quarta-feira, 25 de março de 2009

«Mamã, como é que se fazem as representações colectivas?» (IV)

Uma coisa é dizer que os caracteres específicos da vida social não podem ser encontrados nos elementos também eles específicos da vida psíquica (a ideia da independência relativa entre um determinado nível e o seu respectivo substrato).

Outra coisa é dizer que se trata de uma transformação cientificamente irrepresentável (aquilo que Durkheim faz quando desvaloriza o papel do substrato e remete o problema para o domínio da metafísica).

Outra coisa ainda é dizer que as representações colectivas ganham vida própria («vie propre»), a partir do momento em que um primeiro fundo de representações («un premier fonds de représentations») é constituído:

Mais une fois qu'un premier fonds de représentations s'est ainsi constitué, elles deviennent, pour les raisons que nous avons dites, des réalités partiellement autonomes qui vivent d'une vie propre. Elles ont le pouvoir de s'appeler, de se repousser, de former entre elles des synthèses de toutes sortes, qui sont déterminées par leurs affinités naturelles et non par l'état du milieu au sein duquel elles évoluent. Par conséquent, les représentations nouvelles, qui sont le produit de ces synthèses, sont de même nature: elles ont pour causes prochaines d'autres représentations collectives, non tel ou tel caractère de la structure sociale.

[«Représentations individuelles et représentations collectives», 1898, pág. 20]

Vida própria? Sínteses de todo o tipo? Afinidades naturais?

Segundo Durkheim, as representações colectivas formam-se a partir de outras representações colectivas!

Mas que enorme salto de fé...

Fiquem para ver: «Mamã, como é que se fazem as representações colectivas?»

1 comentário:

Hugo Militão disse...

"...as representações colectivas ganham vida própria («vie propre»), a partir do momento em que um primeiro fundo de representações («un premier fonds de représentations») é constituído"
Mas este «primeiro fundo de representações é constituído" por quê?...por outro fundo de representações anterior...que é resultado de outro fundo de representações, mais anterior ainda... por aí fora.
A crença não constitui problema. O problema está na recusa da crença, quando ela está, manifestamente, presente.