quarta-feira, 29 de julho de 2009

Que tal transformarmos a nossa formação universitária num negócio? (2)

9 minutos e meio de conversa fiada... e um objectivo tão simples:



A passagem a instituto só veio confirmar as nossas suspeitas: o fim do ensino universitário ... e o início do negócio universitário.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Que tal transformarmos a nossa formação universitária num negócio?




...O iul a explorar o seu negócio...

Estou a viver uma crise existencial: em vez de estudante, sinto-me cliente. Estarei a aprender ou a pagar créditos?

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A minha experiência de iniciação (epílogo)



Será que ainda vamos a tempo de tirar as máscaras?

A minha experiência de iniciação (6)

Tão mau ou pior ainda do que a selectividade na amostra de textos (que deixa de fora a obra-prima de Durkheim!) é a selectividade na abordagem aos textos escolhidos.

Algumas inquietações na forma interrogativa:

1. Por que é que a leitura dos textos não é acompanhada de uma análise dos seus contextos de produção?

(falo por mim: só consegui entusiasmar-me verdadeiramente por Durkheim depois de ler coisas sobre o tempo em que ele viveu)

2. Por que é que os interlocutores de Durkheim são divididos grosseiramente em «pioneiros» e «inimigos» da sociologia?

(falo por mim: só consegui entusiasmar-me verdadeiramente por Durkheim depois de conhecer melhor os seus críticos contemporâneos)

3. Por que é que se exclui tudo aquilo que pode contrariar ou suscitar dúvidas sobre a identidade e o significado da obra de Durkheim?

(falo por mim: só consegui entusiasmar-me verdadeiramente por Durkheim depois de perceber que a sua obra é repleta de descontinuidades, tensões e contradições)

4. Por que é que a abordagem aos conceitos se resume a arranjar-lhes uma definição operativa?

(falo por mim: só consegui entusiasmar-me verdadeiramente por Durkheim depois de perceber que o conceito de «anomia» é muito mais do que «insuficiente regulação normativa»)

5. Por que é que se repetem as mesmas fórmulas vezes sem conta?

(falo por mim: só consegui entusiasmar-me verdadeiramente por Durkheim depois de perceber que «tratar os factos sociais como coisas» não significa apenas «tratar os factos sociais como coisas»)

[continua]

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A minha experiência de iniciação (5)

Percorrendo os meus apontamentos de 1º ano, descubro que o Durkheim que aí consta é resultado de uma dupla selectividade: selectividade na amostra de textos e selectividade na abordagem aos textos.

Começando pela selectividade na amostra de textos: por que é que o livro As Formas Elementares da Vida Religiosa não merece praticamente nenhum destaque enquanto, em sentido inverso, A Divisão do Trabalho Social, As Regras do Método Sociológico e O Suícido monopolizam todo o espaço de atenção reservado a Durkheim?

Dir-me-ão: uma amostra de textos é uma amostra de textos; como não é possível estudar toda a obra do autor em meia dúzia de aulas, faz-se uma selecção que privilegia uns textos em detrimento de outros.

E que critérios terão presidido a essa selecção?

Não faço ideia.

O que sei, porque já tive oportunidade de falar com ambos sobre o assunto, é que AFC e RPP consideram As Formas Elementares da Vida Religiosa um dos livros mais importantes da sociologia.

O primeiro chegou mesmo a dizer que «ninguém se podia considerar verdadeiramente sociólog@» sem ter lido este livro de Durkheim.

Não me admira que ambos tenham essa opinião do livro: depois de um trajecto de recepção bastante sinuoso, As Formas Elementares da Vida Religiosa é desde há vários anos considerada por muit@s sociólog@s a obra-prima de Durkheim.

O que me admira é que uma opinião tão positiva do livro não se traduza na sua inclusão nos currículos de 1º ciclo...

[continua]

A minha experiência de iniciação (4)

Percorrendo os meus apontamentos de 1º ano, confirmo uma suspeita de longa data: a imagem que nos foi transmitida de Durkheim é uma imagem pobre, cinzenta e aborrecida.

Sim, já sabemos o que pensa um dos professores: os alunos de 1º ano são uns coitadinhos incapazes de perceber os «clássicos».

Mas isso é justificação válida para os privar de um primeiro contacto estimulante com a obra dos «clássicos»?

O objectivo devia ser o de deixar água na boca, e não, como parece apanágio destes pseudo-pedagogos, o de encerrar o dossier poucos instantes depois de este ter sido aberto.

Ou será que só se abre o dossier justamente para impedir que ele jamais volte a ser aberto durante a formação académica?

Percorrendo os meus apontamentos de 1º ano, sinto-me enganado.

Explico já a seguir o porquê.

[continua]

Ouvido na secretaria do iul / iscte (2)

(de novo, a coordenadora de estudos pós-graduados da secretaria do iul):

«O problema é que, nos mestrados de bolonha, os requerimentos por motivos de saúde (e quaisquer outros motivos, suponho), deixam de ter efeito prático. A possibilidade - garantida por bolonha - de entregar a tese a 30 de junho ou a 30 de setembro, substitui o adiamento dos prazos de entrega das teses, por motivos de saúde do mestrando. Este intervalo garante essa flexibilidade aos alunos».

Em primeiro lugar, a explicação oficial do citado intervalo (entre 30 de junho e 30 de setembro) não contempla, de forma alguma, qualquer tópico em relação a adiamentos da entrega de teses de mestrado (nem por motivos de saúde, nem por outro motivo qualquer).
Por outro lado, mesmo se contemplasse tal tópico, o que fazer com as pessoas que permanecem incapacitadas por um período de tempo superior àquele intervalo?

Das duas uma: ou bolonha fecha os olhos a atestados médicos. Ou, então, algumas pessoas importantes no iul / iscte, essas sim, tapam os olhos, e engendram argumentações, no mínimo, criativas (mas sem nexo).

Apesar de crítico em relação a bolonha, devo subscrever a opinião de RPP:
"Bolonha tem as costas muito largas". De facto, há pessoas a acenar o tratado a fim de não se chatearem com adiamentos, ou simplesmente, a fim de fazer chegar mais £££.

Esta novela começou em Março, mas ainda não acabou. Fiquem para ver os próximos capítulos.

Ouvido na secretaria do iul / iscte

A propósito deste pedido indeferido, e da consequente vontade em recorrer daquela decisão, foi-me dito pela coordenadora de estudos pós-graduados da secretaria do iul/iscte:

«Eu sei que não concorda com a decisão, mas não recorra da decisão nesses termos (não diga que discorda). Seja mais simpático...faça um novo requerimento e espere por nova decisão».

domingo, 19 de julho de 2009

A minha experiência de iniciação (3)

Durkheim...

...esse Deus da iniciação que nos exige mil e um sacrifícios em troca de uma promessa...

A promessa da «reconciliação»:
«Il n'en n'est pas moins vrai que l'étude scientifique des faits humains, en nous apprenant à dominer notre sens propre dans l'examen de ces questions qui soulèvent si aisément les passions, rapproche les intelligences et prépare les voies à leur réconciliation. Le seul terrain commun où des raisons individuelles puissent se rencontrer et s'unir sans abdiquer, ce sont les choses. Or le principal objet de la science est justement de nous tirer hors de nous-mêmes pour nous approcher de plus en plus des choses»
[«L'enseignement philosophique et l'agrégation de philosophie», 1895, p. 27]

...«o único terreno comum onde as razões individuais se podem encontrar e unir sem abdicação são as coisas»

O que é isto?

Terá alguma coisa a ver com a regra «tratar os factos sociais como coisas» que aprendemos nas aulas de Metodologia?

O que diria o professor (aquele que comia as próprias palavras) de uma frase tão desconcertante quanto misteriosa?

[continua]

A minha experiência de iniciação (2)

Lembro-me de tanta coisa e, no entanto, tenho a sensação que me esqueci de outro tanto.

Esforço-me por resgatar memórias.

Mas que memórias são estas?

Não é possível resgatar o vivido tal como foi vivido pela primeira vez.

Não é possível resgatar aquela ilusão de principiante.

Ao fim de um certo tempo, um iniciado já não se lembra de quem era antes da iniciação.

Voluntarista como qualquer principiante que se preze, devo ter levado demasiado a sério os conselhos de Durkheim...

[continua]

A minha experiência de iniciação

Lembro-me de olhar para o relógio.

Lembro-me de ver o professor de Metodologia colocar o pé na cadeira enquanto falava, gesticulava e comia as próprias palavras.

Lembro-me de cinco ou seis marmanj@s na fila da frente e uma multidão de caras sonolentas encostadas à parede do fundo (@s marmanj@s também estavam sonolent@s, mas, sabe-se lá porquê, tinham a lata de se sentar perto do quadro).

Lembro-me das folhas do caderno com conceitos, definições e setas a ligar caixas (ou seriam antes caixas a ligar setas?).

Lembro-me de ter dúvidas.

Lembro-me de colocar dúvidas.

Lembro-me de ficar ainda com mais dúvidas.

Lembro-me do dia em que o professor de Sociologia Geral pareceu humano (ele próprio fez questão de o reconhecer).

Lembro-me dos rabiscos imperceptíveis que ele desenhava no quadro.

Lembro-me de um professor de Teorias que gostava de deixar questões no ar (e de não perceber se era suposto acertarmos ou não).

Lembro-me de ele ter dito que não era preciso ler os «clássicos».

Lembro-me de uma professora de Metodologia que só falava dela própria (até ao dia em que alguém lhe perguntou pelo «pós-modernismo»).

Lembro-me de ela ter ficado deveras espantada quando uma aluna adivinhou em poucos instantes a brilhante conclusão de um dos seus trabalhos.

Lembro-me da azáfama do corredor.

Lembro-me das cadeirinhas de madeira.

Lembro-me da hora que não passava.

Lembro-me de querer fugir.

Lembro-me de ter ficado.

[continua]

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Compra já a tua gamebox

A pré-época é propícia a grandes movimentações no mercado.
Porém, o iul/iscte recorre à velha máxima «Em equipa que ganha não se mexe».
Eis a espinha dorsal da equipa:

- A. F. da Costa comanda a defesa. Sempre solidário, AFC é exímio a dobrar as asneiras dos seus colegas de equipa (ver isto).

- no meio-campo, F. L. Machado é o «grande artista», especialista em enganar os adversários com dribles manhosos (ver isto e isto)

- no ataque, o inevitável R. P. Pires. Quando o mundo está prestes a desabar, «RPP resolve».

Em standby, estão os regressos de L. Capucha (fundamental, sobretudo, se houver tourada pelo meio) e...tcham, tcham, M. L. Rodrigues. Estes dois regressos estão, porém, dependentes de outras movimentações (no mercado político): serão corridos do ministério da educação? Se forem, o regresso à equipa maravilha está assegurado.

- não menos importante, o treinador não é Mourinho, mas também é Zé: José Viegas, o mestre das tácticas simbólicas.

Estás à espera do quê? Desembolsa uns $$$ jeitosos. Compra a tua gamebox "sociologia iul/iscte" e vem assistir, ao vivo, à sociologia espectáculo...OU NÃO.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Memórias do iscte: MTIS II

No segundo ano da licenciatura em sociologia no iscte, entre outras «pérolas», existia uma cadeira (é verdade, ainda não era unidade curricular!) chamada Métodos e Técnicas de Investigação em Sociologia II, leccionada por ASM.

Para além de muitos episódios, mais ou menos hilariantes, dos quais se destaca o insulto, proferido pela docente, a propósito de uma questão que o meu grupo pretendia incluir no questionário, direccionado a um amigo/autor deste blog. O inquérito era um instrumento de um trabalho subordinado ao tema do racismo. A docente achava que uma questão (Já participou em alguma actividade considerada ilícita?) era ofensiva e que por isso teríamos de a retirar, como é hábito, resistimos a essa ideia, até porque já havíamos tido essa mesma discussão, no grupo, aquando da construção do questionário.

Depois da argumentação, dita racional, ter falhado, os elementos do grupo envolvidos no «confronto», disseram à docente que a ideia da pergunta tinha sido proposta por um colega proponente não estava presente e que é preto. A resposta, perdão o insulto não tardou: "O... é um verdadeiro Michael Jackson..." Eis uma socióloga do iscte/iul que realizou trabalhos sobre imigrantes africanos em Portugal.

Asseguir ao insulto gratuito, a discussão ainda prosseguiu, mas perdeu sentido uma vez que a irredutibilidade da docente era manifesta.

Ofensivo e racista... Quem!!!! nós???

segunda-feira, 13 de julho de 2009

«Ascetismo»: elemento fundamental da iniciação sociológica (epílogo)



...é o espectro da solidão.

«Ascetismo»: elemento fundamental da iniciação sociológica (4)

Mas o que é a verdade científica?

Onde reside a sua positividade?

Valerá os sacrifícios realizados em seu nome?

Por vezes, na iniciação sociológica, a importância atribuída ao ascetismo é de tal ordem que este deixa de estar subordinado ao «culto positivo da ciência»: a possibilidade de aumentar a nossa compreensão do mundo, da natureza e dos seres humanos.

Pressionado pela «necessidade» de se libertar das «falsas evidências», das «categorias empíricas» e dos «conceitos formados fora da ciência», o iniciando revela-se incapaz de abraçar o que vem a seguir a todos esses rituais negativos.

Mas o que se pode seguir à morte do sujeito?

O que pode valer a pena se ele já não está presente?

Quem é o espectro que ocupa o seu lugar?

[continua]

domingo, 12 de julho de 2009

«Ascetismo»: elemento fundamental da iniciação sociológica (3)

Tal como toda a iniciação, a iniciação sociológica também tem um espírito ascético.

O que é a «ruptura com o senso comum» senão um rito negativo destinado a expurgar o iniciando de toda a subjectividade individual?

Recordemos o que diz Émile Durkheim a este respeito:
É, portanto, necessário que o sociólogo, quer no momento em que determina o objecto das suas pesquisas, quer no decurso das suas demonstrações, se abstenha resolutamente de empregar esses conceitos formados fora da ciência e em função de necessidades que nada tem de científico. É preciso que se liberte das falsas evidências que dominam o espírito do vulgo, que sacuda de uma vez para sempre o jugo dessas categorias empíricas que uma longa habituação acaba, muitas vezes, por tornar tirânicas.
[Les Règles de la Méthode Sociologique, tradução portuguesa, p. 64]

Em suma, é necessário que o sociólogo se esqueça de si próprio e se transforme num novo ser.

Mesmo que isso o faça sofrer.

Pois só um puro asceta pode aceder à «verdade científica».

[continua]

«Ascetismo»: elemento fundamental da iniciação sociológica (2)

Por vezes, lembra Durkheim, a importância atribuída ao ascetismo é de tal ordem que este se liberta da «subordinação» ao «culto positivo», passando a ocupar o «primeiro plano» na vida religiosa do crente.

Assim nasce o «ascetismo sistemático» que, assegura o autor, «não é mais do que uma hipertrofia do culto negativo».

Claro está que, onde nós vemos compulsão, o «puro asceta» só vê devoção, devoção e devoção.

Mas que tipo de devoção pode ser uma devoção baseada apenas no cumprimento de interditos de toda a espécie?

Poderá a fé religiosa ser definida única e exclusivamente de forma negativa?

É o paradoxo do «puro asceta»: um sujeito de elevado prestígio religioso que não sabe o que é a fé religiosa...

[continua]

«Ascetismo»: elemento fundamental da iniciação sociológica

Segundo Émile Durkheim, todas as religiões contêm um germe de «ascetismo» mais ou menos desenvolvido.

Por exemplo, nas cerimónias de iniciação dos aborígenes australianos, o iniciando é sujeito a um conjunto de experiências de dor, sofrimento e privação.

Acredita-se que essas experiências ajudam a elevar o iniciando acima da sua «vida profana» e das «necessidades» que esta lhe impõe.

Ajudam-no a «esquecer-se a si próprio».

Transformam-no num «novo ser».

E só um novo ser, acreditam os aborígenes, está autorizado/habilitado a participar no «culto positivo» do grupo.

[continua]

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Capuchinho vermelho e o manual de profissões

«Quem não trouxer, na próxima aula, o manual de profissões, não entra na sala!»

Capuchinho vermelho e o um-dó-li-tá

Uma das muitas deprimências protagonizadas por Luis Capucha, durante as suas aulas:

«Quero que alguém me responda a esta pergunta [...] Como ninguém se voluntariza, vou, através da folha de presenças, sortear 5 alunos. De seguida, vou enumerar de 1 a 5, num papel, os alunos sorteados, e vou pedir a um de vós que escolha um desses números. Quem será o feliz contemplado?»

Eu andei a pagar propinas para assistir a isto?!
Não há jovens mais capacitados para dar aulas?!
E está este senhor no ministério da educação.
HILARIANTE!

terça-feira, 7 de julho de 2009

«O programa era o mesmo há dez anos»

«[...] um colega velhadas, da cadeira de «Desenvolvimento Económico», dissera-me um dia que o ordenado de professor lhe servia para o supermercado e as viagens de fim-de-semana, o importante eram os relatórios, nem preparava as aulas, improvisava a partir das notícias dos jornais económicos, o programa era o mesmo há dez anos, a que, todos os anos, acrescentava um ou outro item na moda e um ou outro livro na bibliografia retirado do trabalho dos alunos [...]»

A Ministra de Miguel Real, p. 97

«Não faz parte da ciência»

«[...] uma aluna voluntária, estudante-trabalhadora, formada em História, invocara os Descobrimentos como exemplo de que também tínhamos sido capazes de não só sermos iguais como superiores à Europa, eu, agreste, reagindo, fulminara a aluna, por isso lhe chamamos «gesta», «saga», «aventura», isto é, algo superior a nós que apenas o nosso desespero ou a religião pode explicar, acontece uma vez num milhão, não faz parte da ciência, disse, calando-a [...]»

A Ministra de Miguel Real, p. 82

«Pormenorizadamente regulamentada»

«Hoje, catedrática, defendo nas minhas aulas que a liberdade, herança histórica do Iluminismo do século XVIII e do romantismo liberal do século XIX, deveria ser, no século XXI, com o crescimento populacional abrupto e a formação das megapólis de cinco milhões de habitantes, não abolida, a tanto não me atrevia, logo cognominada de tirânica e ditatorial pelos meus pares académicos e pelos alunos, mas pormenorizadamente regulamentada, como se regulamentam as zonas comercializadas dos corpos dos animais, em que condições são vendidas, durante quanto tempo, grau de congelação e outros imponderáveis que, por via da lei, se tornam ponderados [...]»

A Ministra de Miguel Real, p. 79

«Uma porcaria de revista»

«[...] serenava-me migar couves para o caldo verde ou ralar cenouras para a salada, amaldiçoava o nascimento da bestazinha, a tese de doutoramento a meio, cinco números sem a minha participação na Revista de Sociologia, não lidos senão parcialmente, o colega travesso do Departamento com artigos em todos os números, uma porcaria de revista, de facto, mas era importante mostrar investigação, ainda que copiada de artigos de revistas inglesas [...]»

A Ministra de Miguel Real, p. 49

«Um meio ao serviço de todos os fins»

«Foi meu sonho como assistente universitária escrever um manual de construção e manipulação de números, tabelas e estatísticas, evidenciando ser a sua natureza um meio ao serviço de todos os fins, defensor de todas as teses, mesmo as mais contrárias e contraditórias [...]»

A Ministra de Miguel Real, p. 28

«És um empecilho para Portugal»

«Uma estudante, crente em soluções políticas de esquerda, apodou-me como o mais insensível e desumano dos professores da Faculdade, eu, informada, procurei a estudante no bar dos alunos e humilhei-a à frente dos colegas, acusando-a de mente arcaica, neandertal da política e da sociologia, crédula no igualitarismo de massas ignaras e empobrecidas, chamei-lhe Velha do Restelo e marxista pré-histórica, neta das ilusões anarquistas do Maio de 68 e das crenças milenaristas e utópicas da igualdade californiana e woodstockiana dos anos sessenta e setenta, és um empecilho para Portugal, disse-lhe [...]»

A Ministra de Miguel Real, p. 22

«Nunca possuí uma ideia original»

«Tenho consciência de que nunca possuí uma ideia original, nunca escrevi uma página original nem nunca dei uma aula original, saco as ideias de relatórios europeus e, trabalhando as estatísticas, apresento-as como próprias, o que não chega a ser plágio, antes transferência e circulação de ideias no espaço europeu [...]»

A Ministra de Miguel Real, p. 21

«A Ministra» de Miguel Real


Nota do Autor:

«A personagem de A Ministra só existe no plano da ficção. Transfigurá-la da ficção para a realidade e alojá-la em tal ou tal pessoa é um exercício permitido pela imaginação. Porém, esse exercício, de que só o leitor será responsável, nada acrescenta à ficção. A intenção do autor foi - exclusivamente - a de desenhar ficcionalmente, como tipo literário geral, uma mulher feia, triste e de existência infeliz, e, por isso, autoritária e severa, antes de mais consigo própria, uma mulher que nunca conheceu o amor»

«...esse exercício, de que só o leitor será responsável, nada acrescenta à ficção»

E a ficção?

Diz-nos alguma coisa sobre a realidade?

Fiquem para ver!

domingo, 5 de julho de 2009

Memórias do iscte: Laboratórios 2

Aqui começa um conjunto de post's que, com maior ou menor frequência, se vão fundar no baú das minhas memórias, principalmente, nos anos e aulas da licenciatura.

Era uma vez, uma unidade curricular do 1º ano, 2º semestre, da licenciatura em sociologia, ainda no iscte. Laboratório II: Indicadores Estatísticos e Pesquisa Documental, era a dita uc, que no ano lectivo 2004/05 esteve para se leccionada por MLR (não menos conhecida por milu noutros fóruns) que devido a imprevidências do destino teve de ir "servir a pátria". Assim, a transmissão dos "conteúdos" da uc foi executada por JM e SC, em regime rotativo: uma semana cada um!

Como sabem, ou deveriam saber os licenciados em sociologia do iscte, esta uc tinha por missão familiarizar, os «imberbes» aspirantes a sociólogos, com a produção estatística oficial. Missão essa, que foi sendo levada a cabo ao longo de um, sonolento, semestre. Por entre siglas mais ou menos indecifráveis, até fiquei a saber que Portugal tem 308 municípios 4mil e tal freguesias (aih a minha memória!!!). Conhece-mos institutos de estatística e tivemos de produzir um trabalho que versava sobre a construção de indicadores estatísticos.

Tal como em todos os laboratórios, a avaliação nesta uc era ditada em grande medida pela assiduidade dos licenciandos às aulas. Veja-se o meu caso: foi o único laboratório a que assisti a mais de 80% das aulas, logo tive 16; já nos restantes (salvo a excepção, óbvia, do 3º ano) a minha nota foi sempre 13 valores e posso assegurar que a presença nas aulas não ultrapassou os 40%.

Daqui se prova: o esforço e, principalmente, o sacrifício são recompensados!!!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Da iniciação sociológica (conclusão)

As razões do duplo estatuto privilegiado de Les Règles de la Méthode Sociologique devem ser procuradas na dialéctica entre o texto e os discursos que se foram produzindo a seu respeito desde a data da sua publicação (1895) até aos dias de hoje.

Embora não tenha realizado um exercício dessa amplitude (os meus conhecimentos sobre a trajectória do texto resumem-se a dois ou três estudos de recepção que tive oportunidade de ler), gostaria de partilhar convosco uma hipótese meramente exploratória.

Les Règles de la Méthode Sociologique conserva o estatuto de texto «clássico» (e, dentro desta categoria, o estatuto de texto «clássico» de elevada relevância pedagógica) porque lhe é reconhecida a capacidade de transmitir o axioma fundamental de toda a sociologia e de todas as sociologias: a existência de um objecto próprio distinto dos objectos das outras ciências.

Esqueçamos as «regras». Esqueçamos o «método». Esqueçamos a «epistemologia».

Se parecemos condenados a regressar ciclicamente ao texto, é porque o problema da legitimidade disciplinar continua a colocar-se a todos os praticantes da sociologia contemporânea.

Se continuamos a promovê-lo como ponto de partida da iniciação sociológica, é porque reconhecemos não ter outra resposta senão a que Durkheim nos ofereceu há mais de um século.

Afinal de contas, o ethos da ciência não se explica.

Ou se interioriza...ou então não se interioriza.


E àquel@s que o interiorizam com sacrifício e abnegação, chamamos «sociólog@s».

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A serenidade do desgavetamento

Acabei o trabalho de Desenho de Pesquisa, assim:

"Ao longo deste trabalho, fui insistindo na ideia de pré-projecto, pois, o que foi colocado nestas páginas, nada tem de concluído, de definitivo ou de consolidado. São, essencialmente, conjuntos de ideias, de inquietações que se encontram a trilhar os caminhos da formação de um corpo mais estruturado. O que se pretendeu, aqui, foi dar início ao processo de estruturação de um projecto de investigação, percorrendo pistas e perspectivas de desenvolvimento de olhares, sobre um objecto que ganha complexidade no desafio das suas próprias fronteiras."
O inacabado dá aquela serenidade prazeirosa, que só o principiante sabe gozar ...

Da iniciação sociológica (7)

Émile Durkheim é considerado por muitos um dos autores «clássicos» da sociologia.


Contam-se entre os seus textos mais difundidos: De la Division du Travail Social (1893), Les Règles de la Méthode Sociologique (1895), Le Suicide (1897) e Les Formes Élémentaires de la Vie Religieuse (1912).

São os textos «clássicos» de um autor «clássico».

Todos eles, sem excepção, continuam a ser lidos, discutidos e citados por sociólogos do mundo inteiro.

Embora pelo menos um deles - De la Division du Travail Social - já tenha visto melhores dias, todos continuam a deter um «estatuto privilegiado» (para recuperar a expressão de Jeffrey Alexander) em relação a obras contemporâneas.

No entanto, nem todos são convocados de igual maneira para a iniciação sociológica.

Dos quatro livros supramencionados, Les Règles de la Méthode Sociologique é aquele que tende a assumir maior destaque nas primeiras aprendizagens dos principiantes.

Recordando a minha experiência de iniciação, apercebo-me de que terá sido um dos pouco textos «clássicos» cuja leitura nos era altamente recomendada (para não dizer obrigatória).

A que se deve este estatuto privilegiado de um «clássico» na iniciação sociológica?

[continua]

Da iniciação sociológica (6)

Qual é o papel dos «clássicos» na iniciação sociológica?


Assim como cada «clássico» se tornou um «clássico» por razões próprias (i.e. razões que encontramos apenas na sua respectiva trajectória de recepção), também cada «clássico» se presta a um uso específico na iniciação sociológica.

E isto acontece porque a atribuição de relevância pedagógica não coincide ponto por ponto com o reconhecimento de relevância disciplinar dos textos/autores «clássicos».

Nem todos os textos/autores «clássicos» aos quais se atribui elevada relevância disciplinar são necessariamente reconhecidos como muito relevantes para as práticas pedagógicas (já o contrário parece ser improvável, pois a atribuição de relevância disciplinar costuma andar de mãos dadas com o reconhecimento da «classicalidade»).

Por outras palavras, dificilmente um texto/autor conquista o estatuto de «clássico» (apenas) pelo reconhecimento da sua relevância pedagógica; mas esta última, se não constitui critério de «classicalidade», forma uma clivagem no interior do conjunto mais ou menos (in)estável dos textos/autores «clássicos».

Nos dois pólos de uma escala imaginária, teríamos:

De um lado, os «clássicos» bons para a iniciação dos sociólogos.

Do outro, os «clássicos» maus (ou menos bons) para a iniciação dos sociólogos.

(embora todos sejam importantes no âmbito disciplinar tout court)

Confuso?

Talvez o exemplo de Émile Durkheim nos ajude a perceber melhor o que se encontra aqui em discussão.

[continua]

Da iniciação sociológica (5)

O que têm os «clássicos» de tão especial?


«Classicalidade».

(e o que é a «classicalidade»?)

Ao contrário do que podíamos ser levados a supor, não se trata de uma qualidade intrínseca de um texto ou de um autor.

Se um texto/autor possui um «estatuto privilegiado» (para usar uma expressão de Jeffrey Alexander) em relação textos/autores contemporâneos, não é porque exista algo nesse texto/autor que o promova imediata e inequivocamente ao panteão dos grandes textos e dos grandes autores, mas sim porque existe algo na «relação entre esse texto/autor e os discursos que se foram produzindo a seu respeito» (para usar a fórmula de Peter Baehr) que o transforma num ponto de referência obrigatório nas práticas pedagógicas e nas práticas de investigação dos sociólogos.

O estatuto privilegiado conquista-se (e perde-se) na trajectória de recepção dos textos/autores.

Não há duas trajectórias iguais: cada «clássico» aquire esse estatuto de uma forma distinta.

Por isso, como lembra Peter Baehr, não é possível determinar «critérios fixos de classicalidade».

[continua]