domingo, 30 de agosto de 2009
Desigualdades de Bolonha: concursos públicos dão mau exemplo (conclusão)
Infelizmente, nesta matéria, o Estado Português não tem dado o exemplo que devia dar: @s licenciad@s e mestres que se formaram antes da aplicação do Processo de Bolonha estão a ser discriminad@s em muitos concursos públicos (e tudo por causa de uns quantos decretos-lei que já deviam ter sido alterados há muito tempo...).
Soube-o ontem, ao tomar conhecimento desta petição que, entretanto, já terá sido discutida na Assembleia da República (se alguém conseguir perceber o que diz o relatório final da comissão de educação e ciência, que avise, pois eu não consegui entender nada).
Não sei se fará muita diferença assinar agora, mas convido-vos a fazê-lo na mesma.
A injustiça é enorme, e nós, neste blog, bem o sabemos: a haver diferenciação entre licenciad@s pré-Bolonha e mestres de Bolonha, esta nunca poderia ser feita a favor dest@s últim@s, mas sim d@s primeir@s!
Basta lembrar que el@s fizeram teses de 100 e 150 páginas com um grau de exigência muito superior às dissertações de mestrado que nos pedem agora, e que não podem, em caso algum, ultrapassar as 40 páginas...
Não sei se fará muita diferença assinar agora, mas convido-vos a fazê-lo na mesma.
A injustiça é enorme, e nós, neste blog, bem o sabemos: a haver diferenciação entre licenciad@s pré-Bolonha e mestres de Bolonha, esta nunca poderia ser feita a favor dest@s últim@s, mas sim d@s primeir@s!
Basta lembrar que el@s fizeram teses de 100 e 150 páginas com um grau de exigência muito superior às dissertações de mestrado que nos pedem agora, e que não podem, em caso algum, ultrapassar as 40 páginas...
Desigualdades de Bolonha: concursos públicos dão mau exemplo
Lembram-se de se discutir, naquelas sessões de esclarecimento que foram realizadas ainda no antigo ISCTE, que valor teria um diploma de licenciatura pré-Bolonha após a implementação do Processo de Bolonha?
Ninguém podia adivinhar o que iria acontecer, mas a pergunta já antecipava uma possibilidade: diplomad@s pré-Bolonha poderiam ficar em desvantagem relativamente a diplomad@s de Bolonha com o mesmo número de anos de formação superior.
O receio baseava-se, antes de mais, numa questão de terminologia, pois o mesmo termo («licenciatura») seria doravante aplicado tanto para aquel@s que tinham feito 5 anos no anterior modelo, como para aquel@s que estavam agora a concluir um ciclo de estudos de apenas 3 anos.
Como é que o mercado de trabalho iria reagir a esta profusão de diplomas, onde as mesmas designações correspondem a percursos de formação radicalmente distintos?
Teriam @s licenciad@s pré-Bolonha acesso aos mesmos concursos d@s mestres de Bolonha?
Ou ser-lhes-ia exigido que fizessem formação-extra para obter essa equivalência?
[continua]
Ninguém podia adivinhar o que iria acontecer, mas a pergunta já antecipava uma possibilidade: diplomad@s pré-Bolonha poderiam ficar em desvantagem relativamente a diplomad@s de Bolonha com o mesmo número de anos de formação superior.
O receio baseava-se, antes de mais, numa questão de terminologia, pois o mesmo termo («licenciatura») seria doravante aplicado tanto para aquel@s que tinham feito 5 anos no anterior modelo, como para aquel@s que estavam agora a concluir um ciclo de estudos de apenas 3 anos.
Como é que o mercado de trabalho iria reagir a esta profusão de diplomas, onde as mesmas designações correspondem a percursos de formação radicalmente distintos?
Teriam @s licenciad@s pré-Bolonha acesso aos mesmos concursos d@s mestres de Bolonha?
Ou ser-lhes-ia exigido que fizessem formação-extra para obter essa equivalência?
[continua]
sábado, 29 de agosto de 2009
O difícil é mantê-los abertos
É impressão minha ou está cada vez mais difícil manter um livro aberto nos tempos que correm?
Reparem que eu digo «manter» em vez de «abrir» ou «fechar» (duas acções que ainda conseguimos realizar sem investir muito esforço).
E não, não creio que seja uma desculpa esfarrapada para a falta de vontade (embora nem todas as leituras possam concorrer de igual para igual com um bom filme, um bom jogo de futebol ou uma boa companhia).
Mas de que vale ter imensa vontade se depois somos forçados a lutar com o dito cujo para o manter aberto?
Confesso que tenho tentado de tudo: telemóvel, pisa-papéis, canetas, lápis, borracha e, como não podia deixar de ser, outros livros (aqueles que se prestam ao papel ingrato de compensar os mais irreverentes).
Os resultados é que não são grande coisa: com objectos por todo o lado ninguém consegue ler o que quer que se seja (e muito menos sublinhar).
Para além de que, logo à primeira distracção (tipo coçar o sobrolho), lá vai o trabalho todo por água abaixo.
Não se arranja por aí um kit de leitura mãos livres?
Começa a ser complicado aguentar o temperamento de alguns títulos aqui da minha biblioteca pessoal, que insistem em regressar à birra do costume, mesmo depois de sucessivos tratamentos de choque...
Reparem que eu digo «manter» em vez de «abrir» ou «fechar» (duas acções que ainda conseguimos realizar sem investir muito esforço).
E não, não creio que seja uma desculpa esfarrapada para a falta de vontade (embora nem todas as leituras possam concorrer de igual para igual com um bom filme, um bom jogo de futebol ou uma boa companhia).
Mas de que vale ter imensa vontade se depois somos forçados a lutar com o dito cujo para o manter aberto?
Confesso que tenho tentado de tudo: telemóvel, pisa-papéis, canetas, lápis, borracha e, como não podia deixar de ser, outros livros (aqueles que se prestam ao papel ingrato de compensar os mais irreverentes).
Os resultados é que não são grande coisa: com objectos por todo o lado ninguém consegue ler o que quer que se seja (e muito menos sublinhar).
Para além de que, logo à primeira distracção (tipo coçar o sobrolho), lá vai o trabalho todo por água abaixo.
Não se arranja por aí um kit de leitura mãos livres?
Começa a ser complicado aguentar o temperamento de alguns títulos aqui da minha biblioteca pessoal, que insistem em regressar à birra do costume, mesmo depois de sucessivos tratamentos de choque...
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Che: O ideólogo coerente II
Se partirmos do princípio que o valor de algo é tanto maior quanto maior for a sua raridade, podemos entender o valor simbólico de Che Guevara como algo que resulta de interpretações sobre a sua dimensão ideológica, mais concretamente, interpretações que atribuem raridade a essa mesma dimensão.
Esta lógica de ideias remeteu-me para a seguinte questão:
Se o Che é idolatrado pela raridade da sua solidez ideológica, isso quererá dizer que a não mobilização de paixões pela maioria das actuais lideranças políticas é consequência de um esvaziamento ideológico?
Esta lógica de ideias remeteu-me para a seguinte questão:
Se o Che é idolatrado pela raridade da sua solidez ideológica, isso quererá dizer que a não mobilização de paixões pela maioria das actuais lideranças políticas é consequência de um esvaziamento ideológico?
Che: O ideólogo coerente
Acabei finalmente de ler o 1ºlivro das Obras de Che Guevara. Nos últimos dias mergulhei seriamente nos escritos dessa figura incontornável da História do sec. XX. Devo confessar que foi um exercício deveras estimulante, ler Che, El Comandante, - uma figura inevitavelmente apaixonante – numa perspectiva desapaixonada. Desapaixonada porque tentei não deixar que noções do “certo” e “errado”, do “bom” e “mau” corrompessem a minha leitura. Assim, pude olhar, não para a lenda, não para o mito, não para as estampagens nas T-shirts das modas revolucionárias, mas sim para o homem cuja motivação e a coerência ideológica foram suficientes para a atribuição de um lugar permanente na história humana. A construção desse olhar arrastou-me, em ondas embriagantemente estimulantes, para a reflexão sobre as expressões ideológicas nos fazeres da política contemporânea.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Não há para aí algum terapeuta na arte de salvar casamentos? (3)

Felizmente, existem soluções:
PROFESSOR SABE SABE [não confundir com o Professor SADO, cujo panfleto é uma imitação barata deste].
Os problemas que os outros astrólogos [i.e. @s orientador@s] não podem resolver o Professor SABE SABE pode [vê-se logo pelo nome, não é?].
O Mestre SABE SABE é um grande cientista e poderoso [i.e. nem o RPP lhe faz frente].
Problemas que os outros não conseguem resolver, o Professor SABE SABE consegue resolver o mais rápido possível [i.e. tão rápido que você nem vai dar conta que o problema foi resolvido].
Especialista em todos os trabalhos ocultos [ex: teses problemáticas], conhecido por grandes personalidades no mundo inteiro [i.e. citado nas mais relevantes publicações internacionais de «terapia conjugal»].
O Professor SABE SABE é um astrólogo experiente [i.e. já ajudou a reconciliar muitos «casais»], e aconselha rapidamente sobre todos os problemas, mesmo os mais difíceis e desesperados tais como: Amor, Negócios, Família, Drogas, Emprego, Sorte, Inveja, etc... [i.e. tudo aquilo que uma pessoa deixa de ser/ter/fazer quando se entrega a uma dissertação de mestrado].
Facilidades de pagamento [i.e. pode-se pagar em quatro prestações de 500+1,5+8+15,5+2,75 € como na nova edição do mestrado de sociologia], resultados rápidos máximo 7 dias [é aproveitar enquanto dura!].
PAGAMENTO APÓS O RESULTADO [embora ajude se o cliente pagar uma mensalidade para «ajudas de custo», nomeadamente a comissão que o Presidente Reto exige ao Professor SABE SABE].
Consultas quartas, quintas e sextas das 19h às 23h30.
[nos outros dias da semana, o gabinete do Professor SABE SABE é utilizado pela empresa de «serviços académicos» CASH & THESIS]
É favor dirigir-se ao piso - 7 do ISCTE-IUL e perguntar pelo senhor da bola de cristal.
PROFESSOR SABE SABE [não confundir com o Professor SADO, cujo panfleto é uma imitação barata deste].
Os problemas que os outros astrólogos [i.e. @s orientador@s] não podem resolver o Professor SABE SABE pode [vê-se logo pelo nome, não é?].
O Mestre SABE SABE é um grande cientista e poderoso [i.e. nem o RPP lhe faz frente].
Problemas que os outros não conseguem resolver, o Professor SABE SABE consegue resolver o mais rápido possível [i.e. tão rápido que você nem vai dar conta que o problema foi resolvido].
Especialista em todos os trabalhos ocultos [ex: teses problemáticas], conhecido por grandes personalidades no mundo inteiro [i.e. citado nas mais relevantes publicações internacionais de «terapia conjugal»].
O Professor SABE SABE é um astrólogo experiente [i.e. já ajudou a reconciliar muitos «casais»], e aconselha rapidamente sobre todos os problemas, mesmo os mais difíceis e desesperados tais como: Amor, Negócios, Família, Drogas, Emprego, Sorte, Inveja, etc... [i.e. tudo aquilo que uma pessoa deixa de ser/ter/fazer quando se entrega a uma dissertação de mestrado].
Facilidades de pagamento [i.e. pode-se pagar em quatro prestações de 500+1,5+8+15,5+2,75 € como na nova edição do mestrado de sociologia], resultados rápidos máximo 7 dias [é aproveitar enquanto dura!].
PAGAMENTO APÓS O RESULTADO [embora ajude se o cliente pagar uma mensalidade para «ajudas de custo», nomeadamente a comissão que o Presidente Reto exige ao Professor SABE SABE].
Consultas quartas, quintas e sextas das 19h às 23h30.
[nos outros dias da semana, o gabinete do Professor SABE SABE é utilizado pela empresa de «serviços académicos» CASH & THESIS]
É favor dirigir-se ao piso - 7 do ISCTE-IUL e perguntar pelo senhor da bola de cristal.
Não há para aí um terapeuta na arte de salvar casamentos? (2)
Não vou desistir da minha tese.
Embora, por vezes, não consiga olhar para ela...sinto que ainda estou apaixonado por ela.
Espero que ela ainda me ame...
Embora, por vezes, não consiga olhar para ela...sinto que ainda estou apaixonado por ela.
Espero que ela ainda me ame...
Não há para aí um terapeuta na arte de salvar casamentos?
A relação com a minha tese já viveu melhores dias.
sábado, 22 de agosto de 2009
Ouvido ontem ao final da tarde no pátio interior do Café Royale (por acaso fui eu que o disse)
«Pode ser que acabe a tese daqui a uns meses».
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Em Quarentena
Peço imensa desculpa a todos aqueles que gostam de ler os meus posts...ou seja, a 4 ou 5 gatos pingados (eu incluído)...pela minha prolongada ausência da inquietação do principiante.
Mas tudo tem uma explicação: e, neste caso, a explicação é o estado compulsivo de hibernação em que me encontro. Os médicos aconselharam-me a não sair de casa, disseram mesmo que este estado intratável em que me encontro coloca a gripe A a um canto. Um dispendioso estudo científico (eu tenho direito a desconto devido à ADSE e ao seguro Advance Care, portanto, é na boa) tenta identificar as causas deste estado de hibernação social e intelectual que me assombra:
Correm rumores de que o nome do vírus é algo muito esquisito: tese de mestrado. Os sintomas são os seguintes:
- dores de cabeça constantes;
- dificuldade em adormecer;
- como se não bastasse a dificuldade em adormecer, o doente ainda tem pesadelos com a causa da doença;
- ler parágrafos e capítulos do vírus tese de mestrado compulsivamente;
- ter sempre a mesma reacção após leitura compulsiva do vírus tese de mestrado: «isto está uma treta ... tou tramado»;
- reescrever compulsivamente parágrafos do vírus;
- ter sempre a mesma reacção após reescrever, compulsivamente, parágrafos do vírus: «isto continua uma treta ... continuo tramado».
Não quero assustar ninguém, mas este vírus é contagioso. Dizem que basta ler algo escrito por um portador do vírus, para que o contágio se propague.
Mas tudo tem uma explicação: e, neste caso, a explicação é o estado compulsivo de hibernação em que me encontro. Os médicos aconselharam-me a não sair de casa, disseram mesmo que este estado intratável em que me encontro coloca a gripe A a um canto. Um dispendioso estudo científico (eu tenho direito a desconto devido à ADSE e ao seguro Advance Care, portanto, é na boa) tenta identificar as causas deste estado de hibernação social e intelectual que me assombra:
Correm rumores de que o nome do vírus é algo muito esquisito: tese de mestrado. Os sintomas são os seguintes:
- dores de cabeça constantes;
- dificuldade em adormecer;
- como se não bastasse a dificuldade em adormecer, o doente ainda tem pesadelos com a causa da doença;
- ler parágrafos e capítulos do vírus tese de mestrado compulsivamente;
- ter sempre a mesma reacção após leitura compulsiva do vírus tese de mestrado: «isto está uma treta ... tou tramado»;
- reescrever compulsivamente parágrafos do vírus;
- ter sempre a mesma reacção após reescrever, compulsivamente, parágrafos do vírus: «isto continua uma treta ... continuo tramado».
Não quero assustar ninguém, mas este vírus é contagioso. Dizem que basta ler algo escrito por um portador do vírus, para que o contágio se propague.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
O estatuto dos comentadores e o desejo de originalidade (conclusão)
Entre outras razões, porque esta hipótese de Robert Alun Jones tem por trás de si muitos e muitos anos de investigação sobre Durkheim, o seu tempo e as suas influências.
Não é razoável pedir a um@ principiante que faça um trabalho deste nível (bem vistas as coisas, também não estou a ver muitas pessoas no nosso país que tenham condições institucionais para o fazer, mas isso levar-nos-ia para outra discussão...).
Contudo, é perfeitamente razoável que ele se deixe influenciar.
Encontrando em comentadores deste calibre a inspiração necessária para fazer a sua própria tese.
Será que a originalidade não é mais do que uma divergência criativa daqueles e daquelas a quem vamos buscar ideias?
(a propósito: não sei onde fui buscar a expressão «divergência criativa», mas sei que não é minha)
Falsa questão: se o diálogo com os comentadores for intelectualmente estimulante e enriquecedor, quem se importa de não inventar nada de novo?
É nestas alturas que me lembro de Tarde e me convenço de que ele tinha mesmo razão quando dizia que «as invenções são sempre sínteses de outras invenções».
E que nós, bem vistas as coisas, somos tod@s irmãos e irmãs de ideias, umas mais originais do que outras (se ainda quisermos ver o mundo desse ponto de vista), mas sempre ideias.
Longa vida a essa tertúlia espiritual, a esse «comunismo primitivo», que une Homens e Mulheres de todos os tempos e de todos os lugares, que nos faz acreditar numa ideia de humanidade em que cabem tod@s (clássicos, comentadores e principiantes).
Sem que nenhum@ se sinta mais cópia (ou mais modelo) do que @s outr@s.
Não é razoável pedir a um@ principiante que faça um trabalho deste nível (bem vistas as coisas, também não estou a ver muitas pessoas no nosso país que tenham condições institucionais para o fazer, mas isso levar-nos-ia para outra discussão...).
Contudo, é perfeitamente razoável que ele se deixe influenciar.
Encontrando em comentadores deste calibre a inspiração necessária para fazer a sua própria tese.
Será que a originalidade não é mais do que uma divergência criativa daqueles e daquelas a quem vamos buscar ideias?
(a propósito: não sei onde fui buscar a expressão «divergência criativa», mas sei que não é minha)
Falsa questão: se o diálogo com os comentadores for intelectualmente estimulante e enriquecedor, quem se importa de não inventar nada de novo?
É nestas alturas que me lembro de Tarde e me convenço de que ele tinha mesmo razão quando dizia que «as invenções são sempre sínteses de outras invenções».
E que nós, bem vistas as coisas, somos tod@s irmãos e irmãs de ideias, umas mais originais do que outras (se ainda quisermos ver o mundo desse ponto de vista), mas sempre ideias.
Longa vida a essa tertúlia espiritual, a esse «comunismo primitivo», que une Homens e Mulheres de todos os tempos e de todos os lugares, que nos faz acreditar numa ideia de humanidade em que cabem tod@s (clássicos, comentadores e principiantes).
Sem que nenhum@ se sinta mais cópia (ou mais modelo) do que @s outr@s.
O estatuto dos comentadores e o desejo de originalidade (4)
Até ao dia em que dou de caras com estas palavras (vale a pena ler com atenção):
As dúvidas que quase tod@s tivemos quando ouvimos falar pela primeira vez da necessidade de «tratar os factos sociais como coisas», encontram aqui uma hipótese que desafia a imagem que nos transmitiram de Durkheim: «tratar os factos sociais como coisas» não é apenas uma regra «metodológica», mas também (principalmente?) um projecto «moral» e «político».
E que projecto era esse?
Segundo Robert Alun Jones, tratava-se da «construção metafórica de um novo vocabulário moral para a Terceira República Francesa».
Ena...
...como é que eu não me lembrei disto antes?
[continua]
For Durkheim, this was why social phenomena should be understood comme des choses, as real, concrete things, subject to the laws of nature, resistant to human will, and discoverable by scientific reason through their properties of externality and constraint. Sociologists, of course, describe this as a methodological injunction, one that has become a standard part of most introductory sociology textbooks. The point of my argument, however, will be that Durkheim's interests and purposes were at least as much moral and political - i.e., to construct a normative vocabulary, a new way of speaking about duties, obligations, and ideals that would take the place of the Cartesian idiom. Like Plato, therefore, Durkheim was pointing to a general state of crisis in the moral language of his culture, and attempting to replace it with metaphors more adequate to the needs of his time.[Robert Alun Jones, The Development of Durkheim's Social Realism, 1999, p. 5]
As dúvidas que quase tod@s tivemos quando ouvimos falar pela primeira vez da necessidade de «tratar os factos sociais como coisas», encontram aqui uma hipótese que desafia a imagem que nos transmitiram de Durkheim: «tratar os factos sociais como coisas» não é apenas uma regra «metodológica», mas também (principalmente?) um projecto «moral» e «político».
E que projecto era esse?
Segundo Robert Alun Jones, tratava-se da «construção metafórica de um novo vocabulário moral para a Terceira República Francesa».
Ena...
...como é que eu não me lembrei disto antes?
[continua]
domingo, 16 de agosto de 2009
«Universidade quer vénias em vez de beijos»
Não existe uma proibição mas a recomendação vai ser feita. A partir de Setembro, nas várias faculdades da Universidade de Lisboa (UL), alunos, professores e funcionários devem substituir os habituais abraços, beijinhos e apertos de mão por um sorriso ou uma vénia. "Eu próprio vou ter de alterar os meus hábitos. Todos temos de fazer um esforço nesse sentido", apela Vasconcelos Tavares, vice-reitor da UL e coordenador do plano de contingência para a gripe A, que será apresentado segunda-feira.[Expresso, 15 de Agosto de 2009, Primeiro Caderno, pág. 17]
Depois das «folhas de presença», das «capas anti-plágio» e das «sessões de apoio à elaboração da tese», agora querem controlar a forma como nos cumprimentamos!?
Já estou mesmo a ver: em Setembro muit@s professor@s terão uma boa desculpa para não fazer atendimento a alun@s.
Ou então vão passar a fazê-lo em cabines de peep show (o que, bem vistas as coisas, até é melhor para gerir o tempo de serviço e cobrar uns honorários extra...).
Logo agora que me apetecia tanto abraçar, beijar e apertar a mão a tanta gente!
Será que vão colocar uns cartazes nos corredores do tipo «não-fumadores»?
Será que vão reservar áreas específicas para aquel@s que desejarem abraçar, beijar e apertar a mão?
Será que vão cobrar multas a quem não respeitar as regras?
Tudo é possível.
Mas, apesar de tudo, cheira-me que no ISCTE-IUL não teremos muitos problemas em adaptarmo-nos à nova política: há muito tempo que os sorrisos (amarelos) são norma entre alun@s e professor@s...
...e as vénias (nas raras vezes em que são feitas) mais parecem manguitos disfarçados!
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
(in)citações: Che Guevara e o desejo de originalidade
Para Che Guevara o desejo de originalidade é condição essencial:
"(...) a juventude tem de criar. Uma Juventude que não cria é, realmente, uma anomalia."
in Obras de Che Guevara, (1975), Ulmeiro, pp.51
Assim, a academia tem sido um terreno, cada vez mais, fértil à promoção de anomalias
"(...) a juventude tem de criar. Uma Juventude que não cria é, realmente, uma anomalia."
in Obras de Che Guevara, (1975), Ulmeiro, pp.51
Assim, a academia tem sido um terreno, cada vez mais, fértil à promoção de anomalias
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Plano de contingência do blog «a inquietação do principiante» para a GRIPE A (é desta que nos metem um processo disciplinar em cima)
Em caso de sintomas condizentes com a infecção pelo vírus H1N1, é favor dirigir-se ao ISCTE-IUL e aí permanecer o máximo de tempo possível (sem máscara) entre o corredor da reitoria e os serviços académicos.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
O estatuto dos comentadores e o desejo de originalidade (3)
Entretanto, ao ler Durkheim, dei por mim a refazer a estrutura da tese.
Afinal, já não era assim tão importante confrontar Durkheim e Tarde para chegar aonde eu queria chegar.
A obra de Durkheim continha mais possibilidades interpretativas do que eu imaginava, antes de pegar, pela primeira vez, em Les Formes Élémentaires de La Vie Sociale (1912).
Para além disso, comecei a acreditar que dificilmente superaria o encantamento pelo Tarde heterodoxo: um personagem que tinha tanto de atraente como de misterioso, obscuro e inatingível...
(ver, entre outros posts, «Tarde e a arte de escrever prefácios»)
Como a minha tese já não era a mesma (i.e. aquela que eu tinha encontrado num livro de Eduardo Viana Vargas), a crise de angústia deixou automaticamente de fazer sentido.
Retomei assim a confiança de que seria capaz de fazer qualquer coisa original.
Ainda mais encerrado em Durkheim.
Cada vez menos aberto a ouvir os comentadores que assobiavam um pouco por todo o lado.
Até ao dia em que...
[continua]
Afinal, já não era assim tão importante confrontar Durkheim e Tarde para chegar aonde eu queria chegar.
A obra de Durkheim continha mais possibilidades interpretativas do que eu imaginava, antes de pegar, pela primeira vez, em Les Formes Élémentaires de La Vie Sociale (1912).
Para além disso, comecei a acreditar que dificilmente superaria o encantamento pelo Tarde heterodoxo: um personagem que tinha tanto de atraente como de misterioso, obscuro e inatingível...
(ver, entre outros posts, «Tarde e a arte de escrever prefácios»)
Como a minha tese já não era a mesma (i.e. aquela que eu tinha encontrado num livro de Eduardo Viana Vargas), a crise de angústia deixou automaticamente de fazer sentido.
Retomei assim a confiança de que seria capaz de fazer qualquer coisa original.
Ainda mais encerrado em Durkheim.
Cada vez menos aberto a ouvir os comentadores que assobiavam um pouco por todo o lado.
Até ao dia em que...
[continua]
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
O estatuto dos comentadores e o desejo de originalidade (2)
Como ser original num domínio de conhecimento que já foi explorado milhares e milhares de vezes por outras pessoas?
Estando a fazer uma tese sobre Émile Durkheim, tenho-me confrontado insistentemente com esta questão.
Desde o dia em que comecei a trabalhar em exclusivo na tese, já atravessei várias crises de angústia.
Inicialmente, optei por delimitar ao máximo o universo de comentadores com os quais entraria em diálogo (a minha prioridade era conhecer a obra de Durkheim).
«Escolho dois ou três, leio-os e dou-me por satisfeito» - disse a mim próprio, tentando convencer-me que seria a melhor opção.
Foi o que fiz.
No entanto, tal como receava, logo surgiu a primeira crise de angústia: a tese que eu aspirava escrever já tinha sido escrita (há mais de 15 anos) por um antropólogo brasileiro!
Ainda por cima uma obra em português!
Lá se ia a fantasia (um bocado parva, confesso) de inaugurar qualquer coisa no campo das ciências sociais de língua portuguesa...
[continua]
Estando a fazer uma tese sobre Émile Durkheim, tenho-me confrontado insistentemente com esta questão.
Desde o dia em que comecei a trabalhar em exclusivo na tese, já atravessei várias crises de angústia.
Inicialmente, optei por delimitar ao máximo o universo de comentadores com os quais entraria em diálogo (a minha prioridade era conhecer a obra de Durkheim).
«Escolho dois ou três, leio-os e dou-me por satisfeito» - disse a mim próprio, tentando convencer-me que seria a melhor opção.
Foi o que fiz.
No entanto, tal como receava, logo surgiu a primeira crise de angústia: a tese que eu aspirava escrever já tinha sido escrita (há mais de 15 anos) por um antropólogo brasileiro!
Ainda por cima uma obra em português!
Lá se ia a fantasia (um bocado parva, confesso) de inaugurar qualquer coisa no campo das ciências sociais de língua portuguesa...
[continua]
sábado, 8 de agosto de 2009
O estatuto dos comentadores e o desejo de originalidade
Não há forma de escapar aos «comentadores».Mais tarde ou mais cedo, acabamos sempre por encontrá-los (ou será que são eles que vêm ter connosco?).
A questão é saber como lidar com essa inevitabilidade.
Vejamos duas atitudes diametralmente opostas:
1) O assustadiço-paranóico-orgulhoso: foge de cada vez que avista um comentador no seu caminho; como eles estão por todo o lado, a fuga é absolutamente inconsequente; torna-se paranóico; acaba por não avançar nada no seu trabalho porque lhe faltam interlocutores para desenvolver e testar ideias; sobra-lhe o orgulho de não se deixar influenciar por terceiros...mesmo que isso implique continuar parado.
2) O vai-com-todos-menos-com-a-ressaca: quando avista um comentador, vai logo a correr ter com ele; ao fim de um certo tempo, aparece a malta conhecida desse comentador (i.e. outros comentadores); como gostam todos de conversar sobre o mesmo assunto, a tertúlia prolonga-se indefinidamente; acaba por avançar muito no seu trabalho porque tem imensas ideias...mas fica lixado quando percebe que elas não lhe pertencem.Se é pouco provável que alguém conheça um assustadiço-paranóico-orgulhoso ou um vai-com-todos-menos-com-a-ressaca, já a tensão que os aflige é bastante comum entre muitos e muitas de nós.
Podemos traduzi-la na forma interrogativa: como ser original num domínio de conhecimento que já foi explorado milhares e milhares de vezes por outras pessoas?
[continua]
sábado, 1 de agosto de 2009
Sobre o artigo do Expresso: «Teses à venda na Net por 1500 euros» (conclusão)
No entanto, o comentário de Jorge Ramos do Ó que aparece destacado na página 15 é ainda mais certeiro: «[O recurso à fraude] é o resultado de uma cultura de pouca exigência enraizada em Portugal, em que não se valoriza o processo de aprendizagem, mas apenas a obtenção do diploma».
Sem dúvida, senhor professor!
A fraude só pode constituir uma opção válida na cabeça de um@ alun@ quando el@ sente que não está a perder nada de especial em delegar o trabalho a terceiros.
E por que é que el@ sente que não está a perder nada de especial?
Porque as instituições de ensino superior, pressionadas pelo estrangulamento orçamental e pelas demandas empresariais, estão a esvaziar os currículos de tudo aquilo que era intelectualmente estimulante e exigente em nome da «profissionalização».
Os cursos deixam de cativar enquanto cursos.
A única gratificação possível é o diploma.
Pode alguém ser exigente consigo mesmo quando à sua volta todos (Estado, Universidades, Docentes, etc.) se demitem das suas responsabilidades?
É pena que a jornalista do Expresso não tenha explorado estas questões...teria sido um artigo bem melhor!
Sem dúvida, senhor professor!
A fraude só pode constituir uma opção válida na cabeça de um@ alun@ quando el@ sente que não está a perder nada de especial em delegar o trabalho a terceiros.
E por que é que el@ sente que não está a perder nada de especial?
Porque as instituições de ensino superior, pressionadas pelo estrangulamento orçamental e pelas demandas empresariais, estão a esvaziar os currículos de tudo aquilo que era intelectualmente estimulante e exigente em nome da «profissionalização».
Os cursos deixam de cativar enquanto cursos.
A única gratificação possível é o diploma.
Pode alguém ser exigente consigo mesmo quando à sua volta todos (Estado, Universidades, Docentes, etc.) se demitem das suas responsabilidades?
É pena que a jornalista do Expresso não tenha explorado estas questões...teria sido um artigo bem melhor!
Sobre o artigo do Expresso: «Teses à venda na Net por 1500 euros» (2)
E o que diz Jorge Ramos do Ó?
Ao contrário daquel@s que se limitam a tratar tod@s @s alun@s como potenciais plagiador@s ou daquel@s que embarcam num discurso reaccionário sobre as diferenças entre o antigamente-é-que-era e o hoje-em-dia-são-todos-uns-malandros-preguiçosos-ignorantes, o professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da UL prefere salientar a importância da relação pedagógica entre orientador@s e alun@s.
Em discurso indirecto, Jorge Ramos do Ó «garante que é difícil haver fraude se os orientadores fizerem um trabalho individualizado com os alunos».
Acrescentando, em discurso directo: «só que muitos professores têm dezenas de orientandos e não têm tempo para fazer a orientação como deve ser».
Pois é: assim como uma tese de mestrado pode ser feita sem grande esforço pessoal (e nem sequer estou a falar de uma «tese comprada»), também pode ser pouco ou mal acompanhada por um @ orientador@...
[continua]
Em discurso indirecto, Jorge Ramos do Ó «garante que é difícil haver fraude se os orientadores fizerem um trabalho individualizado com os alunos».
Acrescentando, em discurso directo: «só que muitos professores têm dezenas de orientandos e não têm tempo para fazer a orientação como deve ser».
Pois é: assim como uma tese de mestrado pode ser feita sem grande esforço pessoal (e nem sequer estou a falar de uma «tese comprada»), também pode ser pouco ou mal acompanhada por um @ orientador@...
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Sobre o artigo do Expresso: «Teses à venda na Net por 1500 euros»
A edição de hoje do jornal Expresso traz um artigo sobre o negócio de compra e venda de teses de mestrado («Teses à venda na Net por 1500 euros», Primeiro Caderno, p. 14-15).
Ao longo de três ou quatro caixas de texto (e uma imagem deveras sugestiva), são-nos apresentados diversos testemunhos: não só de quem presta este tipo de serviços e de quem paga para ter a papinha toda feita, mas também de quem defende que «as instituições devem apostar na prevenção e apertar as regras», de quem garante que «do ponto de vista legal não há nenhuma norma que possa ser aplicada», de quem reconheceu «páginas inteiras» do seu trabalho numa defesa de tese (sim, o artigo também fala de plágio), de quem confessa «passar horas na internet» a tentar descobrir as fontes não-explícitas dos trabalhos académicos e de quem investiu milhares de euros em «software específico para apanhar estudantes que copiam».
Infelizmente, pouco ou nada é dito sobre as razões que levam alguém a recorrer a estes serviços ou a vender a sua mão-de-obra.
Duas profissionais falam das «dificuldades em encontrar emprego», depois de elas próprias se terem licenciado (mas será que isso basta para explicar uma opção deste tipo?).
Um aluno «confessa ter pago por um trabalho» porque a cadeira do último ano do curso «ameaçava ficar pendurada», quando o professor pediu um trabalho de grupo em que ele e os colegas não estavam «nada à vontade» (mas será que era só pressa de acabar o curso?).
Entre todos os lugares-comuns que nos habituámos a ouvir sobre estes assuntos (e que a jornalista do Expresso, com a preciosa ajuda dos seus entrevistados, se limitou a reproduzir no artigo que escreveu), salva-se a opinião do professor Jorge Ramos do Ó.
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Ao longo de três ou quatro caixas de texto (e uma imagem deveras sugestiva), são-nos apresentados diversos testemunhos: não só de quem presta este tipo de serviços e de quem paga para ter a papinha toda feita, mas também de quem defende que «as instituições devem apostar na prevenção e apertar as regras», de quem garante que «do ponto de vista legal não há nenhuma norma que possa ser aplicada», de quem reconheceu «páginas inteiras» do seu trabalho numa defesa de tese (sim, o artigo também fala de plágio), de quem confessa «passar horas na internet» a tentar descobrir as fontes não-explícitas dos trabalhos académicos e de quem investiu milhares de euros em «software específico para apanhar estudantes que copiam».
Infelizmente, pouco ou nada é dito sobre as razões que levam alguém a recorrer a estes serviços ou a vender a sua mão-de-obra.
Duas profissionais falam das «dificuldades em encontrar emprego», depois de elas próprias se terem licenciado (mas será que isso basta para explicar uma opção deste tipo?).
Um aluno «confessa ter pago por um trabalho» porque a cadeira do último ano do curso «ameaçava ficar pendurada», quando o professor pediu um trabalho de grupo em que ele e os colegas não estavam «nada à vontade» (mas será que era só pressa de acabar o curso?).
Entre todos os lugares-comuns que nos habituámos a ouvir sobre estes assuntos (e que a jornalista do Expresso, com a preciosa ajuda dos seus entrevistados, se limitou a reproduzir no artigo que escreveu), salva-se a opinião do professor Jorge Ramos do Ó.
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«Efectivo cumprimento da Lei» não significa «limitação das propinas de mestrado» em todas as áreas disciplinares do ensino superior português
Graças a um post de Miguel Vale de Almeida, descubro que, em caso de vitória eleitoral, o Governo do PS irá zelar pelo «efectivo cumprimento da Lei na limitação das propinas de mestrado»:
Boas notícias para tod@s aquel@s que pretendem frequentar um curso de 2º ciclo no ensino superior português?
Depende.
Isto porque o nº 2 do artº 27 do decreto-lei nº 74/2006 não se aplica a todos os mestrados, mas apenas aos mestrados cuja «conjugação com um ciclo de estudos conducente ao grau de licenciado seja indispensável para o acesso ao exercício de uma actividade profissional».
Por exemplo, como o desempenho da «profissão sociólogo» não exige um diploma de mestrado, os ciclos de estudos conducentes à obtenção de grau de mestre em sociologia não se encontram abrangidos pelo supracitado decreto-lei.
Enquanto não houver vontade política em alargar o âmbito de aplicação da Lei, @s estudantes não terão outra hipótese senão confiar no bom senso (i.e. numa interpretação flexível do âmbito de aplicação da actual Lei) d@s responsáveis de cada instituição de ensino superior para que as propinas dos mestrados não disparem para «valores de mercado».
Infelizmente, no caso do ISCTE-IUL que Miguel Vale de Almeida tão bem conhece, já foram lançados os primeiros sinais nesse sentido...
O Governo do PS garantirá o efectivo cumprimento da Lei na limitação das propinas de mestrado, à luz da generalização progressiva do grau de mestre para ingresso ou progressão em certas profissões, e harmonizará as propinas de doutoramento com os valores efectivamente pagos pela Fundação de Ciência e Tecnologia, em articulação com as instituições de ensino superior. Não será alterada a fixação dos valores das propinas de licenciatura, que não sofrerão quaisquer aumentos, em termos reais.[Programa de Governo do Partido Socialista 2009/2013, p. 52, negrito no original]
Boas notícias para tod@s aquel@s que pretendem frequentar um curso de 2º ciclo no ensino superior português?
Depende.
Isto porque o nº 2 do artº 27 do decreto-lei nº 74/2006 não se aplica a todos os mestrados, mas apenas aos mestrados cuja «conjugação com um ciclo de estudos conducente ao grau de licenciado seja indispensável para o acesso ao exercício de uma actividade profissional».
Por exemplo, como o desempenho da «profissão sociólogo» não exige um diploma de mestrado, os ciclos de estudos conducentes à obtenção de grau de mestre em sociologia não se encontram abrangidos pelo supracitado decreto-lei.
Enquanto não houver vontade política em alargar o âmbito de aplicação da Lei, @s estudantes não terão outra hipótese senão confiar no bom senso (i.e. numa interpretação flexível do âmbito de aplicação da actual Lei) d@s responsáveis de cada instituição de ensino superior para que as propinas dos mestrados não disparem para «valores de mercado».
Infelizmente, no caso do ISCTE-IUL que Miguel Vale de Almeida tão bem conhece, já foram lançados os primeiros sinais nesse sentido...
Para aqueles que sempre quiseram saber qual é a diferença entre uma «tese teórica» e uma «tese prática» (e que gostam de aproveitar o sol)
Ao contrário da «tese teórica» (que só existe na nossa cabeça), a «tese prática» tem a extraordinária capacidade de se reflectir nos corpos d@s outr@s banhist@s (e de nunca mais regressar à sua condição original de «tese académica»).
Esta vai já direitinha para o caixote de frases pretenciosas (sim, é verdade, as «teses académicas» também passam por uma «silly season»)
«A história da sociologia é a história de gerações sucessivas de filhos bastardos em busca de uma paternidade imaginária»
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