Serve o presente post o intuito de divulgar que o ISCTE passou a denominar-se "Instituto Universitário de Lisboa ISCTE", sendo que a sigla ISCTE deixou de o ser.
Adeus Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa, e prazer em conhecer-te "Instituto Universitário de Lisboa ISCTE".
A pessoa entra num instituto, sai noutro, apanha 4 anos de licenciatura, que afinal foram reduzidos a três! Uff! A minha passagem por aquela coisa foi bastante atribulada.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
A culpa é da Modernidade
Ocorreu-me partilhar, hoje, uma inquietação que não é recente.
Interesso-me, há muito, pelo debate sociológico sobre a evolução do fenómeno criminal. Durante o meu percurso académico, consultei vários estudos sobre aquele objecto. Essa leitura potenciou-me percepcionar um canonismo conceptual, no debate sobre a evolução da criminalidade. Passo a explicar:
Diz a produção estatística...essa chave para o estatuto científico...que o crime sofreu, nas «sociedades avançadas» um aumento significativo, ao longo das últimas décadas. Não arrisco contrariar aquela tendência evolutiva da criminalidade. Se as estatísticas o dizem...Mas não posso deixar de criticar a leitura canónica, institucionalizada no seio daquele debate. Uma grande quantidade de contributos teóricos apropriam, frequentemente, o rótulo «Efeitos do Processo de Modernização», na explicação daquele aumento.
É inquietante observar o fechamento conceptual que caracteriza os estudos sociológicos sobre a evolução do crime. Presos aos chavões do canonismo sociológico, teme-se, entre esta comunidade científica, ultrapassar as barreiras da sociologia...teme-se entrar no domínio conceptual de outras disciplinas sociais.
A incessante apropriação das teorias da modernidade, no debate sobre a evolução do crime, não se fica por aqui. Na verdade, aquele conceito é dotado de uma volatibilidade impressionante:
- ele, não só, é capaz de explicar o aumento do crime nas «sociedades avançadas», como também, explicar a criminalidade existente nas «sociedades primitivas».
- confusos?...nas «sociedades avançadas», a crescente modernização explica o aumento do crime; nas «sociedades primitivas», a criminalidade é explicada pelo...atraso no processo de modernização daquelas sociedades.
É ciência!
Interesso-me, há muito, pelo debate sociológico sobre a evolução do fenómeno criminal. Durante o meu percurso académico, consultei vários estudos sobre aquele objecto. Essa leitura potenciou-me percepcionar um canonismo conceptual, no debate sobre a evolução da criminalidade. Passo a explicar:
Diz a produção estatística...essa chave para o estatuto científico...que o crime sofreu, nas «sociedades avançadas» um aumento significativo, ao longo das últimas décadas. Não arrisco contrariar aquela tendência evolutiva da criminalidade. Se as estatísticas o dizem...Mas não posso deixar de criticar a leitura canónica, institucionalizada no seio daquele debate. Uma grande quantidade de contributos teóricos apropriam, frequentemente, o rótulo «Efeitos do Processo de Modernização», na explicação daquele aumento.
É inquietante observar o fechamento conceptual que caracteriza os estudos sociológicos sobre a evolução do crime. Presos aos chavões do canonismo sociológico, teme-se, entre esta comunidade científica, ultrapassar as barreiras da sociologia...teme-se entrar no domínio conceptual de outras disciplinas sociais.
A incessante apropriação das teorias da modernidade, no debate sobre a evolução do crime, não se fica por aqui. Na verdade, aquele conceito é dotado de uma volatibilidade impressionante:
- ele, não só, é capaz de explicar o aumento do crime nas «sociedades avançadas», como também, explicar a criminalidade existente nas «sociedades primitivas».
- confusos?...nas «sociedades avançadas», a crescente modernização explica o aumento do crime; nas «sociedades primitivas», a criminalidade é explicada pelo...atraso no processo de modernização daquelas sociedades.
É ciência!
terça-feira, 28 de abril de 2009
Durkheim e os «incrédulos»
Na lição inaugural do curso de ciência social e pedagogia leccionado em Bordéus (1888), Émile Durkheim chega à conclusão que a melhor forma de convencer os detractores da sociologia («quelques penseurs [...] qui doutent de notre science et de son avenir») é «fazer ver que ela existe e que ela vive» («faire voir qu'elle existe et qu'elle vit»):
Se a única forma de demonstrar a sociologia é fazer ver que ela existe e que ela vive, a única forma de fazê-la existir e de fazê-la viver é fazer existir um objecto sui generis e fazê-lo viver no espírito de tod@s aquel@s que escolheram dedicar-se à ciência social.
Nada mais do que o social; nada menos do que o social.
Não interessa que ninguém saiba o que é o social.
Interessa é que tod@s @s praticantes da sociologia o tenham bem presente nas suas cabeças.
Sem este salto de fé (e sem os inúmeros rituais que mantêm acesa a respectiva chama), a «Sociologia Científica» não seria possível.
E o primeiro a reconhecê-lo é o próprio Durkheim, quando afirma que «uma dissertação, mesmo excelente, nunca converteu um único incrédulo» («une dissertation, même excellent, n'a jamais converti un seul incrédule»).
Depois admiramo-nos com o enfraquecimento do debate (eis um bom exemplo do mau exemplo de alguém que foi canonizado como «Pai Fundador» da sociologia): quem trata os seus adversários como «incrédulos» (i.e. pessoas que não partilham da mesma fé) não pode ter muita consideração pelo confronto de ideias...
Cependant je ne puis oublier qu'il y a encore quelques penseurs, peu nombreux à la verité, qui doutent de notre science et de son avenir. On ne peut évidemment en faire abstraction. Mais, pour les convaincre, la meilleure méthode n'est pas, je crois, de disserter d'une manière abstraite sur la question de savoir si la sociologie et viable ou non. Une dissertation, même excellente, n'a jamais converti un seul incrédule. Le seul moyen de prouver le mouvement, c'est de marcher. Le seul moyen de démontrer que la sociologie est possible, c'est de faire voir qu'elle existe et qu'elle vit.[«Cours de science sociale - leçon d'ouverture», 1888, pág. 4]
Se a única forma de demonstrar a sociologia é fazer ver que ela existe e que ela vive, a única forma de fazê-la existir e de fazê-la viver é fazer existir um objecto sui generis e fazê-lo viver no espírito de tod@s aquel@s que escolheram dedicar-se à ciência social.
Nada mais do que o social; nada menos do que o social.
Não interessa que ninguém saiba o que é o social.
Interessa é que tod@s @s praticantes da sociologia o tenham bem presente nas suas cabeças.
Sem este salto de fé (e sem os inúmeros rituais que mantêm acesa a respectiva chama), a «Sociologia Científica» não seria possível.
E o primeiro a reconhecê-lo é o próprio Durkheim, quando afirma que «uma dissertação, mesmo excelente, nunca converteu um único incrédulo» («une dissertation, même excellent, n'a jamais converti un seul incrédule»).
Depois admiramo-nos com o enfraquecimento do debate (eis um bom exemplo do mau exemplo de alguém que foi canonizado como «Pai Fundador» da sociologia): quem trata os seus adversários como «incrédulos» (i.e. pessoas que não partilham da mesma fé) não pode ter muita consideração pelo confronto de ideias...
segunda-feira, 27 de abril de 2009
sábado, 25 de abril de 2009
terça-feira, 21 de abril de 2009
Ainda estou a esfregar os olhos (vejam o programa e pasmem-se como eu)
de 7 de Maio a 11 de Junho de 2009
ISCTE
Auditório B203 (Edifício II)
2ªs e 5ªs das 19h às 20h30
metro: Entrecampos Cidade Universitária
Inscrição necessária, lugares limitados!
Organização:
CRIA - Centro em Rede de Investigação em Antropologia
unipop - www.u-ni-pop.blogspot.com
segunda-feira, 20 de abril de 2009
A apropriação selectiva dos «clássicos» e a construção de um consenso disciplinar (3)
Sendo novo demais para saber como é que se fazia antigamente (e, em particular, como é que se fazia antigamente no instituto), aprendi a desconfiar das críticas ao presente que parecem recolher toda a sua força de idealizações do passado (geralmente, faz-se referência a uma época mais ou menos remota em que as coisas, não sendo perfeitas, eram diferentes para melhor).
Por isso, pergunto: será que a construção (e manutenção) dos consensos disciplinares (quando/onde eles parecem existir ou quando/onde os seus efeitos são suficientemente significativos para se presumir que eles existem) supõe sempre o assentimento de uma maioria silenciosa (i.e. passiva e acrítica)?
Será que os consensos não podem ser obtidos/preservados através de um debate alargado entre pares?
Até que ponto a ideia de consenso não é, ela própria, inimiga do pensamento crítico?
Sendo novo demais para saber como é que se fazia antigamente (e, em particular, como é que se fazia antigamente no instituto), custa-me imaginar uma época em que se tenha feito ainda menos (ao nível dos debates intra-disciplinares) do que hoje.
Não tendo certezas sobre a importância do consenso (só tenho certezas sobre a importância do pensamento crítico), é-me difícil imaginar espaços-tempos em que o papel das maiorias silenciosas tenha sido ainda mais preponderante (ao nível dos debates intra-disciplinares) do que actualmente.
Daí a inquietação: se o presente não é animador e se o passado não parece ter sido muito pior (o que não quer dizer necessariamente que tenha sido muito melhor), o que nos espera o futuro?
Por isso, pergunto: será que a construção (e manutenção) dos consensos disciplinares (quando/onde eles parecem existir ou quando/onde os seus efeitos são suficientemente significativos para se presumir que eles existem) supõe sempre o assentimento de uma maioria silenciosa (i.e. passiva e acrítica)?
Será que os consensos não podem ser obtidos/preservados através de um debate alargado entre pares?
Até que ponto a ideia de consenso não é, ela própria, inimiga do pensamento crítico?
Sendo novo demais para saber como é que se fazia antigamente (e, em particular, como é que se fazia antigamente no instituto), custa-me imaginar uma época em que se tenha feito ainda menos (ao nível dos debates intra-disciplinares) do que hoje.
Não tendo certezas sobre a importância do consenso (só tenho certezas sobre a importância do pensamento crítico), é-me difícil imaginar espaços-tempos em que o papel das maiorias silenciosas tenha sido ainda mais preponderante (ao nível dos debates intra-disciplinares) do que actualmente.
Daí a inquietação: se o presente não é animador e se o passado não parece ter sido muito pior (o que não quer dizer necessariamente que tenha sido muito melhor), o que nos espera o futuro?
Telefonema performativo, performatizado e perfortizante!!!
Em meados do mês de Março recebi no meu telemóvel uma chamada telefónica proveniente do iscte. Quando percebi que não queriam pedir-me o pagamento de propinas em atraso, a entrega da ficha de inscrição na dissertação (chegou hoje por mail: iupi!!! faço parte de uma lista negra do iscte...) fiquei mais tranquilo.
Afinal, o telefonema era acerca de um inquérito sobre a integração profissional dos licenciados em sociologia no ano lectivo 2006/07, que havia sido enviado aos licenciados por e-mail. Os licenciados que não responderam ao dito e-mail, foram contactados telefonicamente, no sentido de responder a esse inquérito, ou seja, quem não respondeu, tem de responder (mai nada!!!).
Como pessoa razoavelmente bem educada (e tinha algum tempo livre para preencher) aceitei responder ao dito inquérito. As respostas que dei não interessam ao «grande público», pese embora possa adiantar que me enquadrei na parte inferior das escalas em todas as respostas...
Mandam as «boas» regras da metodologia nas ciências sociais, quando não se obtém uma resposta de um inquirido, o que se deve fazer é recorrer a outro meio de contactar esse mesmo potencial inquirido.... Isto leva a resultados mais «fiáveis», uma vez que a taxa de resposta aumenta, com grande probabilidade o grau de satisfação com a escola e com o percurso profissional também crescem, ou seja, os resultados a que se chega, no final do inquérito (se fossem publicados e discutidos, não seria má ideia!!!), viabilizaram a estratégia propagandística sobre a integração profissional dos licenciados em sociologia de que nós já fomos vítimas...
O sistema reproduz-se, auto-legitima-se e perpetua a sua dominação...
E eu ainda atendi o telemóvel!!!
Afinal, o telefonema era acerca de um inquérito sobre a integração profissional dos licenciados em sociologia no ano lectivo 2006/07, que havia sido enviado aos licenciados por e-mail. Os licenciados que não responderam ao dito e-mail, foram contactados telefonicamente, no sentido de responder a esse inquérito, ou seja, quem não respondeu, tem de responder (mai nada!!!).
Como pessoa razoavelmente bem educada (e tinha algum tempo livre para preencher) aceitei responder ao dito inquérito. As respostas que dei não interessam ao «grande público», pese embora possa adiantar que me enquadrei na parte inferior das escalas em todas as respostas...
Mandam as «boas» regras da metodologia nas ciências sociais, quando não se obtém uma resposta de um inquirido, o que se deve fazer é recorrer a outro meio de contactar esse mesmo potencial inquirido.... Isto leva a resultados mais «fiáveis», uma vez que a taxa de resposta aumenta, com grande probabilidade o grau de satisfação com a escola e com o percurso profissional também crescem, ou seja, os resultados a que se chega, no final do inquérito (se fossem publicados e discutidos, não seria má ideia!!!), viabilizaram a estratégia propagandística sobre a integração profissional dos licenciados em sociologia de que nós já fomos vítimas...
O sistema reproduz-se, auto-legitima-se e perpetua a sua dominação...
E eu ainda atendi o telemóvel!!!
A apropriação selectiva dos «clássicos» e a construção de um consenso disciplinar (2)
Segundo José Castro Caldas, a apropriação selectiva do pensamento de Adam Smith resulta da eleição de uma única obra do autor (A Riqueza das Nações) como O (em negrito, singular e letra maiúscula) contributo fundamental do mesmo para a teoria económica.
Tudo o resto, incluindo a «muito menos lida Teoria dos Sentimentos Morais», é arrumado na prateleira do acessório e/ou negligenciável e/ou impertinente e/ou irrelevante.
Preferencialmente, tudo o resto não deve ser lido - os famosos «convites à (não) leitura» que se fazem no instituto.
Mas, se chegar a sê-lo, deve servir apenas como exemplo pedagógico negativo para aquel@s que estão a aprender A Verdadeira Economia (alun@s) e como ocupação de tempos livres para (algum@s) daquel@s que estão a ensinar A Verdadeira Economia (professor@s).
Incentivados a (não) ler umas obras em prejuízo (favor) de outras, muit@s d@s futur@s licenciad@s em Economia não só ficam com uma ideia distorcida dos «clássicos», como também se revelam incapazes de imaginar outros possíveis quer para a ciência económica quer para o mundo de «obrigações e gratidões mútuas» que ela estuda e que el@s habitam.
Mas o que é essa incapacidade senão o sintoma de um consenso disciplinar?
[continua]
Tudo o resto, incluindo a «muito menos lida Teoria dos Sentimentos Morais», é arrumado na prateleira do acessório e/ou negligenciável e/ou impertinente e/ou irrelevante.
Preferencialmente, tudo o resto não deve ser lido - os famosos «convites à (não) leitura» que se fazem no instituto.
Mas, se chegar a sê-lo, deve servir apenas como exemplo pedagógico negativo para aquel@s que estão a aprender A Verdadeira Economia (alun@s) e como ocupação de tempos livres para (algum@s) daquel@s que estão a ensinar A Verdadeira Economia (professor@s).
Incentivados a (não) ler umas obras em prejuízo (favor) de outras, muit@s d@s futur@s licenciad@s em Economia não só ficam com uma ideia distorcida dos «clássicos», como também se revelam incapazes de imaginar outros possíveis quer para a ciência económica quer para o mundo de «obrigações e gratidões mútuas» que ela estuda e que el@s habitam.
Mas o que é essa incapacidade senão o sintoma de um consenso disciplinar?
[continua]
A apropriação selectiva dos «clássicos» e a construção de um consenso disciplinar
No artigo que escreveu para a edição de Dezembro de 2008 do Le Monde Diplomatique («A impossibilidade de uma economia amoral»), o ladrão de bicicletas José Castro Caldas afirma que a crise que estamos actualmente a viver é a crise de «uma economia que se pensou a si mesma» como «amoral», e que «foi sendo politicamente construída à luz desse pressuposto».
A narrativa começa, segundo ele, na «página número um do Manual de Economia»...
Resultado: multidões de principiantes são assim levad@s a dar o seu assentimento a uma ideia que, além de nada ter de indiscutível, nem sequer faz juz ao pensamento do autor citado em seu apoio.
[continua]
A narrativa começa, segundo ele, na «página número um do Manual de Economia»...
Todos os economistas se lembram da página número um do Manual de Economia, em que a «rainha das Ciências Sociais» era apresentada aos neófitos como demonstração cabal, formal, matemática mesmo, da possibilidade de uma sociedade fundada no egoísmo....e prolonga-se (i.e. conquista legitimidade) na autoridade de um «clássico» da ciência económica:
Esta ideia surgia normalmente ilustrada com uma passagem de Adam Smith: aquela do talhante e do cervejeiro a cujo interesse próprio deveríamos apelar se deles quiséssemos obter o nosso jantar.No entanto, como o autor do artigo faz questão de lembrar, Adam Smith não era APENAS o ideólogo da «sociedade de mercadores» e do «interesse próprio», mas TAMBÉM alguém que compreendia a importância do «sentido de obrigação mútua (de natureza moral)» que rege todas as relações humanas (incluindo as relações contratuais) em sociedade.
Resultado: multidões de principiantes são assim levad@s a dar o seu assentimento a uma ideia que, além de nada ter de indiscutível, nem sequer faz juz ao pensamento do autor citado em seu apoio.
[continua]
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Durkheim e a «realidade indecisa»
Depois de afirmar (pela enésima vez!) que o social é qualquer coisa de diferente do individual, Émile Durkheim presenteia @ leitor@ com esta maravilhosa nota de rodapé (vale sempre a pena estar atent@ ao fundo de página!):
Segundo Durkheim, «há momentos em que a realidade é indecisa» («il y a des moments où la réalité est indécise»), isto é, momentos em que ela hesita caprichosamente entre fazer-se social ou fazer-se individual.
Mas porque é que ela tem obrigatoriamente de se decidir?
Porque é que esse estado sui generis de indecisão não se pode prolongar ad eternum?
Porque, diz o autor, se assim fosse, «não haveria nada no mundo que se distinguisse» («il n'y aurait rien de distinct dans le monde»).
Hum... «não haveria nada no mundo que se distinguisse» ou «não haveria nada no mundo que pudesse ser distinguido»?
Para Durkheim é exactamente igual, não fosse ele um especialista a fazer ontologia (coisas) com epistemologia (palavras)!
(e já dizia o adágio escolástico: quando deparares com uma contradição faz uma distinção)
Acrescentemos, para evitar qualquer interpretação inexacta, que não queremos dizer com isto que exista um ponto preciso em que termina o individual e em que começa o social. A associação não se estabelece de uma só vez e não produz todos os seus efeitos de forma imediata; necessita de tempo e, consequentemente, há momentos em que a realidade é indecisa. Assim, transita-se, sem interrupções, de uma distinção entre eles. De outro modo, se se admitisse que não há géneros distintos e que a evolução é contínua, não haveria nada no mundo que se distinguisse.[Le Suicide, tradução portuguesa, pág. 334]
Segundo Durkheim, «há momentos em que a realidade é indecisa» («il y a des moments où la réalité est indécise»), isto é, momentos em que ela hesita caprichosamente entre fazer-se social ou fazer-se individual.
Mas porque é que ela tem obrigatoriamente de se decidir?
Porque é que esse estado sui generis de indecisão não se pode prolongar ad eternum?
Porque, diz o autor, se assim fosse, «não haveria nada no mundo que se distinguisse» («il n'y aurait rien de distinct dans le monde»).
Hum... «não haveria nada no mundo que se distinguisse» ou «não haveria nada no mundo que pudesse ser distinguido»?
Para Durkheim é exactamente igual, não fosse ele um especialista a fazer ontologia (coisas) com epistemologia (palavras)!
(e já dizia o adágio escolástico: quando deparares com uma contradição faz uma distinção)
terça-feira, 14 de abril de 2009
(in)citações V
"A palavra de hoje é cada vez mais aquela que se despiu da dimensão poética e que não carrega nenhuma utopia sobre um mundo diferente"
Mia Couto, e se o Obama fosse africano? e outras interinvenções, pp.15
Esta é a minha preferida...
Mia Couto, e se o Obama fosse africano? e outras interinvenções, pp.15
Esta é a minha preferida...
(in)citações IV
"O que fez a espécie humana sobreviver não foi apenas a inteligência, mas a nossa capacidade de produzir diversidade. Essa diversidade está sendo negada nos dias de hoje por um sistema que escolhe apenas por razões de lucro e facilidade de sucesso."
Mia Couto, e se Obama fosse africano? e outras interinvenções, pp.15
Mia Couto, e se Obama fosse africano? e outras interinvenções, pp.15
(in)citações III
"Sou de um tempo em que o que éramos era medido pelo que fazíamos. Hoje o que somos é medido pelo espectáculo que fazemos de nós mesmos, pelo modo como nos colocamos na montra (...) a aparência passou a valer mais do que a capacidade para fazermos coisas. (...)Muitas das instituições que deviam produzir ideias estão hoje produzindo papéis, atafulhando prateleiras de relatórios condenados a serem arquivo morto. Em lugar de soluções encontram-se problemas. Em lugar de acções sugerem-se novos estudos."
Mia Couto, e se o Obama fosse Africano? e outras interinvenções, pp.41
Mia Couto, e se o Obama fosse Africano? e outras interinvenções, pp.41
(in)citações II
"A Universidade deve ser um centro de debate, uma fábrica de cidadania activa, uma forja de inquietações solidárias e de rebeldia construtiva. Não podemos treinar jovens profissionais de sucesso num oceano de miséria."
Mia Couto, e se o Obama fosse africano? e outras interinvenções, pp. 47
Mia Couto, e se o Obama fosse africano? e outras interinvenções, pp. 47
(in)citações
"A minha mensagem é simples: mais do que uma geração tecnicamente capaz, nós necessitamos de uma geração capaz de questionar a técnica"
Mia Couto, e se o Obama fosse africano? e outras interinvenções, pp.46
Mia Couto, e se o Obama fosse africano? e outras interinvenções, pp.46
domingo, 12 de abril de 2009
Sociedades Modernas Avançadas????!!!!???!!!??
Na 5ª feira vi, na SIC Notícias, um documentário sobre jovens sem-abrigo de uma cidade em França. Ao mesmo tempo que visionava os relatos daqueles jovens, – que transpiravam, nas suas frases, a implicitude dos seus sonhos e a frustração antecipada da eventualidade da não concretização dos mesmos – não conseguia evitar a insistente invasão da noção de Sociedade Moderna Avançada na minha mente. O avanço de certas sociedades em relação a outras é uma tese que vagueia displicentemente por muitas salas da sociologia iscteana, sem as “chatices” – que os "chatos" deste blogue insistem em exigir – de um debate de aprofundamento conceptual.
Ao ver o documentário, para além de me indignar com a manifesta desigualdade social que brotava do ecrã, questionava, sobretudo, o papel da sociologia na determinação de sociedades avançadas e atrasadas. Trata-se de um papel que utiliza a autoridade científica para reforçar e promover lógicas de dominação simbólica daquilo que foi convencionado como o OCIDENTE, o NORTE e (agora?) o MODERNO AVANÇADO. Ao ver o documentário pensei que a França, dentro do referido catálogo, é um País Moderno Avançado que, tal como muitos Países Modernos Avançados, impõe a muitos dos seus jovens a incerteza e o fechamento de inscrição nas verdadeiras oportunidades de crescimento. Pensei que na Guiné-Bissau - o meu país - que, no catálogo, é certo na gaveta dos PAÍSES PRIMITIVOS ATRASADOS nunca vi jovens a dormirem na rua. Pensei se não restariam à sociologia papéis mais dignificantes que a catalogação de sociedades avançadas e atrasadas? Pensei, porquê que a sociologia insiste em alimentar o ego dos gestores do sistema - mundo? E, finalmente, pensei, porque importa a catalogação, se pessoas “deste lado” e do “outro lado” continuam a ser esvaziadas de seus direitos de cidadãos desse nosso mundo que insistimos em fronteirizar.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Da estatística como instrumento de performatividade (conclusão)
Para Émile Durkheim, a estatística não é um mero procedimento analítico, mas um poderoso instrumento de performatividade ao dispor dos sociólogos: apresentando «todos os casos particulares indistintamente», ela torna possível (i.e. CREDÍVEL) o axioma durkheimiano da dissociação do social e do individual e, por conseguinte, torna dispensável a administração de uma prova.
A estatística é a «prova» da dissociação (admitindo que ainda faz sentido falar em «prova» e acreditando que ainda haverá alguém a perguntar por uma «prova»).
Ela torna possível (i.e. CREDÍVEL) o objecto sui generis de que a sociologia necessita para se estabelecer no panteão das ciências modernas.
Sem estatística ninguém acreditaria na dissociação; sem dissociação ninguém acreditaria na sociologia.
E você, car@ principiante?
Está dispost@ a acreditar numa ciência de «linhas abissais»?
A estatística é a «prova» da dissociação (admitindo que ainda faz sentido falar em «prova» e acreditando que ainda haverá alguém a perguntar por uma «prova»).
Ela torna possível (i.e. CREDÍVEL) o objecto sui generis de que a sociologia necessita para se estabelecer no panteão das ciências modernas.
Sem estatística ninguém acreditaria na dissociação; sem dissociação ninguém acreditaria na sociologia.
E você, car@ principiante?
Está dispost@ a acreditar numa ciência de «linhas abissais»?
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Um grande bem haja aos criminosos de ontem
"os criminosos de ontem são os legisladores de amanhã"
(Barreiros, J. A., 1982, Criminalização política e defesa do Estado, p. 814).
(Barreiros, J. A., 1982, Criminalização política e defesa do Estado, p. 814).
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Da estatística como instrumento de performatividade (4)
Se a «prova» não conta, então o que passa a contar no lugar da «prova»?
Durkheim chama-lhes «artifícios de método», isto é, tudo aquilo que concorre para a criação de um objecto sui generis devidamente expurgado de «elementos estranhos» e «misturas nocivas».
Percebe-se a ideia: mesmo que fique por provar a dissociação do social e do individual, se o sociólogo conseguir isolar analiticamente o primeiro do segundo, não só ninguém se importará por aí além com a ausência de uma prova, como até é expectável que com o passar do tempo muitos acabem convencidos de que os factos sociais são REALMENTE distintos das formas que assumem nas consciências individuais!
E o que é que permite isolar o social do individual?
O que é que torna possível o objecto sui generis da sociologia?
Durkheim tem a palavra:
[Les Règles de la Méthode Sociologique, tradução portuguesa, meus sublinhados, pág. 42-43]
[continua]
Durkheim chama-lhes «artifícios de método», isto é, tudo aquilo que concorre para a criação de um objecto sui generis devidamente expurgado de «elementos estranhos» e «misturas nocivas».
Percebe-se a ideia: mesmo que fique por provar a dissociação do social e do individual, se o sociólogo conseguir isolar analiticamente o primeiro do segundo, não só ninguém se importará por aí além com a ausência de uma prova, como até é expectável que com o passar do tempo muitos acabem convencidos de que os factos sociais são REALMENTE distintos das formas que assumem nas consciências individuais!
E o que é que permite isolar o social do individual?
O que é que torna possível o objecto sui generis da sociologia?
Durkheim tem a palavra:
Assim, há certas correntes de opinião que nos levam, com intensidade desigual, segundo o tempo e os países, uma ao casamento, por exemplo, outra ao suicídio ou a uma natalidade mais ou menos forte, etc. São, evidentemente, factos sociais. À primeira vista, parecem inseparáveis das formas que tomam nos casos particulares. Mas a estatística fornece-nos o meio de os isolar. Com efeito, são representados, com exactidão, pela taxa de natalidade, de nupcialidade, de suicídios, quer dizer, pelo número que se obtém dividindo o total médio anual dos casamentos, dos nascimentos e das mortes voluntárias pelo dos homens em idade de casar, de procriar, de se suicidar. Pois, como cada um destes números compreende todos os casos particulares indistintamente, as circunstâncias individuais que podem ter influência na produção do fenómeno neutralizam-se mutuamente e, por conseguinte, não contribuem para o determinar. O que ele exprime é um certo estado da alma colectiva.
[Les Règles de la Méthode Sociologique, tradução portuguesa, meus sublinhados, pág. 42-43]
[continua]
Da estatística como instrumento de performatividade (3)
A propósito desta passagem d'As Regras:
Durkheim afirma que os «casos importantes e numerosos» por ele citados «bastam» para «provar» que «o facto social é distinto das suas repercussões individuais».
Mas o próprio Durkheim ressalva logo a seguir que, para observar o facto social em «estado de pureza», é «indispensável» recorrer a «artifícios de método».
Ou seja: a realidade é o que eu digo que ela é, mas mesmo que não se pareça com o que eu digo que ela é, arranjarei maneira de fazer com que ela se pareça com o que eu digo que ela é!
(e ai de alguém que coloque a hipótese de estar enganado...)
Em bom rigor, nem é preciso averiguar se os «casos importantes e numerosos» chegam para «provar» o axioma da «dissociação».
Durkheim desiste num ápice de fazer valer a sua «prova» no debate das ideias.
De repente, os ditos «casos importantes e numerosos» deixam de contar.
Mas se a «prova» não conta, então o que passa a contar no lugar da «prova»?
[continua]
Durkheim afirma que os «casos importantes e numerosos» por ele citados «bastam» para «provar» que «o facto social é distinto das suas repercussões individuais».
Mas o próprio Durkheim ressalva logo a seguir que, para observar o facto social em «estado de pureza», é «indispensável» recorrer a «artifícios de método».
Ou seja: a realidade é o que eu digo que ela é, mas mesmo que não se pareça com o que eu digo que ela é, arranjarei maneira de fazer com que ela se pareça com o que eu digo que ela é!
(e ai de alguém que coloque a hipótese de estar enganado...)
Em bom rigor, nem é preciso averiguar se os «casos importantes e numerosos» chegam para «provar» o axioma da «dissociação».
Durkheim desiste num ápice de fazer valer a sua «prova» no debate das ideias.
De repente, os ditos «casos importantes e numerosos» deixam de contar.
Mas se a «prova» não conta, então o que passa a contar no lugar da «prova»?
[continua]
coisas que acontecem quando @ principiante se deixa levar pelo entusiasmo (quando é que inventam «capas anti-pretensiosismo»?)
«A natureza sui generis é um ideal; a sociologia, uma utopia»
terça-feira, 7 de abril de 2009
Da estatística como instrumento de performatividade (2)
Regressemos ao nosso problema.
Émile Durkheim postula que os «factos sociais» são distintos das suas «encarnações individuais».
Mas será que essa «dissociação» se apresenta sempre com «nitidez»?
Será que ela é sempre «imediatamente observável»?
Como é que o observador pode ter a certeza que vai encontrar no «social» justamente aquilo que aponta para a existência de uma natureza sui generis (i.e. a característica de serem distintos do «individual»)?
Não se poderá dar o caso do observador também encontrar outros elementos onde só julgava existir «social», «social» e «social»?
Na verdade, apenas as duas últimas perguntas são da responsabilidade do autor deste post.
As duas primeiras foram feitas e respondidas pelo próprio Durkheim na seguinte passagem d'As Regras:
[continua]
Émile Durkheim postula que os «factos sociais» são distintos das suas «encarnações individuais».
Mas será que essa «dissociação» se apresenta sempre com «nitidez»?
Será que ela é sempre «imediatamente observável»?
Como é que o observador pode ter a certeza que vai encontrar no «social» justamente aquilo que aponta para a existência de uma natureza sui generis (i.e. a característica de serem distintos do «individual»)?
Não se poderá dar o caso do observador também encontrar outros elementos onde só julgava existir «social», «social» e «social»?
Na verdade, apenas as duas últimas perguntas são da responsabilidade do autor deste post.
As duas primeiras foram feitas e respondidas pelo próprio Durkheim na seguinte passagem d'As Regras:
É claro que esta dissociação não se apresenta sempre com a mesma nitidez, mas basta que ela exista de um modo incontestável nos casos importantes e numerosos que acabamos de lembrar para provar que o facto social é distinto das suas repercussões individuais. Aliás, mesmo quando não é imediatamemte observável, podemos, por vezes, realizá-la com a ajuda de certos artifícios de método; é mesmo indispensável proceder a esta operação se quisermos isolar o facto social de todas as misturas para o observar em estado de pureza.[Les Règles de la Méthode Sociologique, tradução portuguesa, pág. 42]
[continua]
Da estatística como instrumento de performatividade
Quem não se lembra do axioma durkheimiano segundo o qual os «factos sociais» são distintos das suas «encarnações individuais»? [Les Règles de la Méthode Sociologique, tradução portuguesa, pág. 37 e ss.]
Ao longo da sua carreira, Émile Durkheim bater-se-á pelo reconhecimento da especificidade do «social», elegendo todos os signos do «individual» como referentes negativos daquilo que a sociologia (não) deveria tratar.
Porém, se hoje se pode dizer que esta «linha abissal» sobreviveu à morte de um dos seus maiores entusiastas, também se deve acrescentar que não é provável que esse sucesso póstumo tenha tido como causa determinante a argumentação de Durkheim sobre as diferenças entre o «social» e o «individual».
Neste ponto (como, aliás, em muitos outros), Durkheim ganha o combate não pelo valor intrínseco das suas ideias, mas sim por uma insistência verdadeiramente psicótica naquilo em que acredita (o que chega para fazer desistir muitos adversários, mas também para converter muitos incrédulos).
As lacunas no seu discurso, ou passam despercebidas, ou então são declaradas insignificantes para o entendimento das ideias (que assim são poupadas ao exame do debate livre e esclarecido).
Resultado: @ principiante menos prevenid@ acaba por dar o seu assentimento espontâneo a coisas que nada têm de indiscutíveis.
[continua]
Ao longo da sua carreira, Émile Durkheim bater-se-á pelo reconhecimento da especificidade do «social», elegendo todos os signos do «individual» como referentes negativos daquilo que a sociologia (não) deveria tratar.
Porém, se hoje se pode dizer que esta «linha abissal» sobreviveu à morte de um dos seus maiores entusiastas, também se deve acrescentar que não é provável que esse sucesso póstumo tenha tido como causa determinante a argumentação de Durkheim sobre as diferenças entre o «social» e o «individual».
Neste ponto (como, aliás, em muitos outros), Durkheim ganha o combate não pelo valor intrínseco das suas ideias, mas sim por uma insistência verdadeiramente psicótica naquilo em que acredita (o que chega para fazer desistir muitos adversários, mas também para converter muitos incrédulos).
As lacunas no seu discurso, ou passam despercebidas, ou então são declaradas insignificantes para o entendimento das ideias (que assim são poupadas ao exame do debate livre e esclarecido).
Resultado: @ principiante menos prevenid@ acaba por dar o seu assentimento espontâneo a coisas que nada têm de indiscutíveis.
[continua]
segunda-feira, 6 de abril de 2009
O que é que o movimento «Pela verdade científica» tem a ver com o movimento «Pela verdade desportiva»?
Verdade desportiva:
"A introdução das novas tecnologias no futebol, para reduzir a margem de erro dos árbitros, não tem necessariamente de mudar a essência do jogo: os seus ritmos, a beleza dos movimentos, a genialidade dos protagonistas. Mas dar-lhe-á verdade."
(Rui Santos, o tipo chato que aparece na sic notícias a falar mal de tudo e de todos).
Verdade científica:
"A introdução da capa anti-plágio na sociologia iscteana, para reduzir o potencial plagiador dos seus alunos, não tem necessariamente de mudar a essência da sociologia: os seus ritmos, a sua beleza, a genialidade dos seus protagonistas. Mas dar-lhe-á verdade."
(inventado há um minuto atrás...enquadra-se, quase na perfeição, nos argumentos dos gestores da sociologia performativa do instituto).
Rui Santos - a fonte de inspiração da famosa capa anti-plágio.
"A introdução das novas tecnologias no futebol, para reduzir a margem de erro dos árbitros, não tem necessariamente de mudar a essência do jogo: os seus ritmos, a beleza dos movimentos, a genialidade dos protagonistas. Mas dar-lhe-á verdade."
(Rui Santos, o tipo chato que aparece na sic notícias a falar mal de tudo e de todos).
Verdade científica:
"A introdução da capa anti-plágio na sociologia iscteana, para reduzir o potencial plagiador dos seus alunos, não tem necessariamente de mudar a essência da sociologia: os seus ritmos, a sua beleza, a genialidade dos seus protagonistas. Mas dar-lhe-á verdade."
(inventado há um minuto atrás...enquadra-se, quase na perfeição, nos argumentos dos gestores da sociologia performativa do instituto).
Rui Santos - a fonte de inspiração da famosa capa anti-plágio.
domingo, 5 de abril de 2009
Pedido indeferido
Lamento pela intermitência activista/bloguista, que me tem caracterizado nos últimos tempos. Tenho andado ocupado com aquilo a que chamam «tese de mestrado».
Infelizmente, devido a sequelas de malandrices extra académicas, a minha tese de mestrado passou para 74º plano - refira-se que, outrora, aquela tese ocupara o 73º posto, no ranking das minhas prioridades. Como devem calcular, isto é uma situação muito grave!
Depois de ter sido sujeito a uma intervenção cirúrgica, apresentei um atestado médico na secretaria, anexando uma cópia do mesmo, no requerimento que enviei para o presidente do ISCTE. Nesse requerimento, solicitei o adiamento do prazo de entrega da minha tese de mestrado.
No acto da realização do requerimento, fui confrontado com a descrença da funcionária que me atendeu: «Bom! Devo dizer-lhe que, sinceramente, não sei se, com Bolonha, estes pedidos têm consequência prática»...
Instalou-se, em mim, desde logo, a apreensão.
Menos de 24 horas após a realização do requerimento, recebi um mail, no qual, me foi dirigida a seguinte decisão:
"Em cumprimento com o despacho 21/2008 do Presidente do ISCTE, que estabelece os prazos para a entrega da dissertação de 30 de Junho ou 30 de Setembro do presente ano, cumpre-me informar que a sua solicitação foi indeferida, de acordo com o mesmo despacho, poderá inscrever-se de novo na dissertação até 12 de Dezembro de 2009, mediante o pagamento da propina de 500€ e respectiva taxa de inscrição".
Em menos de 24 horas, a decisão é comunicada ao requeredor. Que eficiência!
Não resisto a fazer esta observação: uma capa anti-plágio é suficiente para, através do seu valor «simbólico», inibir o potencial plagiador (existente em todos os alunos do ISCTE, sujeitos àquela medida preventiva). Um atestado médico não é suficiente para requerer um adiamento do prazo de entrega da tese de mestrado
Suficiente...só mesmo os 500 euros, mais inscrição...o resto é treta.
Infelizmente, devido a sequelas de malandrices extra académicas, a minha tese de mestrado passou para 74º plano - refira-se que, outrora, aquela tese ocupara o 73º posto, no ranking das minhas prioridades. Como devem calcular, isto é uma situação muito grave!
Depois de ter sido sujeito a uma intervenção cirúrgica, apresentei um atestado médico na secretaria, anexando uma cópia do mesmo, no requerimento que enviei para o presidente do ISCTE. Nesse requerimento, solicitei o adiamento do prazo de entrega da minha tese de mestrado.
No acto da realização do requerimento, fui confrontado com a descrença da funcionária que me atendeu: «Bom! Devo dizer-lhe que, sinceramente, não sei se, com Bolonha, estes pedidos têm consequência prática»...
Instalou-se, em mim, desde logo, a apreensão.
Menos de 24 horas após a realização do requerimento, recebi um mail, no qual, me foi dirigida a seguinte decisão:
"Em cumprimento com o despacho 21/2008 do Presidente do ISCTE, que estabelece os prazos para a entrega da dissertação de 30 de Junho ou 30 de Setembro do presente ano, cumpre-me informar que a sua solicitação foi indeferida, de acordo com o mesmo despacho, poderá inscrever-se de novo na dissertação até 12 de Dezembro de 2009, mediante o pagamento da propina de 500€ e respectiva taxa de inscrição".
Em menos de 24 horas, a decisão é comunicada ao requeredor. Que eficiência!
Não resisto a fazer esta observação: uma capa anti-plágio é suficiente para, através do seu valor «simbólico», inibir o potencial plagiador (existente em todos os alunos do ISCTE, sujeitos àquela medida preventiva). Um atestado médico não é suficiente para requerer um adiamento do prazo de entrega da tese de mestrado
Suficiente...só mesmo os 500 euros, mais inscrição...o resto é treta.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Prolegómenos a uma tese de mestrado: as perguntas difíceis
Comecemos pelas perguntas difíceis: o que é o social? Como pudemos acreditar que designa um universo objectivo e bem delimitado de fenómenos sui generis? Como se formou a crença de que estes fenómenos eram verdadeiramente distintos daqueles que químicos, biólogos e psicólogos já incluíam nos respectivos programas de investigação? E que só uma nova disciplina com ambições de cientificidade - a sociologia - poderia desvendar os seus segredos? Como pudemos advogar a explicação do social pelo social sem saber exactamente em que consiste o próprio princípio explicativo? Como é que uma ideia destas pôde fecundar tantos espíritos e ao mesmo tempo permanecer-lhes completamente ininteligível? Uma vez constituída, como pudemos acreditar que ela ficaria eternamente presa à sua condição de objecto da sociologia? O que nos garante que não ficaremos órfãos de objecto num futuro próximo? Que o objecto familiar se venha a transformar num objecto irreconhecível? Ou ainda que ele jamais tenha passado de uma quimera? Porque nos parecem bizarras estas hipóteses? Porque continuamos a evitar as perguntas difíceis?
quarta-feira, 1 de abril de 2009
ALERTA: vírus {@nti%utilitari$mo_2.0}
Depois dos graves prejuízos causados pelos vírus [parasita&como&voce] e NAO#assinamos, a comunidade sociológica portuguesa encontra-se novamente sob ameaça de um programa de investigação-acção malicioso.
Trata-se do vírus {@nti%utilitari$mo_2.0}: uma nova estirpe mega-super-hiper-resistente de um trojan horse francês conhecido pelo nome de código Revue_MAUSS.
Uma equipa de engenheiros informáticos do IST tem passado as últimas horas a tentar desvendar os segredos desta nova estirpe, mas ainda não foi possível apurar por que motivo o vírus atingiu com rapidez e violência a Universidade de Aveiro, a Universidade do Porto e o ISCTE, tendo deixado praticamente ilesas todas as outras instituições do campo académico português.
Os «gestores do saber performativo» da Fundação ISCTE, reunidos em assembleia extraordinária no novíssimo auditório Joe Berardo, já fizeram uma primeira contabilização de perdas: estima-se que milhares de «produtos-conhecimento» prontos a entrar no mercado tenham desaparecido ou ficado inutilizáveis.
Nos jornais e nas televisões comenta-se que o governo de José Sócrates estará a equacionar uma intervenção estatal para salvar o ISCTE da falência eminente.
Entretanto, o Departamento de Sociologia foi tomado de assalto por um grupo de «radicais»: fizeram reféns as secretárias e exigem o fim dos instrumentos «simbólicos» de «consciencialização pessoal».
Luís Reto, presidente da Fundação ISCTE, encontra-se neste momento barricado no seu gabinete (antes tinha tentado acalmar a multidão que protestava contra o pagamento de uma propina suplementar...).
As próximas horas prometem ser de grande tensão...até porque já acabaram os bitoques no bar do Sr. António!
Trata-se do vírus {@nti%utilitari$mo_2.0}: uma nova estirpe mega-super-hiper-resistente de um trojan horse francês conhecido pelo nome de código Revue_MAUSS.
Uma equipa de engenheiros informáticos do IST tem passado as últimas horas a tentar desvendar os segredos desta nova estirpe, mas ainda não foi possível apurar por que motivo o vírus atingiu com rapidez e violência a Universidade de Aveiro, a Universidade do Porto e o ISCTE, tendo deixado praticamente ilesas todas as outras instituições do campo académico português.
Os «gestores do saber performativo» da Fundação ISCTE, reunidos em assembleia extraordinária no novíssimo auditório Joe Berardo, já fizeram uma primeira contabilização de perdas: estima-se que milhares de «produtos-conhecimento» prontos a entrar no mercado tenham desaparecido ou ficado inutilizáveis.
Nos jornais e nas televisões comenta-se que o governo de José Sócrates estará a equacionar uma intervenção estatal para salvar o ISCTE da falência eminente.
Entretanto, o Departamento de Sociologia foi tomado de assalto por um grupo de «radicais»: fizeram reféns as secretárias e exigem o fim dos instrumentos «simbólicos» de «consciencialização pessoal».
Luís Reto, presidente da Fundação ISCTE, encontra-se neste momento barricado no seu gabinete (antes tinha tentado acalmar a multidão que protestava contra o pagamento de uma propina suplementar...).
As próximas horas prometem ser de grande tensão...até porque já acabaram os bitoques no bar do Sr. António!
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