domingo, 28 de junho de 2009

Da iniciação sociológica (4)

No meu entender, um dos momentos nucleares da iniciação sociológica é o contacto dos principiantes com um conjunto de autores/textos «clássicos» da disciplina.

Esse contacto pode acontecer em diferentes ocasiões (i.e. «unidades curriculares») e ser realizado de várias maneiras (desde a leitura directa, passando pela leitura de manuais e comentadores e acabando na frequência de aulas expositivas).

Não é obrigatório ler um «clássico» para se sentir o seu ascendente.

Não basta faltar às aulas de «teorias sociológicas» para se ficar a salvo da sua influência.

Os «clássicos» estão por todo o lado, desvanecem e ressuscitam a cada instante, prestam-se à crítica para depois resistirem a ela.

Conhecem algum professor/investigador que diga clara e inequivocamente que os «clássicos» não servem para nada e que deviam ser banidos da disciplina?

Mesmo aqueles que dizem que «não vale a pena ler», não conseguem retirar aos «clássicos» o protagonismo que estes têm nas práticas pedagógicas e nas práticas de investigação.

Porque será?

O que têm os «clássicos» de tão especial?

Qual é o seu papel na iniciação dos sociólogos?

[continua]

Da iniciação sociológica (3)

Fará sentido falar de uma «iniciação sociológica»? Se sim, em que é que esta consistiria?

Tal como a iniciação religiosa e a iniciação militar, a iniciação sociológica também visa introduzir o iniciando num grupo (a «comunidade científico-profissional dos sociólogos»), fazê-lo partilhar os valores e regras desse mesmo grupo (por exemplo, o «racionalismo científico») e dotá-lo de um novo estatuto social (o estatuto de «especialista»).

Tal como nos dois casos supracitados, verificamos que a iniciação sociológica também possui os seus «rituais de iniciação».

É através deles que se inscreve no indivíduo o ethos da ciência: tudo aquilo que não pode ser directamente transmitido por professores e investigadores, justamente porque constitui a essência da sociologia enquanto disciplina científica.

É através deles que o iniciando aprende a ser sociológo.

De corpo e alma.

E, não raras vezes, sem se dar conta do que lhe está a acontecer.

Mas quais são esses rituais?

[continua]

sábado, 27 de junho de 2009

Jovens! O papel higiénico tá caro...toca a estudar (cliquem na imagem)

Instituto Universitário de Lisboa (antigo ISCTE): «sorria, você está a ser roubado» (conclusão)

De todas as promessas de Bolonha, esta era aquela que não podia mesmo deixar de ser cumprida, sob pena de inviabilizar qualquer perspectiva de sucesso do novo modelo de organização do ensino superior na UE: propinas de mestrados de continuidade = propinas das licenciaturas.

O próprio RPP, em várias ocasiões, sublinhou a importância da medida e o compromisso do departamento para assegurar que ela seria devidamente aplicada.

O primeiro ataque (indirecto mas eficaz) a esta promessa surgiu com a nova oferta curricular pós-graduada do departamento de sociologia: mestrados temáticos de 1ª categoria vs mestrados de continuidade de 2ª categoria.

Qualquer um(a) de nós, ao frequentar em regime de optativa cadeiras de mestrados temáticos, pôde aperceber-se da enorme diferença entre o ambiente de investigação destes e o falso aprofundamento científicodisto, disto e disto que estamos a falar) dos mestrados de continuidade nas suas múltiplas (e irrelevantes) «especialidades».

A mensagem que nos estavam a passar era inequívoca: «se quereis formação avançada em sociologia, não tendes outra hipótese senão escolher um mestrado temático» (isto, claro está, para quem pode €scolh€r...).

O segundo ataque, porventura ainda mais letal, surge com a engenharia jurídico-contabilística em torno da fixação da propina para o mestrado em sociologia (processo que tentei analisar nos vários posts desta série).

A propina deixa de estar indexada ao valor-referência do 1º ciclo para passar a obedecer à lógica mercantil (cada vez mais explícita/descomplexada) do departamento de sociologia.

Dir-me-ão: estou a fazer uma tempestade num copo de água (mais ou menos 25€).

Mas, por um lado, como lembra o Hugo, é o somatório das pequenas diferenças que faz a grande mais valia do sistema capitalista.

E, por outro, acrescento eu, é o somatório das pequenas falcatruas que faz a podridão moral daqueles e daquelas a quem chamamos «gestores do saber performativo».

ESTÁ ABERTO O PRECEDENTE (...)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Instituto Universitário de Lisboa (antigo ISCTE): «sorria, você está a ser roubado» (7)

Passo a transcrever o nº 2 do artº 27 do decreto-lei nº 74/2006:

2 - O valor das propinas devidas pela inscrição no ciclo de estudos conducente ao grau de mestre no ensino público, quando a sua conjugação com um ciclo de estudos conducente ao grau de licenciado seja indispensável para o acesso ao exercício de uma actividade profissional, é igualmente fixado nos termos previstos para o ciclo de estudos conducentes ao grau de licenciado no n.º 2 do artigo 16.º da Lei n.º 37/2003, de 22 de Agosto.

(OFF-TOPIC: o n.º 2 do artigo 16.º da Lei n.º 37/2003 remete para uma tabela anexa a um decreto-lei de 1941, ou seja, mais uma vez, aí está o «chato» do senhor António de Oliveira a dar-nos cabo do juízo...)

Primeira constatação: o(a) legislador(a) não utiliza os termos «mestrados de continuidade» ou «mestrados de fileira» (suponho que não era obrigado(a) a fazê-lo).

O que deixa, desde logo, uma questão em aberto: devemos assumir que um mestrado de continuidade é todo e qualquer ciclo de estudos que em articulação com uma determinada licenciatura se considera «indispensável para o acesso ao exercício de uma actividade profissional»?

Se utilizarmos apenas e exclusivamente este critério, o mestrado em sociologia não pode, em bom rigor, ser considerado um mestrado de continuidade, justamente porque a «profissão sociólogo» não exige um diploma de 2º ciclo (ou, noutra maneira de colocar a questão, porque a formação em sociologia não dá acesso a uma profissão específica...).

No caso do mestrado em psicologia social e das organizações, a situação parece ser diferente: a Comissão Instaladora da Ordem dos Psicólogos já iniciou funções e, tanto quanto se sabe, a sua ideia é limitar o acesso à profissão aos titulares de diplomas de 2º ciclo.

Portanto, neste caso, e apenas neste caso, é mesmo «indispensável» fazer um mestrado para obter a Cédula Profissional da Ordem e, dessa forma, exercer a «profissão psicólogo».

Em suma, quer isto dizer que o departamento de sociologia se aproveitou do carácter ambíguo da lei para cobrar um pouco mais aos seus «utentes»?

[continua]

Instituto Universitário de Lisboa (antigo ISCTE): «sorria, você está a ser roubado» (6)

Mas por que motivo, ao contrário dos departamentos de sociologia e de ciências da gestão (ver este post para comparar valores), o departamento de psicologia social e das organizações haveria de estipular para o seu mestrado de continuidade uma propina «idêntica» àquela que é cobrada nas licenciaturas do ISCTE-IUL?

Porque segue o despacho nº 11/2008 do presidente Reto (que fixa em 972€ a propina dos mestrados de continuidade para o ano lectivo 2008/2009)?

Porque não adere às novas estratégias de captação de recursos (como, por exemplo, a «taxa de candidatura» no valor de 30€ cobrada pelo departamento de economia)?

Não.

Porque, simplesmente, tal como vem no folheto da edição 2009/2010 do mestrado de continuidade, a isso estão obrigados pelo nº 2 do artº 27 do decreto-lei nº 74/2006!

Isto poderá significar que dentro da mesma instituição pública (ou, melhor dizendo, mais ou menos pública...) de ensino superior coexistem várias interpretações da mesma lei?

[continua]

Instituto Universitário de Lisboa (antigo ISCTE): «sorria, você está a ser roubado» (5)

Vejam só o que está escrito no site do mestrado em psicologia social e das organizações:

Por se tratar de um Mestrado de Fileira, as propinas devidas pela frequência do Mestrado em Psicologia Social e das Organizações são idênticas às do 1º ciclo e o valor é redefinido anualmente pelo Presidente do ISCTE, bem como o valor das prestações e respectivos prazos de alargamento.

(NOTA: «mestrado de fileira» = «mestrado de continuidade»)

O que será que aquele/aquela que escreveu este texto queria dizer com «idênticas»?

A resposta vem logo a seguir:

Para o ano lectivo de 2009/2010 foi definido o valor de 980 Euros cujo o [sic] calendário de pagamento ainda não foi aprovado. Abaixo poderá consultar o calendário de pagamento de propinas do corrente ano lectivo.

Consultando o calendário de pagamento de propinas de 2008/2009, conclui-se que o valor total é 972€.

Excluindo a diferença dos extras (30€ para a licenciatura e 8€ para os mestrados de continuidade), este valor é IGUAL ao valor-base do 1º ciclo aprovado pelo Presidente do ISCTE para o corrente ano lectivo.

Conclusão: o departamento de psicologia social e das organizações entende que «idênticas» quer dizer «iguais».

[continua]

Instituto Universitário de Lisboa (antigo ISCTE): «sorria, você está a ser roubado» (4)

(para quem não teve a oportunidade de ler os outros posts desta série, pode fazê-lo aqui, aqui e aqui)

Hoje, eu, o Hugo e o Luís decidimos ir aos serviços académicos esclarecer as nossas dúvidas sobre o valor da propina anual do mestrado em sociologia (um «mestrado de continuidade») referente ao ano lectivo 2008/2009.

Informação prestada pela funcionária depois de consultar um caderno: 1000€ (mais taxa de inscrição e seguro escolar).

Confrontando a funcionária com o documento «Normas, Regulamentos e Informações de 2º Ciclo - Ano Lectivo 2008/2009», onde a propina dos mestrados de continuidade se situa nos 972€, a senhora revela-nos, para nosso espanto, que esse valor era apenas indicativo e que, assim sendo, poderiam existir excepções.

...«indicativo»!?

...«excepções»!?

Pois.

Ao contrário dos departamentos de antropologia e de psicologia social e das organizações, onde a propina dos respectivos mestrados de continuidade está indexada à propina das licenciaturas (972€), o departamento de sociologia (1000€/ano) e o departamento de ciências da gestão (3400€ para o 1º ano + 1500€ para o 2º ano = 4900€) praticam preços acima (e, no caso deste último, mesmo MUITO acima!) do valor-referência para o 1º ciclo.

Mas como é possível que isto aconteça?

Os departamentos não têm todos de cumprir as mesmas regras?

Os mestrados de continuidade não têm todos o mesmo estatuto jurídico e, consequentemente, o mesmo regime de propinas?

[continua]

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Engenheiro ou Sociólogo? Eis a questão

Há, sensivelmente, 2 anos, ainda frequentador da licenciatura em sociologia...bom,considerando a minha assiduidade no respeitante à frequência das aulas, talvez, «frequentador» não seja o termo mais apropriado, mas adiante...dizia eu, há 2 anos vivi um episódio, no mínimo, desconcertante. Não, não estou a falar de nenhuma desilusão amorosa (essas são muito menos desconcertantes).

A caminho de mais uma sessão de treino físico (já que o treino intelectual é pouco compensador...e já vão perceber porquê), reencontro um ex-vizinho: um avô respeitável (aquele tipo de avozinho impossível de não admirar). Muito cordialmente cumprimenta-me e, instintivamente, ao mesmo tempo que me focava um olhar curioso, saudoso e optimista, questiona-me:

Então rapaz, já estás na faculdade?

Igualmente entusiasmado, respondi:
Sim. Já estou no terceiro ano da licenciatura.

Admirável senhor: Boa! Estás a estudar engenharia, não é?

Ao que o sociólogozeco de meia tigela (eu, portanto) respondeu: Não. Estou a estudar sociologia.

Admirável senhor: xiiiiiiii...a sério. Oh rapaz, onde é que tu te foste meter. Mas achas que vais conseguir arranjar emprego quando terminares os estudos?

Completamente desfeito, limitei-me a encolher os ombros e a dizer «não sei, vamos ver».

A conversa, felizmente, ficara por ali...terminara com um virar de costas entre duas pessoas desgostosas, cabisbaixas...
O treino intelectual parece não ser recompensado (muito embora alguns gestores da sociologia performativa insistam na «sociologização» do mercado de trabalho). Até um avozinho (com todo o respeito pelos avós) percebe que aquilo é conversa fiada, ou melhor, conversa de quem quer continuar a angariar utentes para a sociologia isctiana (peço perdão, iuliana).

Hoje, reencontrei o admirável senhor. Uma vez mais, gentilmente, cumprimentou-me, e apenas me perguntou se já terminara o meu curso. Disse-lhe que estou no mestrado. Não arriscou perguntar-me qual o mestrado que frequento. Ainda bem...

...Ainda assim, o treino físico de hoje, tal como o do fatídico dia, correu muito mal!

Da iniciação sociológica (2)

Mas não é tudo: falta perguntar como é que o iniciando é introduzido no grupo, como é que ele/ela acede a um novo status social e como é que ele/ela aprende a respeitar os valores e regras do grupo.

Por outras palavras, falta perguntar quais são os «rituais de iniciação» próprios da iniciação religiosa e da iniciação militar.

Não é difícil perceber que o iniciando deve viver determinadas experiências antes de poder ser considerado um membro pleno do grupo religioso. Na igreja católica, por exemplo, o baptismo é essencial. Mas também é igualmente importante frequentar a catequese e envolver-se nas actividades da paróquia local.

No que respeita à iniciação militar, o termo «recruta» sintetiza bem as etapas pelas quais o iniciando deverá passar antes de ser considerado um elemento das forças armadas do seu país. Trata-se, como sabemos, de um curso intensivo de cultura militar que culmina, em caso de não-desistência, na tradicional cerimónia de juramento de bandeira.

Em qualquer dos casos, é através dos rituais de iniciação que se inscrevem no indivíduo o ethos da religião e o ethos das forças armadas, ou seja, tudo aquilo que não pode ser directamente transmitido pelos padres e pelos oficiais, justamente porque constitui a essência da fé religiosa e a essência da cultura militar.

É através deles que o iniciando aprende a ser um membro do grupo.

De corpo e alma.

E, não raras vezes, sem se dar conta do que lhe está a acontecer.

[continua]

Da iniciação sociológica

Iniciação religiosa, iniciação militar: fará sentido falar, em termos análogos, de uma «iniciação sociológica»? Se sim, em que é que esta consistiria?

Partindo do princípio que toda a iniciação visa (1) introduzir o iniciando num grupo, (2) fazê-lo partilhar os valores e regras desse mesmo grupo e (3) dotá-lo de um novo estatuto social, talvez possamos ensaiar uma analogia tão fértil quanto prudente.

Vejamos, para já, os ideais-tipo da iniciação religiosa e da iniciação militar.

Em que grupo o iniciando é introduzido?

Resposta fácil: religião/grupo religioso (iniciação religiosa) e exército/forças armadas (iniciação militar).

Como se designa a nova condição social que se espera que o iniciando venha a obter?

Para simplificar, podemos dizer que a iniciação religiosa visa elevar o iniciando ao estatuto de membro de um determinado grupo religioso («crente»?) e que a iniciação militar visa transformar um civil num militar.

Que valores e regras o iniciando deve aprender a respeitar?

Embora grande parte das normas não esteja codificada e embora nem sempre o processo de iniciação de novos membros se faça segundo a ideologia oficial das instituições, podemos dizer, pelo menos em última instância, que o militar deve obediência a um código militar (relativamente autónomo do código civil) e que o crente deve obediência aos textos e símbolos sagrados da sua religião.

[continua]

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Depois de ter recebido quatro e-mail's do departamento (e de ter reparado, não sem alguma surpresa, que agora somos «utentes»)

Continuo sem perceber qual é o horário de funcionamento do secretariado no «período de férias».

Correndo o risco de parecer derrotista (mas este é o rescaldo que faço do confronto entre «recentrar prioridades» e «consolidar a mudança»)

Quando grande parte do debate se centra em «questões de operacionalização» do «programa de desenvolvimento», está tudo dito: a margem de manobra daqueles e daquelas que não concordam com as «opções estratégicas» do ISCTE-IUL é cada vez menor.

sábado, 20 de junho de 2009

Não é que um post sobre as eleições para o Conselho Geral do ISCTE-IUL fique mal (e que um apelo à participação de tod@s seja despropositado)

Mas talvez seja mais interessante passar a palavra a alguém que a usa com mestria e poder de síntese: Mia Couto.

Tendo formado previamente enormes expectativas em vê-lo «do lado de lá» (afinal de contas, fazer parte da mesa não é o mesmo que estar na plateia)

Fiquei muito contente ao perceber que, quaisquer que sejam os lugares que qualquer um de nós venha a ocupar futuramente, nenhum jogo de cadeiras poderá inibir aquilo que sempre fomos e que sempre seremos: principiantes com muitas inquietações.

Ouvido na marcha lgbt imediatamente antes de entrar na rua Garrett (sim, quem anda nestas coisas habilita-se a aturar uns piropos curiosos)

«Não achas que está na hora da sociologia portuguesa sair do armário?»

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Convite


Conferência/Debate no âmbito da Pós-Graduação em Comunicação e Gestão de Crises

«O que se passa na Guiné Bissau?»

Dia 19 de Junho, pelas 18h, no auditório B203 do ISCTE-IUL

Com a presença de Cândida Pinto (SIC), Álvaro Nóbrega (ISCSP), Eduardo Costa Dias (ISCTE-IUL) e Dautarin Costa (ISCTE-IUL)

Entrada livre.

sábado, 13 de junho de 2009

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Pessoa com deficiência: "1 categoria", duas perspectivas

Lei de bases da prevenção, habilitação, reabilitação e participação das pessoas com deficiência, aprovada em conselho de ministros, no final de 2003:
«Considera-se pessoa com deficiência aquela que por motivo de perda ou anomalia, congénita ou adquirida, de funções ou de estruturas do corpo, incluindo as funções psicológicas, apresente dificuldades específicas susceptíveis de, em conjugação com os factores do meio, lhe limitar ou dificultar a actividade e a participação em condições de igualdade com as demais pessoas.»

Documento realizado pela APD (Associação Portuguesa de Deficientes) em 2003 no âmbito da revisão da lei de bases supra referida:
«Pessoa com deficiência é aquela a quem é imposta a perda ou limitação de oportunidades com base em argumentos biológicos. A perda ou limitação de oportunidades de participação em igualdade de circunstâncias é devida a um conjunto complexo de situações criadas pelo meio ambiente e social que impedem ou limitam o reconhecimento, usufruto ou exercício dos direitos humanos e liberdades fundamentais.»

Excertos retirados de: Santos, Bruno Sena (2006), «E Se Eu Fosse Cego?» Narrativas Silenciadas da Deficiência, Porto, Edições Afrontamento, pp. 202

PS: Aih aih!!! o paradigma biologicista ainda é tão invocado pelos (ir)responsáveis do burgo

Questão que se apoderou de mim depois de fazer um balanço do seminário «a economia para além da economia» (pois é, ainda estou de ressaca)

Para quando o seminário «a sociedade para além da sociedade»?

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Instituto Universitário de Lisboa (antigo ISCTE): «sorria, você está a ser roubado» (3)

São três as razões que me levam a pensar que @s alun@s do mestrado em sociologia estão a ser vítim@s de burla:

1) No final do ano lectivo 2007/2008, a Unidade de Estudos Pós-Graduados da Direcção de Serviços Académicos do ISCTE-IUL colocou à disposição do público o documento «Normas, Regulamentos e Informações de 2º Ciclo - Ano Lectivo 2008/2009». Neste texto, inclui-se o «Regulamento das Propinas de Cursos de Mestrados Integrados ou de Continuidade» (secção 8.3 - pág. 23). Consultando as informações que aí constam, ficamos a saber que a propina relativa ao ano lectivo 2008/2009 está fixada em 972€ e que este valor pode ser pago em quatro prestações de 243€. Não existe nenhuma referência a despesas administrativas.

2) No início do ano lectivo 2008/2009, quando me matriculei no 2º ano do mestrado em sociologia, fui «obrigado» a pagar a primeira prestação da propina anual (243€), acrescida de taxa de inscrição (6,5€) e seguro escolar (1,5€). Tanto quanto consegui apurar na altura junto dos serviços académicos, estas seriam as únicas despesas administrativas associadas aos mestrados de continuidade do ISCTE-IUL. É certo que não consultei nenhum documento oficial para confirmar a informação (o único documento que consultei, como já referi acima, não diz qual é o valor das despesas administrativas). Mas por que motivo haveria de desconfiar daquilo que @s funcionári@s dos serviços académicos me estavam a dizer?

3) Ontem, quando estava a consultar o site do ISCTE-IUL, verifiquei que, ao contrário daquilo que aparece na página do mestrado em sociologia (1000€), as páginas dos mestrados em antropologia e psicologia social e das organizações (dois mestrados de continuidade) «falam» respectivamente em 972€ e 980€ de propina anual... Estranho, não é?

[continua]

Adenda (08/06 - 16:30): Coincidência ou não, acabo de descobrir que a página do mestrado em sociologia do ISCTE-IUL foi alterada de ontem (dia das eleições europeias) para hoje. Aquilo que agora aí consta diz respeito à 7ª edição do mestrado em sociologia (ano lectivo 2009/2010). Em vez de 1000€ de propina anual, temos agora 2000€ «pagável em quatro prestações». Supondo que este valor se refere aos dois anos do mestrado, é necessário compará-lo ao novo (?) valor das propinas das licenciaturas para saber se a fraude continua em 2009/2010...

Instituto Universitário de Lisboa (antigo ISCTE): «sorria, você está a ser roubado» (2)

Passo a explicar:

No início do corrente ano lectivo, o valor previsto para o mestrado em sociologia (um mestrado de continuidade) era 980€ (incluindo taxa de inscrição e seguro escolar).

A meio do corrente ano lectivo, sem que @s alun@s tivessem sido informad@s e, tanto quanto julgo saber, violando a legislação em vigor, o ISCTE-IUL acrescentou pelo menos 20€ relativamente ao valor que tinha sido homologado para 2008/2009 («pelo menos», porque desconheço se este valor inclui a taxa de inscrição e o seguro escolar).

Como podem verificar pela página do mestrado em sociologia, a propina anual cifra-se agora nos 1000€ (quatro prestações de 250€).

Mas será que o ISCTE-IUL passou a cobrar mais?

Como é que eu tenho a certeza que 980€ era o valor correcto e que tod@s aquel@s que pagaram acima desse valor estão a ser vítim@s de burla?

[continua]

Adenda (08/06 - 16:15): Coincidência ou não, acabo de descobrir que a página do mestrado em sociologia do ISCTE-IUL foi alterada de ontem (dia das eleições europeias) para hoje. Aquilo que agora aí consta diz respeito à 7ª edição do mestrado em sociologia (ano lectivo 2009/2010). Em vez de 1000€ de propina anual, temos agora 2000€ «pagável em quatro prestações». Supondo que este valor se refere aos dois anos do mestrado, é necessário compará-lo ao novo (?) valor das propinas das licenciaturas para saber se a fraude continua em 2009/2010...

domingo, 7 de junho de 2009

Instituto Universitário de Lisboa (antigo ISCTE): «sorria, você está a ser roubado»

Como se já não bastasse o valor absurdo das propinas num dos países da Europa com maiores carências de formação superior, ainda existem artifícios de secretaria para sacar um dinheirinho extra àquel@s que frequentam mestrados de continuidade (também conhecidos por «mestrados de fileira»):

Propinas das licenciaturas do ISCTE-IUL no ano lectivo 2008/2009

972€ + 30€ (impressos e afins) = 1002€

O valor dos impressos distribui-se de igual forma pelas quatro prestações.

Assim, cada prestação corresponde a 250,50€.

Propinas dos mestrados de continuidade do ISCTE-IUL no ano lectivo 2008/2009

972€ + 6,5€ (taxa de inscrição) + 1,5€ (seguro escolar) = 980€

A taxa de inscrição e o seguro escolar são pagos no acto da matrícula.

Assim, a primeira prestação corresponde a 251€ (243€ + 6,5€ + 1,5€) e cada uma das restantes corresponde a 243€.

Perguntam vocês: onde é que está o «roubo» anunciado no título?

[continua]

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Da «componente humana» (epílogo)

[cliquem na imagem para aumentar]




Uma imagem ajuda a esclarecer muitas dúvidas...ou talvez não!

Da «componente humana» (2)

Perguntam vocês: o que é a «componente humana»?


Pois, eu também não sei.

Sempre presumi que o problema era meu, tal era o entusiasmo revelado por outr@s alun@s quando me falavam da sua inquietação de principiantes.

Frustrado por não entender @s minh@s prezad@s interlocutor@s, lembro-me de ter tentado imaginar o que seria o contrário da «componente humana», ou seja, aquilo que (segundo @s minh@s coleg@s) existiria a mais no curso e que deveria passar a existir menos (ou, nalgumas versões, aquilo que deveria deixar de existir de todo).

Se o contrário da «componente humana» fosse a «componente técnica», então @s minh@s coleg@s talvez estivessem a pedir menos estatística e SPSS.

Se o contrário da «componente humana» fosse a «componente teórica», então @s minh@s coleg@s talvez estivessem a pedir menos teorias sociológicas.

Ainda hoje, quando penso na questão, recorro preferencialmente a estas hipóteses.

E, no entanto, acho que continuo a dar tiros no escuro...

Alguém tem a bondade de me ajudar?

Da «componente humana»

Em conversa com outr@s principiantes, acontecia, por vezes, apanharmo-nos a falar daquilo que mais gostavamos no curso de sociologia.

A este respeito, cada um@ tinha uma sensibilidade muito pessoal.

Mesmo em grupos de cinco, seis, sete pessoas, era difícil encontrar duas respostas iguais.

Tod@s discutíamos o assunto com paixão, porque se tratava justamente de discutir a própria paixão.

E, no final, tod@s percebíamos que existem várias formas de viver a inquietação d@ principiante e que não é justo que uma delas tenha maior relevo do que as outras.

Ao longo dos últimos anos, tive a oportunidade de participar em imensas tertúlias deste género.

E, em todas elas, encontrei respostas sempre diversificadas e raramente coincidentes.

Excepto esta:

«O que eu gosto mais no curso é a componente humana»

...que costumava vir acompanhada de uma observação crítica sobre o plano curricular da licenciatura:

«O curso de sociologia tem pouca componente humana; acho que devia ter mais»

[continua]

terça-feira, 2 de junho de 2009

Instituto Universitário de Lisboa: patrocinador oficial da UEFA Champions League



Digam lá se o logótipo do iul não é uma cópia do logótipo da Champions.
Então e a capa anti-plágio...onde é que ela anda?!
Estou a pensar endereçar uma carta ao presidente da UEFA (Platini), a expôr esta situação, anexando, na mesma, uma foto do logótipo do iul.

Mas, sinceramente, até percebo a ideia: a champions league é sinónimo de milhões para os clubes europeus; a ideia é fazer do iul uma marca de grande sucesso económico (as «exibições» e as «arbitragens» é que são muito fraquinhas).

Vejam o logótipo do iul (cliquem na imagem):



Fiquem com o hino da Champions...que também serve para o iul:

Qual é o pior cego: aquele que não vê, ou aquele que não quer ver!? 2 (analogias)


Ver ou não ver!? ex a questão... ver o quê??? com que olhos??? e com que olhar???

Leitura dos clássicos:
Já se disse neste espaço que, no iscte (actual iul), há docentes - os «editores» da carta - que recomendavam a "não leitura" de certas obras e autores («não vale o esforço»). Os alunos - quais «segundos (os cegos)» da carta, segundo esses docentes, não têm capacidade para ler e interpretar autonomamente determinados textos. Tal como os cegos, os alunos do iul devem aproveitar ao máximo, ou melhor, em exclusivo, as interpretações caridosamente já concebidas acerca desses textos...

Cultura profissional:
A defesa acérrima de uma cultura profissional associativa, tal como todos nós no iscte e no iul já testemunhámos, assenta numa perspectiva bem transversal como é exemplo a carta apresentada no post anterior. Os indivíduos que defendem este tipo de cultura profissional não reconhecem legitimidade a perspectivas diferentes das suas.
Os editores de outrora são, hoje em dia, aqueles que não reconhecem e nem admitem a diferença de perspectivas, são aqueles que visão a imposição de um paradigma hegemonizante. Já os cegos ~são aqueles que procuram por todas as vias lutar pela sua sobrevivência intelectual livre e, por vezes diletantes...

Se ser cego fosse, apenas, ter uma perspectiva: afinal, quem seriam os cegos contemporâneos!?

Uns são cegos por condição biológica, outros apenas vêem segundo uma perspectiva... então, qual é o pior cego!?

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Qual é o pior cego... aquele que não vê, ou aquele que não quer ver!?

A citação abaixo apresentada é um excerto de uma carta reivindicativa enviada por editores e livreiros de Lisboa à rainha de Portugal, no último quartel do século XVIII, a propósito da venda ambulante de pequenas histórias escritas - as chamadas "folhinhas" - por indivíduos cegos, que retirariam, desse venda, parte significativa do seu rendimento. Conseguindo-se assim reduzir os casos de indigência de pessoas cegas (pelo menos era o objectivo das autoridades).

"Os segundos (os cegos) porque sendo os cegos a classe de homens mais inerte e menos intelligentes deste mundo tanto em razão da sua cegueira, que lhes priva de semilhantes conhecimentos, como em razão dos seus anteriores exercicios, e ignorancia crassa, mal poderem dezempenhar com satisfação do publico hum negocio em que he necessario ao commerciante ter ao menos huma não leve noticia do merecimento das obras, dos seus impedimentos, ou liberdades, do numero de tomos de cada jogo, da superioridade das edições, e de outras coizas similhantes, (...) Alem disto os cegos são huma classe de homens, que pela sua summa pobreza, e pela mizeria em que os constituio a sua molestia, não tem forças, nem dinheiros para manejarem hum trafico de tanto custo, de que rezulta que por mais exuberantes que sejam os seus privilegios nunca estes podem deixar de andar importunando a Republica, e viver de caridade do seu proximo. Por esta forma a sua mizeravel condição os faz incapazes de poder recahir sobre eles com proveito seu e do publico a beneficientissima de V. Magestade."

Citação retirada de: Martins, Bruno Sena (2006), «E Se Eu Fosse Cego»?: Narrativas Silenciadas da Deficiência, Porto, Edições Afrontamento, pp. 178