sábado, 31 de janeiro de 2009

Uma borboleta no gabinete das estatísticas


Jeudi, 9 Juillet 1896

Je ne puis m'empêcher de songer à ce pauvre petit papillon brun que j'ai été surpris d'entendre, hier, palpiter, haleter d'angoisse entre le rideau et la vitre de ma fenêtre dans mon bureau du ministère.

Je lui ai dit à cette pauvre bête : « Qu'es-tu venu faire là ? Quelle idée d'entrer dans une officine de statistiques, dans un affreux guêpier ministériel, toi né pour les fleurs, les prés et les champs ? Peut-être, il est vrai, as-tu pris naissance ici… Mais alors quelle ironie de la destinée ! Laisse-moi te prendre bien vite entre le pouce et l'index et te livrer au vent de la rue qui t'emportera au jardin des Tuileries… »

Et le papillon m'a répondu : « Et toi, crois-tu être mieux à ta place parmi ces liasses de chiffres ? Quel est, dis-moi, le plus dépaysé de nous deux ? Est-il bien sûr que ce soit moi ? Mais le plus malheureux, à coup sûr, c'est toi, qui ne trouveras personne, sans doute, aucun Garde des Sceaux à la fois féroce et bienfaisant, pour te prendre aussi délicatement entre le pouce et l'index et te rendre révoqué à ton jardin de Laroque, tes Tuileries à toi… ».

Il avait raison le petit papillon brun… Et quand je lui ai ouvert la fenêtre, je l'ai suivi de l'oeil, tristement…

[Gabriel Tarde]

(Salmon, Louise [2005], "Gabriel Tarde et la société parisienne à la fin du XIXème siècle: «rapides moments de vie sociale», 1894-1897", Revue d'Histoire des Sciences Humaines, nº13, pp. 127-182)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Uma borboleta no gabinete das estatísticas (prólogo)

Imagino que nem todos os convivas dominem a língua francesa.

Todavia, não resisto em partilhar uma relíquia que encontrei ao vasculhar o diário de Gabriel Tarde (1843-1904).

(ainda não é desta que vou falar de «Gabriel Tarde, o sociólogo»)

Uma breve nota de contextualização:

Nomeado director do departamento de estatísticas judiciárias do Ministério da Justiça francês no longínquo ano de 1894, o juiz de instrução Gabriel Tarde deixa a sua terra natal (onde sempre tinha trabalhado e vivido) rumo à efervescente vida parisiense de finais do século XIX.

Traumatizado pelo desaparecimento recente da Mãe (a quem era particularmente apegado) e obrigado a mudar radicalmente de estilo de vida (as longas e solitárias caminhadas nas florestas da Dordonha alimentavam-lhe o espírito de ideias), a sua adaptação à capital revela-se bastante difícil.

Gabriel Tarde, como ele próprio reconhecera, sentia-se um «exilado» em Paris.

O texto que em seguida transcrevo é um relato comovente desse «exílio» e da profunda melancolia que sempre acompanha os seres humanos quando estes se vêem afastados das coisas/pessoas/lugares que tanto amam.

Já a seguir: uma borboleta no gabinete das estatísticas

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Eticamente falando... uma primeira experiência inesquecível!!!

No inicio do 2º ano do mestrado, eu e o Hugo, devido a circunstâncias burocráticas tivemos de escolher uma uc do mestrado de Serviço Social, chamada, Ética da Intervenção Social.

A meio da nossa primeira aula (que era, salvo erro, a terceira da turma), quando se falava de deontologia profissional, os intrusos (nós, os malandros do costume!) foram questionados sobre qual era a sua profissão??? o Hugo respondeu: não temos (a gargalhada na turma, foi geral)...depois do espanto (diria indignação) pelo facto de dois jovens universitários não terem profissão, foi-nos perguntado: qual é a vossa formação base? respondemos: sociologia. De imediato retorquiu MRS: então, são sociólogos!!! (a turma concordou murmurativamente). O espanto (de novo, quase indignação) foi maior quando assumimos nunca ter lido o «código deontológico dos sociólogos».

No final da aula, os alienados da cultura iscteana, procuraram a docente, no sentido de lhe explicar as circunstâncias que nos levaram aquela uc... Conversa inesquecível, aquela!!! na qual a dado passo MRS disse-nos: deviãm pensar melhor... isto vai ser terrível para vocês!!!

Reconheçam-se as estratégias de valorização de culturas profissionais, têm vindo a dar os seus frutos... parabéns a todos os seus mentores e executantes, ou não!!!

PS: Serão todos os indivíduos que possuem carta de condução, motoristas profissionais!?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Ao cuidado da Comissão Científica (palpites de um suspeito de plágio)

Lista de «más práticas académicas» que também reclamam «medidas preventivas»:
  1. Lançar as notas meses depois da data de entrega do trabalho (só os estudantes é que têm de cumprir datas!);
  2. Abster-se de justificar as notas lançadas e/ou mostrar-se indisponível para discutir os trabalhos com os estudantes (bem vindos ao reino do «arbitrário» e do «indiscutível»);
  3. Faltar à defesa de uma tese de mestrado, obrigando ao seu adiamento (o ministério da educação é mais importante...);
  4. Ameaçar os estudantes de reprovação quando estes escolhem ser avaliados por exame («escolhem»!? mas que grande ousadia!);
  5. Nomear um júri de recurso quando aquele que nomeia é parte interessada no próprio recurso (tudo bons rapazes, portanto);
  6. Coagir os estudantes para que estes assinem «folhas de presença» e «declarações de não plágio» sem, no entanto, explicar «porquê» e «para quê» (eles são sempre a totalidade do problema e nunca parte da solução...);
  7. Plagiar programas de ciclos de estudos distintos e fingir que não há problema nenhum (são uns malandros, esses estudantes que não querem aprender aquilo que já aprenderam!);
  8. Censurar referência(s) teórica(s) apenas porque esse(s) autor(es) não colhe(m) simpatia entre alguns «gestores do saber» do instituto (o júri pode não gostar da «brincadeira»...);
  9. Impor uma taxonomia informal dos «verdadeiros sociólogos» e das «fraudes anti-científicas» sem discutir ideias e argumentos em concreto (não será porque discutir dá muito trabalho e expõe-os à crítica de terceiros?);
  10. Formatar os estudantes em SPSS e instrumentos de recolha de informação extensivos, privando-os de uma formação plural em metodologias das ciências sociais e humanas (e dizem eles que são «eclécticos»!);
  11. Suprimir e/ou negligenciar a leitura crítica de autores e textos «clássicos» da sociologia (ex: o abuso dos manuais e dos handbooks);
  12. Oferecer uma imagem pobre e/ou distorcida da história da disciplina (ex: o mito dos «pais fundadores» e a reverência escolástica à «santíssima trinidade»);
  13. Desvalorizar as discussões epistemológicas e a análise de pressupostos sob o pretexto de não levarem a lugar nenhum (a epistemologia só é bem vinda quando se trata de criticar BSS...);
  14. Reduzir o debate da profissionalização ao confronto imaginário entre «academicistas» e «profissionalistas» (há emprego para todos, não se preocupem...);
  15. Demitir-se de utilizar critérios de mérito no recrutamento de colaboradores para as actividades de investigação (gosto de ti, «logo» trabalhas comigo);
  16. Hostilizar os melhores estudantes e os contributos originais que estes poderiam acrescentar às actividades do departamento e dos centros de investigação associados (esses estudantes são uns chatos e, ainda por cima, têm jeito para a sociologia!);
  17. Interferir na relação pedagógica estudante/orientador, obrigando o primeiro a reger o seu trabalho pelo protocolo institucional dos «seminários de apoio à dissertação» (é para o nosso «bem»...).
[continua]


Será que a Comissão Científica vai definir «medidas preventivas» contra estas «más práticas académicas»?

Será que vai obrigar os «prevaricadores» (de facto e em potência) a assinar «declarações de princípios»?

Já que não há decência, ao menos que haja coerência!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O início do controlo borocrático (2ª parte)... continuação da infantilização!

Ainda as malditas folhas de presença...

Estes, extractos de madeira transformada, que circulam, livremente, pelas salas de aula do iscte, fazem parte (terão sido o inicio!?) de uma estratégia de infantilização dos discentes, por parte dos «gestores do saber performativo». Sendo que, alguns deles, resistiram, e não foi pouco, a aplicar este instrumento de controle.

Uma vez que esta prática se está a ritualizar, ou seja, o controlo das presenças nas aulas, de todos os ciclos de ensino, no iscte está a transformar-se num «exemplo» de boas práticas académicas...

Assim sendo, cumpre-nos dar algumas sugestões no sentido de tornar, «ainda mais», eficaz o funcionamento do sistema iscteano:
1-Porque não introduzir umas campainhas de início e final de aula!?
2-Definir um limite de faltas que leve à exclusão dos alunos (sem os inibir de pagar a totalidade das propinas...).
3-Criar um sistema de justificação de faltas:

Aos actuais discentes: se concordam que as folhas de presença fazem parte de uma estratégia de infatilização, adiram ao movimento de alunos que não assinam, essas malandrecas

«Produtos-conhecimento»: o primeiro Oneto enquanto «ladrão de bicicletas»


Francisco Oneto in Ladrões de Bicicletas

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Das «más práticas académicas»: a ameaça da exclusão e o orgulho dos decisores

Já vos contei a estória da(o) nossa(o) mui prezada(o) colega que foi «convidada(o)» a suprimir uma referência ao mui adorado e detestado BSS na sua tese de mestrado?

Tanto quanto se sabe, a citação, além de bastante sintética, não constituía sequer um elemento fundamental na estrutura do trabalho.

Na sua inquietação de principiante, achou que BSS seria apenas uma referência útil (a juntar a muitas outras) sobre o conceito de «Estado-Providência».

No entanto, parece que isso terá bastado para «assustar» a(o) orientadora(o).

Pelo sim, pelo não (não vá o Diabo tecê-las!), é melhor clicar no botão direito do rato e cortar a coisa - sugeriu a(o) mui avisada(o) orientadora(o).

Porquê?

Porque o autor não é relevante para aquela problemática?

Claro que é relevante! (daí a azia dos invejosos)

Então porquê?

Porque, segundo a(o) orientador(a), «eles» poderiam não gostar da «brincadeira».

«Eles!?»

Pois, o júri.

Ameaçada(o) pela possibilidade de ver por um canudo o mui desejado título de mestre em sociologia, a nossa(o) mui prezada(o) colega decidiu seguir o mui oportuno conselho da(o) mui avisada(o) orientador(a).

Algumas semanas depois, a versão final da tese era defendida num auditório do instituto.

Bom, com distinção - clamou o júri.

E depois ouviram-se palmas.

(...)

Já dizia Jean-François Lyotard:

Entende-se por terror a eficiência obtida pela eliminação, ou pela ameaça da eliminação, de um parceiro, excluindo-o do jogo de linguagem que com ele se jogava. Ele calar-se-á ou dará o seu assentimento, não porque ele seja refutado, mas por estar ameaçado de ser impedido de jogar (há muitas espécies de impedimentos). O orgulho dos decisores, que não tem, em princípio, equivalente nas ciências, corresponde ao exercício deste terror. Ele diz, «adaptai as vossas aspirações aos nossos fins, senão...» (pág. 127, A Condição Pós-Moderna, 1ª edição 1979)

E os «terroristas» somos nós!?

sábado, 17 de janeiro de 2009

Parabéns!

O início do controlo borocrático (1ª parte)...

Luís Santos nº...

Foi por volta do nosso segundo ano na licenciatura que começou o ritual borocrata do preechimento das folhas de presença, a cada aula. Explicações para mais esta imposição, oficialmente, não existiram (para não fugir à regra!)...as versões iam circulando...algumas delas, eram hilariantes: isto não serve para vos controlar, mas sim, para controlar os professores...diziam alguns docentes; outros, diziam que, isto serve, apenas para efeitos estatísticos (malandras, essas estatítsticas!)...

A interrogação matem-se...a falta das nossas assinaturas também!!! para que servem as folhas de presença?

No primeiro ano do mestrado houve uma resposta mais interessante, ainda!!! GC, depois de saber que não assinávamos, as ditas folhas, mas qque estivemos presentes nas suas duas aulas, recusou-se a receber os nossos trabalhos, com o argumento de que não tinhamos assinado as ditas folhas...

Afinal, para que servem as folhas de presença!?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Esboço de uma carta de protesto (sugestões e subscrições na caixa de comentários, sff)

Exmo. Sr. Presidente da Comissão Científica de Sociologia,

Somos um grupo de estudantes do mestrado em sociologia e vimos por este meio manifestar-lhe o nosso sentimento de revolta perante a obrigatoriedade de assinar e entregar uma «declaração de não plágio» juntamente com os trabalhos de cada unidade curricular.

Tanto quanto nos foi dado a saber pelo e-mail bastante sintético que o Secretariado do Departamento de Sociologia enviou aos alunos em 22 de Dezembro de 2008, trata-se de uma resolução aprovada pela Comissão Científica (CC) no âmbito das «medidas preventivas contra más práticas académicas». E mais não diz. Nem sobre esta resolução em particular, nem sobre as outras «medidas preventivas». Muito menos sobre as tais «más práticas académicas». Veja-se o paradoxo: a CC exige a colaboração dos estudantes, mas demite-se de lhes explicar, entre outras coisas, porque é que essa colaboração é necessária e (nas palavras maiúsculas do título do e-mail) «URGENTE». É suposto os estudantes sujeitarem-se docilmente à política de suspeição imposta pela CC? Qualquer que seja a dimensão do problema e a vontade de o combater, nada justifica que seja lançada uma suspeita generalizada sobre as pessoas que cumprem escrupulosamente as regras do trabalho científico/intelectual. A não ser, é claro, que os prevaricadores estejam em maioria (!?). Uma hipótese tão absurda quanto aquela que coloca docentes e investigadores sempre acima de qualquer suspeita em matéria de «más práticas académicas», não é verdade?

No dia em que o Departamento de Sociologia e a CC decidirem escutar os estudantes, tratando-os como sujeitos responsáveis que investem activamente na sua formação pessoal e profissional, não hesite em contactar-nos.

Ficar-lhe-emos eternamente gratos por, pela primeira vez, termos sido parte da solução, e não, como vem sendo habitual, a totalidade do problema.

Obrigado pela atenção,

Os subscritores,

(...)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Até breve

Caríssimos malandrecos.

Como sabeis, a minha malandrice surfista pregou-me uma rasteira. O meu joelho malandreco precisa de uma malandreca intervenção cirúrgica.
Terei que, malandrecamente (isto não existe, pois não? poça, sou mesmo malandro), ausentar-me da malandrice que paira, por estas bandas.

Em breve, não sei bem quando, estarei de volta, com mais malandrices.
Fico à espera das vossas visitas. Seus malandros da pior espécie!

Nós... Os Radicais

Acusam-nos de sermos radicais. Se preferirem, malandrecos.

Não pactuamos com a política de suspeição, inerente à capa anti-plágio, logo, somos radicais.
Denunciamos plágios curriculares, protagonizados por gestores do saber performativo, logo, somos radicais.
Denunciamos sobreposições curriculares, entre licenciatura e mestrado, logo, somos radicais.
Não nos revemos na postura empiricista da sociologia isctena, logo, somos teóricos.
O quê!? Somos teóricos!? Só por causa disso, somos radicais.
Não votamos na esquerda democrática, moderada, popular, obviamente, somos radicais.
Ainda por cima, criámos um blogue, onde expomos a inquietação do principiante... nem radicais somos... somos é fundamentalistas depravados.

Amigos, não deixem de ser "radicais".
Saudações do outro lado da linha (Boaventura de Sousa Santos, grande radical)

sábado, 10 de janeiro de 2009

Carta aberta aos gestores do saber performativo

É sabido e bem sabido que há malandros por todo o lado e de toda a espécie: malandros nos comboios que apalpam as jovens sociólogas recém diplomadas (blame de victim!), malandros nos hospitais que se queixam do serviço de quartos e da barba por fazer da enfermeira-chefe (para isso punham lá o gajo da portaria!), malandros nos centros comerciais que ficam a ver as montras de mãos nos bolsos (devem estar à espera da deflação, seus malandros!), malandros na economia virtual que curtiram tudo e que agora pedem esmola ao Estado (é por causa do risco sistémico...), malandros que passam o sinal vermelho e depois processam o Estado por este não lhes ter passado multa (ao estado a que o Estado chegou!), malandros nas escolas que brincam às pistolas e aos telemóveis com a professora de português (que também é uma enormíssima malandra por não querer a avaliação de desempenho do ministério...), malandros que provocam acidentes nas estradas (haviam de ser todos metidos dentro de um barco e enviados para um curso profissional...), malandros que até os evitam (as oficinas vão viver do quê!?), malandros que grafitam as paredes do instituto (malandros do bloco de esquerda, pois claro!), malandros que faltam à defesa da tese de um orientando (há trabalho urgente no ministério da educação...), malandros paneleiros que estão sempre a pedir direitos (o famoso lobby gay!), malandros homofóbicos que querem os direitos só para eles (malandros egoístas!), malandros no governo (mentirosos!), malandros na oposição (espertalhões!), malandros no Ocidente (civilizados!) e malandros no outro lado da linha (selvagens!), malandros malandrecos e malandros para levar muito a sério.

Há malandros por todo o lado e de toda a espécie.

E os «malandros» somos nós!?

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Em nome da dignidade

Dizem as sábias línguas, que a capa anti-plágio é uma ferramenta preventiva. Pergunto-me então, se os artigos e projectos de investigação dos docentes, não merecem, também, a bênção da prevenção anti-plágio!? Dirão, os mais conformistas, que é uma comparação sem sentido, até porque o estatuto simbólico do docente, por si só, o torna imune e acima de qualquer suspeita de ilegalidade intelectual. Se assim fosse, ficaria mais tranquilo, pois quando deixasse de ser um rapazola malandreco, que pode, um dia, eventualmente, num futuro incerto, fazer coisas más nos trabalhos, reclamaria a minha dignidade de estudante.

Se a criação da capa anti-plágio pressupõe o reconhecimento de potencialidades plagiadoras dos discentes, não vejo porque não, a criação de capas preventivas das potencialidades de má docência dos docentes…ficaríamos, certamente, precavidos das trevas que ensombram o trabalho de quem ama a profissão de descobrir.

Saudações do lado das “Sociedades primitivas atrasadas”

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

LC: o homem e a tese

Lembram-se da frase "quando o homem não faz a tese...a tese faz o homem"?
O seu autor - o bem sucedido LC - em razão dos atribulados compromissos no ministério da educação faltou, hoje, à apresentação de uma tese de mestrado no iscte.

Irrelevante, não fosse o facto de LC ser o orientador dessa mesma tese e, portanto, membro indispensável para a realização da sessão. Não é que ele seja indispensável, mas a personagem orientador, essa é, obviamente, imprescindível.
Resultado: sessão adiada...para quando der jeito ao senhor doutor LC.
Mais um capítulo da prestigiante sociologia iscteana.

A "esquerda democrática / moderada / popular" tem destas coisas.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

as aventuras de AFC, o «anti-academicista» (epílogo)

Nos últimos anos, o campo sociológico português tem sido animado por vários encontros associativos que elegem a profissionalização dos sociólogos como um dos objectos principais de discussão. O ciclo de conferências “Sociologia, Ciência e Profissão” (várias cidades do país, 2003-2006) e os encontros “Futuros da Profissão Sociólogo” (Vendas Novas, 2006) e “O Estado da Sociologia em Portugal: Formação, Investigação e Profissionalização” (Lisboa, 2007), reflectem um interesse renovado por este debate na comunidade científico-profissional.

Se o novo fôlego do debate só parece ser comparável àquele que caracterizou os dois primeiros congressos portugueses de sociologia, já as condições em que ele ocorre parecem ser radicalmente diferentes daquelas que existiam em 1988 e em 1992. Com efeito, em meados dos anos 80, a profissionalização (diversificada e em grande escala) ainda era apenas um desafio a médio/longo prazo. A prospectiva constituía, então, a modalidade discursiva dominante. Actualmente, o debate da profissionalização já tem a própria profissionalização como referente, ou seja, já tem a possibilidade de fazer um balanço sobre os últimos 20 anos da profissão sociólogo no nosso país. A retrospectiva junta-se, assim, à prospectiva.

Provavelmente, sabemos hoje muito mais sobre a profissionalização dos sociólogos portugueses do que quando se iniciou o respectivo debate numa das sessões plenárias do I Congresso Português de Sociologia. Todavia, continuamos sem saber qual é o «modelo cultural» / «perfil profissional» dominante e as suas tendências de mudança/reprodução na comunidade sociológica portuguesa. Esta questão seria perfeitamente negligenciável se alguns dos mais prolíficos intervenientes no debate não lhe tivessem atribuído, ao longo das duas últimas décadas, tanta importância nas suas reflexões sobre a profissionalização. Mas foi justamente isso que aconteceu. Os nossos exercícios de prospectiva vêem-se, deste modo, reféns de um passado recente imaginário. Reféns de uma hagiografia colectiva que alguns de nós hesitam em submeter às mesmas exigências de validação empírica que, no resto do tempo e para todos os restantes objectos, constituem o farol indispensável das suas investigações científicas.

domingo, 4 de janeiro de 2009

A capa anti-plágio: um prolecídio iscteano?

O que mais me inquieta em relação à capa anti-plágio é a sua, inegável, superficialidade, pois, na realidade, os plagiadores são, em boa medida, filhos da pedagogia que domina a sociologia iscteana. É perfeitamente expectável que dos solos intoxicados com pesticidas anti-crítica, germinem executantes de paradigmas que gravitam em torno do mais mesmo e, por conseguinte, de versões plagiadas das coisas. Considerando este cenário, não fazer plágio é uma questão de resistência e de respeito pelo trabalho intelectual, que pouco ou nada deve à maioria das sociologias injectadas nas salas iscteanas. A não promoção de capacidade crítica ou então, a sua promoção em cubículos - devidamente apertados e controlados - transforma esta iniciativa anti-plágio em mais uma ferramenta dominada pela consequência de superfície.

Resta aos menos resistentes e aos especialistas em tudo e em nada, o lamaçal dos plágios...
Saudações do lado dos "países primitivos atrasados"

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Descubra as diferenças: parte III

Ainda a propósito da sobreposição (estou a ser muito simpático) de conteúdos entre a licenciatura e o mestrado em Sociologia, no ISCTE, nomeadamente, entre "Sociologia das desigualdades sociais contemporâneas" e "Desigualdades sociais contemporâneas":
  • FLM, quando confrontado com tal "sobreposição" - da qual é responsável - defendeu-se de forma muito contundente. Passo a citar, "epah... está bem (os programas são idênticos), mas os conteúdos serão mais aprofundados"
  • quando interrogado sobre a possibilidade de os alunos - que haviam frequentado, na licenciatura, aquela UC - usufruirem de uma alternativa curricular, FLM respondeu com a contundência habitual: "façam o que quiserem, mas não vão conseguir quaisquer alternativas"
  • passemos à guerra das alternativas...o trabalhão que tivemos para convencer AFC, de que dois programas iguais - correspondendo um ao 2º ano da licenciatura, e outro ao 1º ano do mestrado - não era, propriamente, producente e justo! AFC lia os dois programas, confirmava a "sobreposição" e, por via de sorrisos, reproduzia o argumento do aprofundamento científico (sublinhado por FLM). A certa altura, estávamos, de tal forma estupefactos, que quase acreditámos de que o erro seria nosso: afinal, que mal tem plagiar um programa? Que mal tem aprender conteúdos académicos, aprendidos (a redundância faz todo o sentido) durante a licenciatura? Foi precisa muita paciência para contornar a simpatia de AFC

O que torna este episódio, ainda mais insólito, é o facto de o seu protagonista - FLM - ser um acérrimo repressor de plágios, um intransigente defensor de "programas informáticos detectores de plágios". O feitiço virou-se contra o feitiçeiro.

O pior de tudo isto prende-se com o facto de muita gente não conhecer esta sobreposição. Mais grave ainda: a UC "Sociologia das desigualdades sociais contemporâneas" deixou de fazer parte do currículo de estudos da licenciatura em sociologia no ISCTE. O erro, em vez de corrigido, foi camuflado. Institucionalizou-se e ninguém dará por ele.

A verdade é esta: o mestrado em sociologia no ISCTE é composto por uma UC leccionada, em anos anteriores, no segundo ano da respectiva licenciatura. Junta-se a este imbróglio administrativo (será mesmo ?!), a obrigatoriedade de frequentar - durante o mestrado - duas UC (sociologias especializadas) que fazem parte do currículo de estudos da licenciatura, e cujas aulas são frequentadas, em simultâneo, por alunos da licenciatura e por mestrandos...

...efeitos colaterais de um curso, cuja licenciatura, repentinamente, de 5 passou para 3 anos...efeitos de Bolonha.

P.S. Quanto à conversa do aprofundamento científico, não passa disso mesmo...conversa. Os alunos que optaram por repetir a UC, chegaram à conclusão de que não aprenderam nada de novo. Infelizmente, a repetição de conteúdos não é um problema para todos. E o sistema continua impune.