
Não me considerando, nem de perto nem de longe, um especialista em Durkheim, pergunto-me, às vezes, se ao fim de tantas e tantas leituras não deveria ter uma espécie de vista panorâmica sobre a sua obra, que me permitisse falar dele de um modo muito genérico e vago, do tipo, «Durkheim é isto e a sua obra é assado», estão a ver o jeito que me dava?, escaparia incólume aos interrogatórios de terceiros e passaria a imagem de alguém que parece saber do que está a falar, no entanto, é justamente por crer saber do que estou a falar que creio saber que tudo isto não passa de uma fantasia, sempre desconfiei de fulana e sicrano que falam nesse tom senhorial sobre autores e obras, como se fosse a mesma coisa falar de Durkheim e falar da novela das vinte e uma e trinta, como se Durkheim fosse um colega de carteira de quem se conhecem todos os segredos sem ser preciso perguntar o que quer que seja, ah!, mas que grande ilusão!, em bom rigor, e se querem que vos diga, a coisa parece funcionar ao contrário, quanto mais investigamos mais fica por investigar, é certo que existe sempre alguma progressão, mas o caminho que existe para explorar também aumenta, o risco é evidente, acabar por não chegar a lado nenhum, ficar a meio, algures, a arfar de cansaço, sem vontade de continuar, o que fazer nesse instante?, olhar para cima?, olhar para baixo?, desistir?, tarde demais para desistir, seria um desperdício, assim como também seria um desperdício não querer apreciar a paisagem do nível de altitude a que se chegou, por isso, façam o favor de se sentarem e de tirarem uma fotografia, o facto de não se assemelhar a um postal é a melhor prova da sua autenticidade, a melhor prova que é vossa, que é única, e que poderão falar dela com a sensatez de quem sempre soube que o mundo não cabe numa fotografia, mesmo que ela pareça ter sido tirada no miradouro mais alto de todos, aquele que não existe.
8 comentários:
enjoy the view...
Assim de repente; isto tudo por causa de uma tese de Bolonha, daquelas com 40 e poucas páginas?
Grande post. E que grande tese de mestrado.
Daniel, fico feliz por saber que Bolonha não te impede de seres tu próprio.
Tens o dom de transformar «40 e poucas páginas» em «isto tudo». Fantástico!
Fico feliz por saber que o teu génio supera as limitações impostas por Bolonha.
Ainda bem que sobram pessoas como tu ... capazes de transformar «40 e poucas páginas» numa tese com uma profundidade intelectual capaz de fazer inveja a muitas dissertações de cento e tal páginas. Essa é a grande dificuldade dos mestrado de Bolonha em Sociologia.
Os meus parabéns!
Luís Rainha:
Antes pelo contrário.
É justamente por serem tão poucas páginas que a pressão para fazer um trabalho gratificante aumenta...
Hugo:
Oxalá a tese venha a estar ao nível dos teus elogios.
Obrigado.
Mil perdões. Não me tinha apercebido de estar perante o Génio. Cá fico, humilde e aguardando em jubilosa esperança o fruto de tão magnífico labor. Mas não acabou já o prazo para a entrega das dissertações?
Perdões aceites.
Grande Post!
É sempre bom ver um investigador que sabe retirar o prazer do conhecimento do desconhecimento.
Aquele abraço
Só falto eu...
Excelente post!!!
É um privilégio ter um amigo assim tão apaixonado e dedicado ao seu trabalho, podendo ser seu "colega de carteira" em algumas ocasiões...
Subescrevo tudo o que diz o Hugo, é óptimo saber que conseguiste transformar as limitações bolonhenses em potencialidades exploradas pelo teu génio.
PS: Caro Luís, o prazo já expirou de facto, mas existe a possibilidade de o prolongar por mais alguns meses, mediante o pagamento de uma quantia. Pagamento esse (500 euros), que terá de ser efectuado até 16 de Novembro, creio.
PS2: ainda dizem que estragamos ao negócio!?
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