdade!!!

Hugo Militão disse...

Felicito-te por este post. Não podia ser mais pertinente.
Não vi a reportagem, mas consigo situá-la, perfeitamente, no discurso sociológico «clichê». É deprimente assitir a um discurso tão discriminatório - ainda para mais, numa disciplina social que se auto caracteriza «desprovida de preconceitos».
Ter uma cadeira, cujo título é "Processos de mudança nas sociedade contemporâneas" (título ao qual o reformado DM - que boa reforma que este deve ter - ainda acrescentou o termo «avançadas») é sintomático do discurso sociológico abissal que denuncias.