A citação abaixo apresentada é um excerto de uma carta reivindicativa enviada por editores e livreiros de Lisboa à rainha de Portugal, no último quartel do século XVIII, a propósito da venda ambulante de pequenas histórias escritas - as chamadas "folhinhas" - por indivíduos cegos, que retirariam, desse venda, parte significativa do seu rendimento. Conseguindo-se assim reduzir os casos de indigência de pessoas cegas (pelo menos era o objectivo das autoridades).
"Os segundos (os cegos) porque sendo os cegos a classe de homens mais inerte e menos intelligentes deste mundo tanto em razão da sua cegueira, que lhes priva de semilhantes conhecimentos, como em razão dos seus anteriores exercicios, e ignorancia crassa, mal poderem dezempenhar com satisfação do publico hum negocio em que he necessario ao commerciante ter ao menos huma não leve noticia do merecimento das obras, dos seus impedimentos, ou liberdades, do numero de tomos de cada jogo, da superioridade das edições, e de outras coizas similhantes, (...) Alem disto os cegos são huma classe de homens, que pela sua summa pobreza, e pela mizeria em que os constituio a sua molestia, não tem forças, nem dinheiros para manejarem hum trafico de tanto custo, de que rezulta que por mais exuberantes que sejam os seus privilegios nunca estes podem deixar de andar importunando a Republica, e viver de caridade do seu proximo. Por esta forma a sua mizeravel condição os faz incapazes de poder recahir sobre eles com proveito seu e do publico a beneficientissima de V. Magestade."
Citação retirada de: Martins, Bruno Sena (2006), «E Se Eu Fosse Cego»?: Narrativas Silenciadas da Deficiência, Porto, Edições Afrontamento, pp. 178
"Os segundos (os cegos) porque sendo os cegos a classe de homens mais inerte e menos intelligentes deste mundo tanto em razão da sua cegueira, que lhes priva de semilhantes conhecimentos, como em razão dos seus anteriores exercicios, e ignorancia crassa, mal poderem dezempenhar com satisfação do publico hum negocio em que he necessario ao commerciante ter ao menos huma não leve noticia do merecimento das obras, dos seus impedimentos, ou liberdades, do numero de tomos de cada jogo, da superioridade das edições, e de outras coizas similhantes, (...) Alem disto os cegos são huma classe de homens, que pela sua summa pobreza, e pela mizeria em que os constituio a sua molestia, não tem forças, nem dinheiros para manejarem hum trafico de tanto custo, de que rezulta que por mais exuberantes que sejam os seus privilegios nunca estes podem deixar de andar importunando a Republica, e viver de caridade do seu proximo. Por esta forma a sua mizeravel condição os faz incapazes de poder recahir sobre eles com proveito seu e do publico a beneficientissima de V. Magestade."
Citação retirada de: Martins, Bruno Sena (2006), «E Se Eu Fosse Cego»?: Narrativas Silenciadas da Deficiência, Porto, Edições Afrontamento, pp. 178
2 comentários:
A isto se poderia chamar «bater no ceguinho» para o proteger!
Gosto particularmente da referência à «República» numa carta enviada à Rainha de Portugal!
Mas, enfim, como é tudo em nome da «inclusão», não deve haver problema...
PS: ainda dizem que os jovens de hoje assassinam a língua portuguesa; tretas; a malta quer é recuperar os arcaísmos do século XVIII!
Não sou cego, mas tive que ler o excerto umas 5 ou 6 vezes para perceber o seu conteúdo...parecendo que não, estes arcaísmos «cegam-nos» o intelecto.
Uns quantos meses depois regressas ao activo, e logo em dose dupla...começava a ficar preocupado.
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