Um dos problemas de quem escreve pouco (ou, o que vai dar no mesmo, de quem escreve alguma coisa de muito em muito tempo), é a tendência para mistificar o próprio processo de escrita e tudo aquilo que lhe está associado.Como, no dia-a-dia do «trabalho autónomo», esta categoria de principiantes se limita a fazer umas anotações nas margens dos livros e uns rabiscos numas folhas em branco, a mera representação mental de uma figura humana sentada diante de um computador a escrever um capítulo de uma tese (ou qualquer coisa passível de vir a entrar nessa tese) constitui uma experiência de alteridade radical.
«Quem é aquela pessoa?»
Embora aquel@ que imagina a figura esteja a fazer um esforço tremendo para se colocar no lugar da figura (i.e. no lugar de alguém que está a escrever para a tese), essa projecção identitária dificilmente terá sucesso.
Entre o sujeito anotações-rabiscos e o sujeito escrever-para-a-tese existe um abismo quase insuperável.
E, no entanto, o sujeito anotações-rabiscos reconhece todos os seus objectos pessoais naquele quadro: o seu portátil de marca portuguesa, os seus livros empilhados, os seus lápis minúsculos, o seu candeeiro futurista, a sua florzinha de vidro, etc.
Até o barulho dos carros, lá fora, parece ser exactamente igual.
Só falta o mais importante: reconhecer-se a si mesmo...e começar a escrever!



