sábado, 28 de fevereiro de 2009

a pedagogia do adiamento, segundo RPP

Quando é que um@ principiante está preparad@ para ler um «clássico» da sociologia?


Lembrei-me desta questão ao recordar as aulas de teorias sociológicas do 1º ano da licenciatura leccionadas pelo professor RPP.

Dizia ele, aos seus alunos, que «não valia a pena lerem os clássicos».

Porquê?

Porque, segundo RPP, «não iam entender nada».

Dizia-o como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Como se «não entender nada» fosse uma fatalidade.

Sobretudo, como se ele não tivesse o dever de estimular o gosto pela descoberta nos seus alunos!

Ao mesmo tempo, porém, RPP não perdia uma oportunidade para sublinhar a importância de Durkheim, Simmel, Weber, Marx, Spencer, entre outros «clássicos».

O que, por si só, faz todo o sentido, pois se ele (um dos «gestores do saber performativo» com mais poder para decidir aquilo que conta e aquilo que não conta como «sociologia» no instituto) não lhes reconhecesse importância, não haveria nenhuma razão para continuarem a figurar nos programas das cadeiras de teorias sociológicas...

Não haveria, sequer, nenhuma razão para que RPP se preocupasse tanto com o assunto ao ponto de desencorajar explicitamente esse comportamento transgressivo que é a leitura dos «clássicos»!

[continua]

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Procura-se Daniel Figueiredo...vivo ou morto

...mas, se possível, morto.
Têm sido algumas as visitas à nossa "inquietação do principiante", por via do mediatismo iscteano de um dos autores deste blogue. "Daniel Figueiredo iscte"; "Daniel Figueiredo blogspot"; "Daniel Figueiredo inquietação",...
A razão é muito simples. Daniel Figueiredo é considerado "persona non grata" dentro da fundação iscte. Acusado de "rebelde", "chato", "o tipo que lê umas coisas, mas fala demais" (e diz o que não deve), "mal educado" (sair a meio de uma aula de psicologia social constitui contra-ordenação muito grave), "indisciplinado",etc, etc.
A malandrice de Daniel Figueiredo é tanta que a fundação já promete uma excelente recompensa, a quem conseguir capturar esta espécie de sociólogo, ameaçadora da sociologia performativa iscteana. E a recompensa é:
  • nem mais, nem menos do que ... um magnífico curso em sociologia no iscte. Fantástico...ou não. Para aqueles que já concluíram, ou estão a frequentar formação em sociologia no iscte, a escola-empresa oferece a repetição da formação (atenção: repetição de conteúdos, mas muito mais aprofundados...muito mais aprofundados mesmo...no iscte não há sobreposição de conteúdos sem o devido aprofundamento teórico-empírico dos mesmos [?! I - ?! II - ?!III])

(acho que estás com sorte. Se a recompensa fosse mais interessante, eu já te teria capturado, e entregue às autoridades iscteanas).

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

a inquietação das «referências»


(cliquem na imagem para aumentar)

"Piled Higher and Deeper" by Jorge Cham
www.phdcomics.com

sábado, 21 de fevereiro de 2009

a inquietação da «nota máxima»

Ontem o blog teve um@ visitante que veio cá ter através da seguinte pesquisa no google:

«nota máxima mestrado sociologia iscte»

Em nome da gerência, lamento o tempo perdido!

(ainda assim, não posso deixar de recomendar a leitura da «lista de contra-ordenações» que o Hugo teve a gentileza de publicar: para quem ambiciona a «excelência», uma boa dose de «auto-censura» nunca é de desprezar...)

Ao serviço do Império: o sonho lusitano

"...E para guardar na perpétua memória dos vindouros tudo quanto constitua ou represente manifestações da vida dos nossos antepassados, deveria construir-se um Monumento Nacional, como o Padrão da Raça, que consubstancie a alma do Império.
(...)
O Monumento nacional constaria de uma pirâmide de base rectangular (...) Arquitectonicamente seria dividida em zonas, correspondendo pela ordem cronológica aos vários pavimentos em que é dividido.
O pavimento térrio seria destinado a Necrópole, ou de Panteão Nacional, onde seriam recolhidas as cinzas de todos os filhos da raça, que por qualquer feito ou acção se tornaram dignos da sua memória ser perpetuada.
Em volta correria uma galeria, orlada de colunas, com seus pórticos e capiteis, coroados por estátuas representando os reis, os capitães e os chefes, que através dos tempos dirigiram e comandaram os portugueses.
.
O segundo pavimento, a que a cobertura da galeria serviria de terraço, formaria a Catedral ou Basílica, em quatro corpos em cruz, constituindo naves de 75 metros de comprimento cada uma, e um altar ao centro, comum a tôdas, encimado por uma singela cruz.
Seguir-se-iam depois os outros pavimentos, destinados às Bibliotecas e Museus imperiais, aos salões de exposições permanentes das artes, das ciências, - de tôdas as manifestações da actividade histórica dos portugueses, de todo o Império, - salões de festas e de comemorações e consagrações nacionais: - onde todos os portugueses, e até estrangeiros, pudessem em presença dos factos, estudar e até viver a vida grandiosa dos nossos avós.
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O último andar, que constituiria o vértice da pirâmide, seria uma capela em forma de ermida, em posição simétrica à Catedral, com quatro grandes frestas (...) Sôbre a flecha do campanário, assentaria um globo, com janelas em forma de estrêlas, representando na sua posição relativa os principais planetas e constelações que iluminam o Império. Internamente seria instalado um observatório astronómico e meteriológico.
.
Sobrepondo êste globo e apoiada num sôco com o crescente e a serpente, assentaria uma grande estátua de mulher, coroada por brilhante resplendor: para os católicos será a Virgem-Mãe (...) para os que não são cristãos, representará a Vida, a própria divindade Criadora.
(...)
...será um sonho?...
Pensando bem as grandes obras humanas não foram nunca outra coisa do que sonhos - que se realizaram".
.
Bem vindos ao Monumento Nacional de Almeida, João de, 1932, Ao serviço do Império V. O Estado Novo, pp. 362-367.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Tese de mestrado em sociologia no iscte: lista de contra-ordenações

Aqui vai uma sintética, mas sumptuosa, lista do que deve ser evitado na realização de uma tese de mestrado em sociologia no iscte:

1) citar Boaventura de Sousa Santos é considerado crime;

2) é, escrupulosamente, obrigatório atingir um equilíbrio quantitativo entre teoria e empiria. Se a segunda superar a primeira, não há problema (o contrário constitui contra-ordenação muito grave);

3) superar o limite máximo de páginas (40): a contra-ordenação é leve das 41 às 45 páginas, passando a grave entre as 46 e as 50 páginas, e, por fim, a muito grave entre as 51 e as 55 páginas. Quem ultrapassar as 55 páginas, terá que responder, em tribunal iscteano, pelo assassinato da capacidade de síntese;
4) Exagerar na quantidade de anexos constitui contra-ordenação leve;

5) escolher orientadores manhosos (professores não conformistas com a sociologia performativa iscteana) constitui contra-ordenação leve (não convém exagerar nas contra-ordenações... ainda me acusavam de ser radical, cometendo, por isso, uma contra-ordenação muito grave);

6) escolher orientadores não sociólogos constitui contra-ordenação leve (ora bolas! já não tenho nota máxima);

(Caso se lembrem de mais contra-ordenações, acrescentem-nas à caixa de comentários)

De uma entrevista que me fizeram

Ontem tive o privilégio de ser entrevistado por uma brilhante ex-aluna do instituto (tolero piadinhas...desde que sejam feministas!), que se encontra actualmente a fazer fieldwork para a sua tese de doutoramento: «The Study of Gender in the Social Sciences in Portugal».

Comecei por partilhar com ela a minha estupefacção pela quase total ausência do «género» na oferta curricular do departamento de sociologia (e dizem eles que são «eclécticos»!).

Acabei a falar da influência de determinados episódios da minha biografia no aprofundamento auto-didacta que tenho vindo a fazer (desde que percebi que só podia contar comigo mesmo) de alguns referentes analíticos habitualmente identificados com os gender studies (mais particularmente a tríade conceptual «corpo, género e sexualidade»)

De tempos a tempos, a questão regressa: o que nos faz («fez», se preferirem a retrospectiva) optar (ou, pelo menos, investir mais tempo/esforço/dedicação) por este ou aquele «domínio de investigação», por este ou aquele «objecto», por est@s ou aquel@s «autor@s», em detrimento (ou, pelo menos, em algum prejuízo de tempo/esforço/dedicação) de todos os outros «domínios», de todos os outros «objectos», de tod@s @s outr@s «autor@s»?

Convidado a reflectir sobre a minha trajectória de estudante de sociologia, descubro, mais uma vez, por experiência própria, que «todo o conhecimento é autoconhecimento» (Boaventura de Sousa Santos).

E ainda há quem apregoe (com o mesmíssimo dogmatismo de sempre) a necessidade imperiosa da «ruptura com o senso comum», ou seja, a ruptura com os «preconceitos», as «ilusões» e as «crenças» que animam o espírito d@ investigador@.

Rupturas e mais rupturas...

Para quê?

Os «gestores do saber performativo» que façam as rupturas que bem entenderem.

Nós ficamos com a inquietação do principiante.

E se tivermos de abandonar o país para realizar o sonho, assim o seja!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Procura-se objecto (aviso: post choramingas e narcísico)

Afinal, do que estou eu à procura!?

A resposta que, até muito recentemente (i.e. ontem), vinha dando aos meus prezados interlocutores (felizmente, ainda vou tendo quem ature as minhas inquietações de principiante!), além de extremamente vaga e incipiente, já não serve para dar conta do meu trabalho e, muito menos, para guiar as minhas leituras (na realidade, confesso, tenho feito mais «leituras» do que «trabalho» propriamente dito...).

Se é verdade que continuo à procura do social (e que tenho vindo a encontrá-lo aqui e acolá sob formas nunca dantes suspeitadas e imaginadas...), também é verdade que, tal como muit@s que me estão a ler neste momento (já agora: obrigadinho pela atenção!), tenho uma tese para escrever (ora bolas, seria tão bom se pudessemos ser diletantes toda a vida, não acham?).

Quão difícil é circunscrever, delimitar e seleccionar quando ainda agora (ok, confesso que já lá vão uns meses...) iniciei um percurso de descoberta, liberdade e empolgamento!

Imagino que não seja o único órfão de objecto (o que é um sujeito sem um objecto?).

Mas lá que custa, lá isso custa: cada menin@ com o seu brinquedo e eu aqui a chuchar no dedo!

Resta-me o consolo de saber que nada disto é em vão e que, em breve (assim o espero!), tod@s ficarão com inveja do meu brinquedo...

(ao menos não me falta libido!)

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O imparável ímpeto reformista!!!

Sendo o carácter reformista um traço central da política educativa da actual equipa do ministério da educação, que como sabemos (e como todos devem ficar a saber), é fortemente inspirada na retórica dominante no instituto acerca da reforma.

Passou esta noite na TVI uma reportagem (Um Grau de Diferença) sobre o ensino especial em Portugal e as consequências da reforma do ensino especial.

A reforma do ensino especial, proposta pelo actual governo, assenta em duas linhas orientadoras:
1- A inclusão do maior número possível de alunos com necessidades especiais de carácter prolongado no ensino regular
2- Transformar as escolas especiais em centros de recursos

Incluir, torna-se assim na palavra de ordem propagandeada ao melhor jeito populista... Com a passagem dos alunos com necessidades educativas especiais de carácter prolongado pretende-se, igualmente, transformar as escolas especiais (que até iam fazendo um bom trabalho) em centros de recursos, ou seja, em centros prestadores de serviços especializados que complementam o trabalho das escolas regulares. O que significa que os centros de recursos vão ter de continuar a desempenhar o mesmo papel (o das escolas especiais) sem terem acesso ao financiamento que até então tinham direito!

O trabalho da TVI (que infelizmente não se encontra disponível) demonstrou que a implementação da reforma do ensino especial está a ter sucesso na inclusão do maior número de alunos com necessidades educativas especiais de carácter prolongado em escolas do ensino regular... O problema é que:
1- não se proporcionou formação adequada a professores e auxiliares
2- não foram criadas infraestruturas adequadas
3- não existem materiais adaptados

Assim, até ver, o único resultado concreto, desta reforma, a poupança de recursos financeiros (objectivo alcançado... parabéns!!!)

Saudações do lado dos alunos com necessidades educativas especiais de carácter prolongado!!!

PS: não seria melhor pensar-se e discutir-se as reformas antes das impor (peço desculpa implementar)!?

Lista de «coisas» que se poderiam procurar em Durkheim e Tarde

  1. Operatividade - não é que os seus escritos não tenham servido de guia a investigações empíricas durante o século XX.
  2. Cumulatividade - não é que seja despropositado reforçar as «condições de cumulatividade» de uma disciplina que reivindica o estatuto de ciência.
  3. Inspiração - não é que eles não tenham inspirado, ao longo das últimas décadas, imensos autores e respectivos quadros analíticos.
  4. Heurística - não é que não nos ajudem a colocar enigmas e a oferecer pistas de resolução desses mesmos enigmas.
  5. Biografia - não é que não nos possamos conhecer melhor ao conhecer melhor aquilo que as suas ideias devem às respectivas narrativas biográficas.
  6. Ausência - não é que não exista nada de significativo para além do «cânone».
  7. Genealogia - não é que não seja interessante conhecer a genealogia das suas ideias.
  8. Reformismo - não é que eles não estivessem engajados nas lutas políticas do seu tempo.
  9. Arte - não é que aquilo que escreveram não tenha valor artístico.
  10. Prazer - não é que o prazer que experimentamos ao descobrir-los não seja uma boa razão para se sobrepor a todas as outras.

Afinal, do que estou eu à procura!?

Lista de «coisas» que se procuram nas teorias

Lembrei-me de fazer esta lista, quando tentava perceber (pela enésima vez!) aquilo que procuro em Émile Durkheim (1858-1917) e Gabriel Tarde (1843-1904):

  1. Operatividade - aquilo que orienta a investigação empírica;
  2. Cumulatividade - aquilo que acrescentam ao património conceptual e analítico da disciplina;
  3. Inspiração - aquilo que estimula a formulação de novas teorias;
  4. Heurística - aquilo que dizem sobre os seres e as forças do universo;
  5. Biografia - aquilo que sugerem a respeito das nossas vidas;
  6. Ausência - aquilo que é declarado inexistente e/ou irrelevante;
  7. Genealogia - aquilo que esclarecem sobre a história das ideias;
  8. Reformismo - aquilo que pode constituir um programa de transformação social;
  9. Arte - aquilo que tem valor estético;
  10. Prazer - aquilo que dá gozo;

(se se lembrarem de mais «coisas», atirem para a caixa de comentários...)

Afinal, do que estou eu à procura!?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Ao serviço do Império

“A ditadura instalou-se em Portugal com um objectivo imediato e com uma finalidade imperiosa (…) dar ao País, diminuído até então por uma política baixa de torpezas e inferioridades, ordem e moral – ambas quási inteiramente perdidas.
Ordem pública, ordem económica, ordem financeira, dignidade nacional – constituíam, por consequência, o objectivo imediato da Ditadura. Ordem política, reorganização do Estado pela adaptação do mecanismo político aos grandes objectivos da Nação, constituíam a sua finalidade imperiosa – a parte nobre, mais elevada, da sua razão de ser.
Em seis anos de vida não pôde ainda a Ditadura, por motivos que são por demais conhecidos, senão ordenar a vida financeira do país e assegurar a tranquilidade pública - não falando da acção local em determinados municípios.
O que há feito é muito - e é quási nada"

Almeida, João de, 1932, Ao serviço do Império V. O Estado Novo, p. v
(profecias de um militar de guerra, apoiante do golpe de 28 de Maio de 1926 - possivelmente terá tido papel activo naquele golpe).
Livro muito bom para quem, tal como eu, se interessa pela leitura de registos, transcritos na primeira pessoa, sobre o Estado Novo.

Em breve: Ao serviço do Império. A construção do sonho lusitano.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Testemunhos (3)

E se um@ principiante decidisse desatar a ler tudo aquilo que lhe despertou vontade de ler durante o curso, mas que, por várias razões (entre as quais esta), não pôde ler na altura devida?

«Um luxo!», dirão alguns, apesar do objectivo final ser exactamente o mesmo para tod@s: escrever uma tese de mestrado e defendê-la perante um júri.

Nas últimas semanas, descobri que nunca é demasiado tarde para conhecer Tarde.

Ou para quebrar o mito hagiográfico do Durkheim fundador.

(existem tantos Durkheim's que é um desperdício ficar por aquele que foi canonizado...)

Conseguem imaginar o universo de possibilidades para além dos manuais, das aulas expositivas, dos apontamentos d@ professor@?

As possibilidades são infinitas.

Abraçam o cosmos.

E não é esse o destino de todas as inquietações de principiante?

Testemunhos (2)

A RTP apresentou, no jornal da noite de hoje, uma peça com um título bastante sugestivo: «Plágio é fenómeno em crescendo no meio académico».

(se não tiveram oportunidade de ver, podem fazê-lo aqui)

Nela constam testemunhos de alunos do ISCTE e da presidente do seu Conselho Pedagógico.

Breves notas:

1) «Eu plagiar, não; se calhar alguma inspiração, isso sim». Malandro...

2) O sujeito que apresenta o programa informático que detecta a «falta de originalidade» dos trabalhos é um professor (como aparece na legenda) ou um técnico superior anti-fraude?

3) Dra. Sílvia Silva, afinal para que servem as «declarações de não plágio»?

Testemunhos

Cara Universidade,


Miguel Vale de Almeida in Os Tempos Que Correm

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Durkheim e a mulher

1) Diz-me qual é o teu «privilégio», dir-te-ei quão inferior és:

Se ela tem este privilégio [i.e. o privilégio de aceitar melhor a viuvez do que o homem] é na realidade porque a sua sensibilidade é mais rudimentar do que desenvolvida. Como vive mais alheia à vida comunitária do que o homem, esta exerce menos influência sobre ela: a sociedade é-lhe menos necessária dado que ela é menos social. (pág. 225)
2) O organismo como «freio eficaz» de uma pseudo-sexualidade:
Com efeito, as necessidades sexuais da mulher têm um carácter menos mental, visto que, de um modo geral, a sua vida mental está menos desenvolvida. Estão em relação mais imediata com as exigências do organismo, seguem-nas mais a par do que as ultrapassam e encontram portanto neste facto um freio eficaz. Pelo facto de a mulher ser um ser mais instintivo do que o homem, só lhe resta seguir os instintos para conseguir obter a calma e a paz. (pág. 290)
3) A manutenção da desigualdade através de uma socialização acrescida das «diferenças»:
Certamente, não há motivo para pensar que a mulher seja algum dia capaz de desempenhar as mesmas funções do que o homem na sociedade, mas poderá desempenhar um papel que, embora específico, seja mais activo e mais importante do que o actual. O sexo feminino não se tornará mais semelhante ao masculino por isso; pelo contrário, é de prever que se distinga ainda mais. Simplesmente, essas diferenças serão mais utilizadas socialmente do que o foram no passado. (pág. 413)

Émile Durkheim in O Suicídio (1897)

[tradução portuguesa da Editoral Presença]

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Que comecem os Jogos de Campo...

Segundo Pierre Bourdieu, "Quando as pessoas só têm de deixar correr o seu habitus para obedecerem à necessidade imanente do campo e satisfazer as exigências que nele se encontram inscritas (...) não têm seja de que maneira for consciência de estar a sacrificar a um dever e menos ainda a buscar a maximização do ganho (específico). Têm, portanto, o ganho suplementar de se verem e serem vistas como perfeitamente desinteressadas." (Pierre Bourdieu, Questões de Sociologia)

Em breve... o post sobre jogos de campo em que a inconsciência não só, não é tão inconsciente como também promotora do desinteresse.

Saudações do "outro lado da linha"

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O que é que o «caso Freeport» tem em comum com a «declaração de não plágio»?

Na qualidade de comentador político, RPP insurge-se contra o «populismo judicialista» de alguns comentadores do chamado «caso Freeport», isto é, «a presunção de que todos os actores políticos são corruptos potenciais».

Na qualidade de membro da Comissão Científica de Sociologia, RPP vota a favor de uma «medida preventiva contra más práticas académicas» (a «declaração de não plágio») que transforma todos os estudantes em plagiadores potenciais.

Que saudades do RPP de «outros tempos»: aquele que conhecia perfeitamente esta «lógica da suspeição» e que, como tal, se recusava a passar «folhas de presença» nas suas aulas!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Capitalismo iscteano

(que bom estar de volta à inquietação do principiante)

Por falar em inquietação, ocorreu-me partilhar mais um imbróglio iscteano. Este novo busílis é, porém, inerente à produção científica do CIES (Centro de Investigação e Estudos em Sociologia). Para quem desconhece o cies, este constitui-se, enquanto corpo de investigação, coordenado por docentes de sociologia do iscte.

Quem não teve, ainda, o (des)prazer de folhear publicações do cies? Eu já tive. E posso garantir que, algumas dessas publicações, são produto de um profundo e extenso trabalho bibliográfico. Alguns desses estudos são constituídos por páginas, e mais páginas de referências bibliográficas: o rigor e a profundidade - teórica e empírica - dos gestores da sociologia performativa iscteana, no seu melhor.

O cies é composto por vários investigadoes, porém, nem todos são docentes. Alguns deles são alunos que, legitimamente, alimentam o sonho de consolidar uma carreira de investigação em sociologia. Mas a verdade é que estes alunos-investigadores, embora dotados de uma identidade investigadora, na sua maioria, são, cientificamente, abafados pelos gestores da sociologia performativa: os putos não são mencionados nos estudos; o seu contributo circunscreve-se às paredes do cies.

O que acontece é o seguinte: os inquestionáveis autores dos estudos (os docentes da sociologia iscteana) distribuem, aquando da realização de um projecto de investigação, referências bibliográficas pelos putos, aos quais, são pedidos resumos/fichas de leitura daquelas referências. O trabalho deste proleteraiado intelectual é, simplesmente, apropriado e, cientificamente, irreconhecido pelos gestores da sociologia performativa isctena.

Em relação à dimensão estatística dos estudos do cies, a situação é semelhnate. Os inquestionáveis, na sua maioria, demonstram grandes dificuldades em trabalhar com o SPSS (programa informático estatístico). Como tal, delegam os procedimentos informático-estatísticos a quem? Aos putos, pois claro.

Os gestores do saber performativo acenam com tostões e, sobretudo, com uma carreira de investigação sociológica. Os putos executam o que lhes é pedido, alimentando, constantemente, o sonho da oficialização de uma identidade profissional de investigação...alimentando, constantemente, o sonho de, um dia, verem a referência ao seu nome, nos estudos do cies.

Como sabemos, assiste-se, actualmente, no iscte, à imposição de um processo de responsabilização ética, inerente à produção de trabalhos académicos (falo da capa anti-plágio). Os gestores do saber performativo classificam - aquele processo - de urgente. Estes são os mesmos gestores que apropriam a dedicação dos putos...aqueles, a quem exigem capas anti-plágio, mas, aos quais, não dão o devido reconhecimento intelectual.

Ora, os gestores da sociologia performativa isctena exigem capas anti-plágio aos seus alunos. Em contrapartida, não reconhecem, intelectualmente, o contributo dos seus colaboradores-alunos, no que respeita a projectos de investigação. Onde está a honestidade intelectual, que dizem ser a grande justificação da capa anti-plágio?
De uma vez por todas, sejam coerentes!

Atenção: este procedimeto investigacional do cies, tem algumas excepções. É seguro, porém, afirmar que aquelas excepções são mesmo muito excepcionais.