terça-feira, 29 de setembro de 2009

Referências indesejadas


Aposto que todos os principiantes - estudantes ou antigos estudantes - passaram já pela experiência de ter um mau professor.
Confesso que já passei por diversas experiências desse tipo. Enfim, nada de preocupante.

O problema surge quando uma má referência académica se transforma numa referência académica ... útil. Isto é mais ou menos como ser militante do Bloco de Esquerda e votar no Partido Socialista argumentando o voto útil devido à ameaça do PSD (PSD ameaça??? Tá tudo maluco!!!)...

Politiquices à parte, então não é que uma das piores experiências académicas que enfrentei se transformou numa referência teórica ... não digo útil, mas vá lá, extremamente útil ... para a exequibilidade da minha tese de mestrado.

Confesso que foi difícil engolir este sapo. Espero não ter problemas digestivos.

sábado, 26 de setembro de 2009

Do primeiro capítulo

Pode levar uma eternidade a ser escrito.

Pode até nem disfarçar as pontas soltas.

Mas ninguém nos tira a satisfação de vermos a nossa tese começar por algum lado.

O primeiro capítulo é uma bênção: vem na altura certa para pôr cobro não só às nossas dúvidas, como também (principalmente?) às dúvidas dos outros.

«Sim, é verdade, nós trabalhamos, we work, nous travaillons, nosotros trabajamos!» - é o que apetece dizer quando a habitual rasteirinha («como vai a tese?») vem acompanhada do sorrisinho maroto («eu sei que tu sabes que eu sei o que é isso de fazer uma tese»).

Não é que os nossos interlocutores (pais, amig@s, coleg@s) façam por mal, mas a verdade é que paira sempre uma certa suspeita sobre aquilo que estamos a fazer (nomeadamente, se estamos mesmo a fazer alguma coisa).

Pois bem, o primeiro capítulo, se não acaba com essa suspeita, ajuda a mitigá-la durante algum tempo.

O tempo necessário para recuperar o fôlego...e começar a escrever o segundo capítulo!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O novo, o antigo e o inimaginável

Já imaginaram quão determinante pode ser o simples facto de se fazer uma disciplina em vez doutra ao longo de um percurso académico?

Cada vez que me lembro que ainda tive a oportunidade de frequentar a cadeira Teorias Sociológicas Contemporâneas: Debates no antigo modelo, não posso deixar de me sentir um felizardo.

Eram as únicas aulas pelas quais ansiava verdadeiramente ao longo do semestre.

Quantas vezes não desejei que o tempo se prolongasse, que não acabasse nunca e que pudéssemos ficar todos e todas para sempre envolvid@s naquela efervescência intelectual...

O que estaria hoje a fazer caso tivesse apanhado a cadeira no novo modelo?

Ou não estaria a fazer nenhuma tese ou então não estaria a fazer uma tese com o mesmo gosto desta que estou a fazer agora.

Afinal de contas, foi a reflexão sobre o estatuto dos clássicos em sociologia que me levou a Durkheim.

Foram aquelas aulas, aquele programa, aquel@s coleg@s, aquela professora e aquelas tertúlias que me fizeram voltar a pegar num livrinho que estava na prateleira a ganhar pó e ácaros.

Descobrindo «controvérsia» onde julgava que ela nunca poderia existir.

Desconstruindo a interpretação «controlada» que nos tinha sido imposta precocemente.

Hoje, quando penso no que vivi, quando folheio o tal livrinho e quando oiço um
compagnon de route dizer que aquele trabalho foi o que lhe deu mais gozo em 5 anos de «ensino superior», não posso deixar de me sentir um sortudo.

Infelizmente, @s coleg@s mais nov@s não poderão dizer o mesmo.

Nem sequer poderão suspeitar que uma cadeira da qual nunca ouviram falar, um programa que nunca tiveram em mãos e uma professora que nunca chegaram a conhecer, poderiam ter tido nel@s a salutar influência que tiveram em mim e n@s minh@s coleg@s.

Se el@s soubessem...

Adenda (24/09 - 15h): alterei o título.

Os "Desnortes" dos sociólogos do ISCTE-IUL

Se RPP pode falar em "desnortes" do Bloco de Esquerda, então eu também posso falar nos "desnortes" de alguns sociólogos do ISCTE-IUL.

Concretizando:

- Boaventura de Sousa Santos é crítico da sociologia praticada no ISCTE-IUL. Não é que aquele autor foi retirado do programa de uma Unidade Curricular do nosso instituto! Huummm ... cheira-me a desnortes!

- Conforme o Daniel publicou há uns dias na "inquietação do principiante", o objectivo específico da cadeira "Teorias Sociológicas Contemporâneas: Debates" é este: "desenvolvimento de competências de articulação controlada dos termos das controvérsias". Huummm ... cheira-me outra vez a desnortes!

Controlar a controvérsia! ... Isto não vos lembra qualquer coisa ... censura, Salazar, lápis azul...


... SÃO DESNORTES.




segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Pergunta difícil

Na passada sexta-feira perguntaram-me o que é uma Sociedade Moderna. Eu, imbuído de uma ingénua honestidade intelectual, respondi que não sabia o que era tal coisa. Imediatamente o meu diploma (de “sociólogo”!?) foi posto em causa, pois, era inconcebível que um licenciado em sociologia não soubesse responder a uma pergunta tão “simples”. Eu, enquanto prole das “sociedades primitivas atrasadas" interpretei a minha ignorância com a naturalidade própria dos “atrasados” e “primitivos”. Por outras palavras, com a naturalidade de quem não entende um conceito que emerge na pretensão da superioridade civilizacional.

É o que dá, darem bolsas de estudo aos outsiders vindos do “outro lado da linha”….

domingo, 20 de setembro de 2009

«Esmiuçar» os programas (conclusão)

Lembro-me bem da nossa angústia sempre que tínhamos de escolher uma «sociologia especializada» ou uma «optativa livre».

Os programas não circulavam e as poucas informações que conseguíamos recolher junto de coleg@s mais velh@s, resumiam-se, na maior parte das vezes, a uns apontamentos sobre o estilo d@ professor@ e o tipo de avaliação que est@ privilegiava.

Quem não tem uma história de terror para contar sobre uma cadeira/professor@ que pensava ser interessante?

Felizmente, o departamento de sociologia passou a colocar à disposição d@s alun@s os programas das cadeiras (não tenho a certeza, mas acho que o sistema começou no último ano lectivo).

Faz diferença?

Sim.

Mas não acaba com as histórias de terror.

Tendo os programas nas mãos mesmo antes das aulas começarem, @s alun@s já se vão habituando a baixar as expectativas mesmo antes de conhecerem @ professor@ e de saberem como vão ser avaliad@s.

No fundo, já se vão habituando a adiar a gratificação para mais tarde.

Por isso é que a tese é a última esperança...

«Esmiuçar» os programas (4): sejam submissos; não queremos cá putos rebeldes

Existe ainda outra coisinha no programa da disciplina Teorias Sociológicas Contemporâneas: Debates que resume na perfeição a filosofia pedagógica do departamento de sociologia do ISCTE-IUL.

A coisinha é o «objectivo específico (c)»: «desenvolvimento de competências de articulação controlada dos termos das controvérsias».

«competências de articulação controlada»...

Não preciso de dizer mais nada, pois não?

[continua]

«Esmiuçar» os programas (3): quando aquilo que lá vem não corresponde àquilo que se faz

Outra coisa engraçada é ver o que aconteceu à disciplina Teorias Sociológicas Contemporâneas: Debates.

Já nada resta da experiência memorável que tivémos em 2007/2008 com a professora TSF.

A partir do ano lectivo 2008/2009, a cadeira passou a consistir num conjunto de 10 sessões sobre as «controvérsias da sociologia contemporânea».

Dir-me-ão que discutir «controvérsias» é melhor do que não as discutir.

Mas não podemos dizer que os títulos sejam muito prometedores ou que tod@s @s «especialistas» estejam interessad@s em abordar as respectivas sessões no espírito da «controvérsia».

Por exemplo, alguém acredita que, para AFC, as questões «é a sociologia uma ciência» (sessão 2) e «existe uma profissão de sociólogo» (sessão 10) são questões «controversas»?

A não ser, é claro, que «controvérsia» signifique «concordância total e absoluta»...

[continua]

«Esmiuçar» os programas (2): um caso de polícia

Por exemplo, sabem qual foi o autor que desapareceu misteriosamente da bibliografia da disciplina A Sociologia e as Ciências: Temas Avançados em Epistemologia?

Sim, esse mesmo, Boaventura de Sousa Santos.

No nosso tempo, se bem se lembram, BSS ainda aparecia citado.

Pergunto-me se os gestores do saber performativo não terão ficado escaldados com a nossa apetência pela «Teoria Crítica» no ano lectivo de 2007/2008.

Mas esta nem chega a ser uma hipótese digna de consideração, pois a data do documento é Julho de 2007 (!?).

O que me deixa um pouco confuso: enganaram-se na data ou quiserem apagar os indícios do crime?

[continua]

«Esmiuçar» os programas (introdução)

Alguém deu uma olhadela nos programas das «optativas livres» que o departamento de sociologia enviou por correio electrónico aos/às seus/suas alun@s?

Apesar de já ter concluído todas as «optativas livres» que era obrigado a fazer, confesso que não resisti a interromper o meu trabalho com a leitura de umas quantas «fichas de unidade curricular».

Em boa hora o fiz, pois descobri algumas relíquias dignas de serem publicadas no blog.

[continua]

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Das teses possíveis

Parece que o departamento está a solicitar aos/às alun@s que ainda se encontram a fazer a tese uma ficha-projecto semelhante àquela que foi pedida em Outubro de 2008.

Depois de preencher esta segunda ficha e de a enviar à minha orientadora, decido vasculhar os meus arquivos à procura da ficha do ano passado.

Encontrando-a, confirmo uma suspeita recorrente: embora partilhem vários elementos entre si, não deixam de ser duas teses distintas que podiam perfeitamente ser realizadas por duas pessoas diferentes.

Será possível determinar o momento exacto em que a primeira deu lugar à segunda?

Por mais que pense no trabalho que realizei nos últimos meses, não consigo identificar esse fantasioso ponto de viragem objectivo.

Há muito que dei o meu assentimento à ideia que uma boa parte das inflexões de percurso se devem menos às decisões do comandante do que aos caprichos do mar.

Que muitas descobertas são acidentais, já tod@s o sabemos (lembrem-se das descobertas marítimas dos portugueses no século XV).

Mas não se admirem se tiverem de desembarcar no «novo mundo» muito mais convivas do que aquelas que partiram convosco da «metrópole».

Não se espantem se as teses possíveis vierem reclamar a sua parte do tesouro.

Afinal de contas, podia ter sido qualquer uma a chegar ao fim...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Identidade

Desde que iniciei o segundo ano do mestrado já gravei, no meu computador, 6 documentos relativos à tese. Desde a simples sequela "Tese" e "Tese 2", à mais composta "Tese de mestrado", passando pela "Estrutura da tese" e pela "Tese Agosto".

Questionar-se-ão alguns principiantes: será esta multiplicidade um sintoma de uma identidade, entretanto, perdida? Admito que, em parte, sim.

No entanto, as questões que coloco a mim mesmo esbarram num outro paradigma: por quê tanta pressa em atribuir uma identidade fechada a um processo, permanentemente, inacabado? Por quê escrever a "Tese" se é justamente a tese que nos dá dores de cabeça? Por que não escrever coisas, frases, parágrafos, textos...sobre outros textos, ideias, autores, inquietações, etc. sobre um tema que nos fascine e que, por acaso - e só mesmo por acaso - vai ao encontro do que planeámos fazer para a tese?

Foi então que decidi escrever as tais coisas sobre um tema que me fascina e guardá-las num documento chamado ... "documento".

E não é que o "documento" está melhor do que todas as teses juntas.

domingo, 13 de setembro de 2009

Coisas que inspiram alguns principiantes (intragável para quem nunca teve o sonho molhado de fazer uma «obra-prima»...ou morrer a tentá-lo)



«You know somethin', Utivich? I think this might just be my masterpiece»

Lt. Aldo Raine in Quentin Tarantino's
Inglourious Basterds (2009)

sábado, 12 de setembro de 2009

Da mobilidade intelectual

Descubro, por mero acaso, que os estudantes do ensino superior até aos 23 anos irão beneficiar no ano lectivo 2009-2010 de um desconto de 50% no seu passe de transportes públicos.

Embora não saiba se esta medida é para continuar nos próximos anos ou se é apenas mais um item do pacote governamental de resposta à crise, não posso deixar de a aplaudir.

Porém, ao fazê-lo, dou-me conta de um paradoxo na minha condição de beneficiário: justamente agora que a mobilidade física deste vosso principiante bateu no fundo é que ela é generosamente subsidiada pelo Estado!

Dir-me-ão que 50% de desconto vem sempre a calhar (concordo).

Dir-me-ão que mais vale tarde do que nunca (concordo).

Dir-me-ão que a medida é dirigida sobretudo aos escravos da pendularidade jornaleira (concordo).

Mas nada me demove da convicção que outras dimensões da vida estudantil também podiam merecer a atenção dos governantes.

Por exemplo, a mobilidade intelectual.

A distância que vai de ideia a ideia, de intuição a intuição, de descoberta a descoberta, nunca é fácil de superar.

Tod@s temos consciência do quanto custa ir daqui ali e dali acolá quando estamos a fazer pesquisa para as nossas respectivas teses.

O problema não é ir a Entrecampos e voltar, mas sim ir a Durkheim e voltar.

Daí o pedido: Srs. governantes, não se arranja nenhuma medida eleitoralista de última hora para apoiar os pequenos e médios arqueólogos do saber?

Se querem que vos diga, isso é que vinha mesmo a calhar...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Da prescrição das teses

Recebo um e-mail do departamento.

Entre outras informações muitíssimo valiosas para o meu trabalho (juro que não estou a ser irónico), fico a saber que «o curso de mestrado em Bolonha prescreve ao fim de 4 anos lectivos».

Embora já soubesse que um@ alun@ só se pode inscrever no máximo 2x o número de anos do seu ciclo de estudos (uma medida que considero ser bastante sensata), fiquei estupefacto com o uso do verbo «prescrever».

Não é difícil perceber que a pessoa que redigiu o e-mail se refere à validade legal do matrícula (i.e. o tempo limite que um@ alun@ tem para terminar a sua tese e/ou concluir alguma unidade curricular em atraso).

Ainda assim, ao deparar-me com esta relínquia de bom português, não pude deixar de evocar outro sentido para «prescrever»: o sentido mais geral de algo que perde o seu efeito.

Se nada dura indefinidamente, quanto tempo levará uma tese a prescrever depois de apresentada e defendida em sessão pública?

1 semana? 2 meses? 3 anos?

Não sendo propriamente muito estimulante a perspectiva de uma prescrição precoce (ena, tantos «p»), imaginem quão pouco estimulados se sentirão aquel@s que vêem as suas teses prescrever antes mesmo de serem teses...

É por estas e por outras que não vale a pena pensar muito nos prazos legais.

A grande luta é outra: garantir que a tese que deixámos ontem a marinar possa ser retomada hoje; e que a que foi retomada hoje possa fazer parte daquela que queremos deixar a marinar até amanhã.

sábado, 5 de setembro de 2009

Só pode haver vida extra-tese se existir uma tese

Acontece comigo, acontece com o Hugo, acontecerá provavelmente com muit@s outr@s principiantes: o que quer que façamos, nunca conseguimos alhearmo-nos completamente da tese.

Ela persegue-nos para todo o lado e coloniza todos os nossos pensamentos.

Vamos ao cinema, encontramos a tese.

Saímos com amig@s, encontramos a tese.

Lemos as últimas do futebol, encontramos a tese.

O filme até pode ser bom, a companhia até pode ser agradável e as notícias até podem ser animadoras.

Mas não seria melhor ver um filme quando se vê um filme, estar com @s amig@s quando estamos com @s amig@s, ler notícias de futebol quando lemos notícias de futebol?

Eu achava que sim e foi por isso que decidi tirar uns dias de folga.

Satisfeito por ter concluído o primeiro capítulo e o ter enviado à minha orientadora (o mês de Agosto foi de trabalho intensivo), senti-me como há muito tempo não me sentia: de férias.

Contudo, ao contrário daquilo que esperava, a experiência não tem sido propriamente muito estimulante: tédio, tédio e mais tédio.

Não faço nada que não tenha feito durante os últimos meses.

Mas falta-me qualquer coisa para poder desfrutar.

Falta-me a tese, pois claro.

Afinal de contas, só pode existir vida extra-tese se existir uma tese...

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Daniel, pode ser que isto ajude

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Do método suicida

Quando iniciei investigação para a tese não estava afastada a possibilidade de esta poder vir a abalar algumas das minhas convicções de sociólogo.

Devo confessar até que essa possibilidade (e todo o romantismo que ela trazia consigo) me fascinava bastante.

Era aliciante estar a fazer qualquer coisa que mexia comigo (e não apenas mais um trabalho ou a mera conclusão lógica de um percurso académico).

Hoje, tendo concluído o primeiro capítulo, pergunto-me se não estarei a arriscar em demasia, insistindo numa dinâmica de descoberta onde o gosto pelos altos vôos coincide com o horror aos pára-quedas.

«Restaurar o espectro da dúvida sobre a fundamentação da ontologia durkheimiana»: só um@ sociólog@ com muito pouco amor à pele se lembraria de tal coisa...

Estarei mesmo disposto a iniciar uma experiência que pode colocar em causa a pessoa em que me tornei?

Talvez não venha a ser capaz.

Ou talvez não seja humanamente possível operar uma ruptura biográfica dessa magnitude.

Tudo aquilo que sei é que não consigo trabalhar de outra maneira...

...e que o seguro escolar do ISCTE-IUL não cobre este tipo de riscos!