segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Consequências de uma reunião

Um simples «sim» tem o dom de mudar muita coisa.

«Sim», «Gostei», «Pode continuar» ... era mesmo disto que eu precisava.

Afinal a tese tem futuro. Afinal tem presente e teve passado. Afinal Agosto e Setembro foram meses de trabalho. Afinal valeu a pena abdicar das férias. Afinal não perdi o jeito. Afinal os meus amigos tinham razão. Afinal tinha razões para acreditar em mim. Afinal exagerei na descrença. Afinal sinto-me realizado. Afinal posso continuar. Afinal posso terminar ... está quase ... só mais um esforço ... só mais um pouco de inspiração ... só mais um «sim», só mais um «gostei», só mais um «força, continua».

domingo, 29 de novembro de 2009

Que nunca vos faltem inquietações




É incrível o que se pode aprender com a tese.

Sobre aquilo que gostamos, aquilo que queremos, aquilo que consideramos importante nas nossas vidas.

Durante o processo, aprendemos coisas inesperadas sobre aquilo que somos (ou devo antes dizer a pessoa em que nos tornámos?).

Nem todas as descobertas são agradáveis.

Há mistérios que nunca quisemos desvendar.

Feridas que parecem doer tanto como da primeira vez.

E, no entanto, é incrível o que isto nos faz crescer.

Já se compararam com a pessoa que iniciou?

A diferença é grande.

Por vezes assustadora.

Mas agora já não há retorno.

A única hipótese é seguir em frente (onde quer que ir em frente nos leve).

Olhar para o futuro e abraça-lo com os dois braços.

Colher inspiração em ideais.

E continuar à procura...

Principiantes de todo o mundo (a começar pelos meus três camaradas do blog): que nunca vos faltem inquietações!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Da escrita como prova de obstáculos

Há quem pense que o difícil é começar, andam às voltas, tentando seduzir ideias, arriscando palavras, mas uma vez dactilografada a primeira frase, nada os pára, parágrafo a parágrafo, página a página, a coisa vai por ali fora, enquanto dura a inspiração, e é vê-los assim, a aproveitar, pois não se sabe quando volta, nem se sabe se voltará, para outros, o problema é exactamente o oposto, o difícil é terminar, não lhes custa nada escrever a primeira, nem a segunda, muito menos a milésima nona, sempre se habituaram a pegar pela ponta que estava solta, sem queixumes ou lamurias, a escrita é uma coisa que se faz, ora bolas, não vale a pena complicar, a não ser que se queira terminar, aí, meus caros e minhas caras, a coisa dá para o torto, bem tentam, um pontinho aqui, um pontinho acolá, agora é que é, mas ainda vem mais uma, e outra, e outra, até o texto se tornar irreconhecível e a autoria um segredo muito bem guardado, mas não é de nenhum dos dois de que vos quero falar, é de outra pessoa, aquela que insiste em ver dificuldades em todo o lado, obstáculos em tudo o que é gramática, sintaxe e afins, conseguiste escrever uma frase?, pois bem, supondo que a frase que acabaste de escrever liga na perfeição com aquilo que tinhas escrito imediatamente antes, duvido muito, mas adiante, supondo que sim, dizia, ainda terás pela frente a tarefa colossal de ligar aquela que acabaste de escrever com a outra que ainda estás a imaginar, sim, ou pensas que a escrita é fluidez, que se pode dizer tudo a propósito de tudo, em qualquer ordem, sem estrutura, fio condutor, princípio, meio e fim?, pensas mal, enganas-te, há regras a cumprir, mandamentos a respeitar, uma vela para a santinha das artes verbais, e muita pachorra, muita pachorra mesmo, para aturar a diarreia mental de quem (não) acha que o mundo vem abaixo porque uma vírgula não está no sítio certo.

domingo, 22 de novembro de 2009

Das intuições

Há dias em que nada resulta, puxa-se pela cabeça, rabisca-se qualquer coisa, manda-se a tese às urtigas, torna-se a puxar novamente pela cabeça, rabisca-se novamente qualquer coisa, manda-se novamente a tese às urtigas, nada feito, é inútil insistir, e assim passam-se horas, por vezes dias, chegamos a duvidar da nossa inteligência, quiça da nossa vontade, será que é isto que eu quero?, e eis que decidimos ir para a cama, exaustos das tropelias diurnas, amanhã é que é, ou depois de amanhã, não importa, agora preciso de descansar, para estar pronto, para não ser apanhado desprevenido, para aproveitar quando a oportunidade surgir, ah!, a oportunidade!, estará para breve?, esperemos que sim, desejamos que sim, e assim nos agarramos à almofada, e assim fechamos os olhos, e assim, devagarinho, e assim, pé ante pé, e assim, sem fazer barulho, lá aparece, antes do previsto, a fada das intuições, tu?, agora?, neste preciso momento?, não dá para resistir, e eis que decidimos interromper o semi-sono, meio alegres, meio alucinados, começamos a fotografar mentalmente tudo aquilo que nos vem à cabeça, ah!, como é bom sentir o fluxo de ideias a atravessar o espírito!, não dá para parar, é viciante, é estonteante, por esta altura estamos mais despertos do que durante o dia inteiro, o mesmo dia em que tudo parecia estar perdido, não fosse a noite reservar esta enorme surpresa, continuam a chegar intuições de todo o lado, como é que eu não tinha dado conta desta?, vêm de todas as direcções, deixa-me agarrar-te que me escapas, primeiro uma, depois duas, três, quatro, de repente, começam a escapar muitas, muitas mais do que aquelas que conseguimos prender, estica-se o tentáculo aqui, estica-se o tentáculo acolá, é a dança das intuições, e eu a vê-las dançar, esperem, por favor, esperem, vou só ali buscar o bloco de notas e a caneta, alguma coisa tem de ficar guardada, alguma coisa tem de ficar comigo, alguma coisa tem de ser aproveitada, alguma coisa, alguma coisa, alguma coisa...

No dia seguinte, as olheiras.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

En€ino €uperior €Público€



Entretanto ficámos a saber que valor da propina no iul voltou a subir.

Podíamos ser muitos e muitas mais



Chamem-me desmancha-prazeres, digam-me que estou a ser injusto, que o pessimismo não é solução, e que há sempre duas maneiras de ver um copo com água, mas não consigo deixar de pensar que podíamos ser muitos e muitas mais, em número, em força, em entusiasmo, em reivindicação, não tenho dúvidas que ir à luta é uma coisa maravilhosa, mostrar os dentes, cerrar os punhos, olhar para trás e ver a multidão a marchar, é nestes raros momentos que desperta o espírito adormecido do movimento estudantil, figura basilar da democracia, feita de ti e de mim, de todas e de todos, para além das diferenças, acima das divisões, uma causa comum, e, no entanto, podíamos ser muitos e muitas mais, podíamos fazer estas coisas com maior frequência, levar a marcha a cada universidade e a cada politécnico, trazer professores, convocar funcionários, mobilizar pais, mães e familiares, afinal de contas, todos estamos implicados, quem frequenta agora o ensino superior, quem frequentou no passado, quem frequentará no futuro, quem nunca pôde, quem teve de desistir, quem gostaria de prosseguir, haverá público mais vasto do que este?, e, no entanto, aqueles e aquelas que marcham, marcham juntos, é certo, mas separados, não tenhamos ilusões, a unidade é coisa provisória, efémera, oportunista, basta circular lá dentro, vir cá pra fora, e voltar outra vez lá para dentro, cada grupo tem as suas razões, as suas clientelas, as suas idiossincrasias, pedir mais iria ferir-los de morte, a sua natureza é sectária, ou acham que a juventude do bloco tem os mesmos objectivos da associação académica de coimbra?, obviamente que não, obviamente que sabe a pouco, mesmo que saiba bem, mesmo que fiquem promessas de ressuscitar o movimento, de vigiar o ministro, voltar novamente à rua, pró'ano, prá'manhã, ou pra quando já for demasiado tarde?, ..., podíamos ser muitos e muitas mais, ora bolas.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Amanhã 15h Cidade Universitária


«Hã? Isto tá mal!»

RTP - ANTENA ABERTA


Cláudio Amaral (Direcção da Comissão de Praxe da FLUL) a defender a praxe no programa Antena Aberta (RTPN) de 12/11.

A não perder!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

«Artifícios de método» (ou, Como matar uma mosca com um clássico da sociologia)

«O paradoxo é evidente», dois pontos, pausa, ligeira irritação, recomeço, «o paradoxo é evidente», dois pontos, pausa, barulho estranho, irritação moderada, recomeço, «o paradoxo é evidente», dois pontos, «embora tenha ficado provado que os factos sociais», BZZZ, distracção, pausa, irritação moderada, recomeço, «embora tenha ficado provado que os factos sociais não se confundem», BZZZZZZZ, apesar da inclinação acentuada, uma mosca acabou de poisar no monitor do portátil, «embora tenha ficado provado que os factos sociais», [mosca], «não se confundem», enxota-se a mosca, irritação moderada, prossegue-se o trabalho, «não se confundem com as formas que tomam nas consciências individuais», BZZZZZZZZZZ, BZZZZ, BZZZZZZZZZ, ataque da mosca, levanta-se o escriba, esbraceja sem grande convicção, ai ai ai, dores nas articulações, volta a sentar-se, irritação elevada, vírgula, «é indispensável recorrer a determinados artifícios de método», BZZZ, BZZZ, BZZZ, e não é que a sacana acabou de poisar em cima da mesa?, tentando recuperar a concentração, «determinados artifícios de método», passeia-se agora pelo meio dos livros como se houvesse ali qualquer coisa de interessante para uma mosca, mais uma vez, enxota-se a bestazinha, de novo o ecrã, esfregar os olhos, coçar o nariz, onde é que eu ia?, irritação elevada, ah, já sei, «artifícios de método», mosca de regresso, BZZZ, poisa em cima d'As Regras, BZZZ, edição da PUF, BZZZ, colecção quadrige, BZZZ, livro vermelho, «artifícios de método», mas o que é que Durkheim queria dizer com isto?, BZZZ, irritação muito elevada, BZZZ, mosca começa a dar a volta à capa, BZZZ, «artifícios de método?», BZZZ, mete-se entre a capa levantada e a primeira página, BZZZ, irritação extrema, BZZZ, «artifícios de método?», BZZZ, ponto de interrogação, olhar fulminante, oportunidade, mãos em cima da capa para encurralar o bicho, BZZZ, BZZZZZZZZZZZZZZZZZZ, BZZZ, bicho encurralado, cacetada, uma, BZBZBZBZBZ, duas, BZBBBBB, três, ZB, já chega?, estará morta?, posso trabalhar descansado?, silêncio, soltam-se as mãos de cima da capa, o livro abre-se sozinho, mosca esmagada, grande mancha de sangue a condizer com o vermelho vivo da colecção quadrige, «artifícios de método?», grande satisfação, agora já sei, exclamou o assassino.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Não há desculpas para faltar

MARCHA PELO ENSINO SUPERIOR

Lisboa, 17 de Novembro (terça-feira), 15 horas

Ponto de encontro: Cidade Universitária

sábado, 7 de novembro de 2009

Notícia de última hora: ISCTE-IUL elege primeiro reitor após passagem a fundação



...chama-se Luís Reto e é o actual presidente do ISCTE-IUL.

A meninice que tenta sonhar

Acabei de ler Avó Dezanove e o Segredo do Soviético, mais uma obra de Ondjaki.

Fui, ao longo das páginas em que a minha leitura se deleitava com as formas que as tintas tomavam, confrontado com a minha meninice que vai deixando de sonhar.

A personagem principal, um menino luandense que saboreia a vida nos sonhos das palavras e cores que brotam das estórias de gentes que respiram os dias com o calor das vivências, mostrou-me como a rotina de sobrevivência e necessidade desenfreada de consumo, característica do nosso tempo, pode entupir o nosso romantismo.

De que vale o pragmatismo quando nos esvazia o romantismo?

De que vale o pragmatismo quando nos esvazia aquela meninice que nos faz sonhar mudar o mundo?

De que vale o pragmatismo se nos tira o tempo de vivermos o nosso tempo?




"-Estórias de antigamente é assim que já foram há muito tempo?
- Sim, filho.
- Então antigamente é um tempo, Avó?
- Um lugar assim longe?
- Um lugar assim dentro."

Ondjaki

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A história do caderninho (conclusão)



Orgulhoso e auto-suficiente como qualquer principiante que se preze, julguei que podia dar conta do recado sem ter necessidade de escrevinhar o que quer que fosse numa folha de papel.

Se é verdade que deu resultado durante uns tempos, logo que entrei em regime de escrita intensiva, não tive outra solução senão deitar mão a um caderninho que estava guardado na prateleira do esquecimento.

Limpei-lhe o pó, abri-o na última página onde tinha escrito e peguei na minha caneta preferida.

Comecei por desenhar esquemas minimalistas que ia actualizando à medida que o trabalho propriamente dito avançava.

Tinha conseguido fechar determinada página a respeito de determinado assunto?

Escrevia logo no caderno, em letras bonitas e espaçamento generoso, que sim, tinha conseguido.

Tratando-me a mim próprio como um adulto trata uma criança de 7 anos que cumpre os seus deveres, pude concluir o primeiro capítulo sem grandes dramas e no tempo previsto.

Hoje, passados 2 meses, é raro o dia em que não escrevo no caderno.

Mesmo que seja só para largar no papel as preocupações mais recorrentes sobre a tese.

Não é que tenha medo de me esquecer delas (elas não se esquecem).

E não é que o simples facto de as escrever ajude a resolvê-las (elas não se resolvem).

Mas lá que sabe tão bem deixá-las ali, em suspenso, em vez de andarem sempre atrás de nós, lá isso sabe.

Dá para adormecer a pensar em coisas boas e adiar, pelo menos por umas quantas horas, a inevitável hemorragia cerebral que teremos no dia seguinte!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A história do caderninho (4)

(os outros posts desta série podem ser consultados aqui, aqui e aqui)

Só muito recentemente tomei consciência da quantidade enorme de micro-decisões que estão envolvidas no processo de fazer uma tese.

Como cada decisão transporta consigo um universo de possíveis, optar por seguir o caminho Z34 em detrimento da via R62 corresponde sempre a assumir um risco: acabar por não chegar onde se queria chegar e ser obrigado a voltar atrás.

Daí a necessidade de ponderar, isto é, de avaliar a cada instante se as decisões que foram tomadas nos instantes imediatamente anteriores estão a surtir os efeitos desejados ou não.

Quantas noites passadas em claro a ponderar, depois de dias inteiros a ponderar, e assim sucessivamente até começarmos a ficar preocupados com a nossa saúde mental...

[continua]

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Das vistas panorâmicas



Não me considerando, nem de perto nem de longe, um especialista em Durkheim, pergunto-me, às vezes, se ao fim de tantas e tantas leituras não deveria ter uma espécie de vista panorâmica sobre a sua obra, que me permitisse falar dele de um modo muito genérico e vago, do tipo, «Durkheim é isto e a sua obra é assado», estão a ver o jeito que me dava?, escaparia incólume aos interrogatórios de terceiros e passaria a imagem de alguém que parece saber do que está a falar, no entanto, é justamente por crer saber do que estou a falar que creio saber que tudo isto não passa de uma fantasia, sempre desconfiei de fulana e sicrano que falam nesse tom senhorial sobre autores e obras, como se fosse a mesma coisa falar de Durkheim e falar da novela das vinte e uma e trinta, como se Durkheim fosse um colega de carteira de quem se conhecem todos os segredos sem ser preciso perguntar o que quer que seja, ah!, mas que grande ilusão!, em bom rigor, e se querem que vos diga, a coisa parece funcionar ao contrário, quanto mais investigamos mais fica por investigar, é certo que existe sempre alguma progressão, mas o caminho que existe para explorar também aumenta, o risco é evidente, acabar por não chegar a lado nenhum, ficar a meio, algures, a arfar de cansaço, sem vontade de continuar, o que fazer nesse instante?, olhar para cima?, olhar para baixo?, desistir?, tarde demais para desistir, seria um desperdício, assim como também seria um desperdício não querer apreciar a paisagem do nível de altitude a que se chegou, por isso, façam o favor de se sentarem e de tirarem uma fotografia, o facto de não se assemelhar a um postal é a melhor prova da sua autenticidade, a melhor prova que é vossa, que é única, e que poderão falar dela com a sensatez de quem sempre soube que o mundo não cabe numa fotografia, mesmo que ela pareça ter sido tirada no miradouro mais alto de todos, aquele que não existe.